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O susto aconteceu como uma
dentada. Ele tirou as botas e a máscara. Então
sorriu o gato de Alice. Aquele olhar abriu-me
como uma seteira: radiografia que ossificou.
De sobre cezânias, levantei e pus-me
a um semicúpio nas águas tranqüilas daquele
braço do Atlântico. A água lacrimosa grudava em
mim como que vampirizando. Mesmo com uma
preguiça corporal, avistei algumas pedras. De
formatos felinos. A três metros dali. Criando
uma senda.
Enlameada, mas mais disposta ao sair
do mar, entro no caminho. Eis que, ali, no
coração pétreo, encontro um mapa encrustrado,
entalhado e com inscrições.
Uma engrenagem era composta por
dentes. A cor de dentina: familiar. Sinto minhas
pernas amarradas e uma vasca. Vertigens me
empurram a sentar. Obrigada e já no chão,
reconheço uma antiga escrita usada por
curandeiros europeus: médicos fugidos por serem
adeptos a regimes escravocratas ilegais.
Após uma série de náuseas e do
sentir um gosto de sangue na boca, girando minha
cabeça consegui entender que a cada mudança de
ciclo lunar uma peça precisava ser agregada à
engrenagem.
O que um laico poderia chamar de
ritual sagrado, mágico ou algo assim, se
revelava como um pedacinho do inferno na terra.
Sensações e percepções são inteligências...e as
minhas, comumente equilibradas e nos eixos,
faziam minha razão ter a certeza de que energia
boa não foi produzida ali. A lógica se
manifestava explicando os sintomas.
Como carregar as pedras com mapa e
receituário não era fisicamente possível, olhei
tudo com a máxima atenção e gravei
fotograficamente na minha mente aquela bruxaria:
misteriosa arte, planejamento e logística de
maldição.
Já no hotel - referência para
turistas de literatura de todas as partes do
mundo -, me pus a pesquisar sobre a história das
redondezas. Estranhamente não conseguia
expressar o ocorrido a quem quer que fosse.
Folheei um livro, outro... Páginas
com mapas antigos... Cheguei, então, a uma
espécie de diário. Abri aleatoriamente.
A janela em frente à mesa onde eu
estava gritou o bater da ventania, anunciando
temporal. Pisco e, na beirada, três gatos me
olham e sorriem. Sacudi a cabeça, piscando os
olhos algumas vezes, quando sumiram de lampejo
com o trovejar e o iniciar da tempestade.
Volto às leituras e ao primeiro
fitar daquela página tive: “O que se transmite
hereditariamente são os efeitos do pecado e não
o pecado em si. Este não é hereditário”. Reli o
trecho e procurei a autoria daqueles manuscritos
fotocopiados: um tio-avô meu, médico galego,
veio e pôs-se a conversar.
Nesse instante senti as gotas da
chuva como se dentro de mim estivessem e
limpando o que não fluía. Das minhas costas
espinhos saíram. E também as sensações de
delicioso alívio e de leveza fizeram com que eu
fechasse os olhos ali mesmo, sobre os livros.
A margem da laguna foi propriedade
de espíritos maus que materializavam o mal e
pediam por ele. Era uma cadeia que, destruída,
libertou o que era vítima vampirizada. E sem
responsabilidade pelo próprio céu.
Tendo a verdade escrita e revelada, a
transformação tornou-se pura, em verbo: agora
aquelas eram águas santas, com vida. Três murtas
frondosas nasceram de entre as pedras e perfumam
angelicalmente quando florescem.
Busquei o anular das maldições: com as águas do
sacrifício lavei os pés de Jesus. |