ISSN 1678-8419  

Última atualização feita em:20-06-2005 17:56
 
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Laguna
por Ana Marina Godoy

 

O susto aconteceu como uma dentada. Ele tirou as botas e a máscara. Então sorriu o gato de Alice. Aquele olhar abriu-me como uma seteira: radiografia que ossificou.

            De sobre cezânias, levantei e pus-me a um semicúpio nas águas tranqüilas daquele braço do Atlântico. A água lacrimosa grudava em mim como que vampirizando. Mesmo com uma preguiça corporal, avistei algumas pedras. De formatos felinos. A três metros dali. Criando uma senda.

            Enlameada, mas mais disposta ao sair do mar, entro no caminho. Eis que, ali, no coração pétreo, encontro um mapa encrustrado, entalhado e com inscrições.

            Uma engrenagem era composta por dentes. A cor de dentina: familiar. Sinto minhas pernas amarradas e uma vasca. Vertigens me empurram a sentar. Obrigada e já no chão, reconheço uma antiga escrita usada por curandeiros europeus: médicos fugidos por serem adeptos a regimes escravocratas ilegais.

            Após uma série de náuseas e do sentir um gosto de sangue na boca, girando minha cabeça consegui entender que a cada mudança de ciclo lunar uma peça precisava ser agregada à engrenagem.

            O que um laico poderia chamar de ritual sagrado, mágico ou algo assim, se revelava como um pedacinho do inferno na terra. Sensações e percepções são inteligências...e as minhas, comumente equilibradas e nos eixos, faziam minha razão ter a certeza de que energia boa não foi produzida ali. A lógica se manifestava explicando os sintomas.

            Como carregar as pedras com mapa e receituário não era fisicamente possível, olhei tudo com a máxima atenção e gravei fotograficamente na minha mente aquela bruxaria: misteriosa arte, planejamento e logística de maldição.

            Já no hotel - referência para turistas de literatura de todas as partes do mundo -, me pus a pesquisar sobre a história das redondezas. Estranhamente não conseguia expressar o ocorrido a quem quer que fosse.

            Folheei um livro, outro... Páginas com mapas antigos... Cheguei, então, a uma espécie de diário. Abri aleatoriamente.

            A janela em frente à mesa onde eu estava gritou o bater da ventania, anunciando temporal. Pisco e, na beirada, três gatos me olham e sorriem. Sacudi a cabeça, piscando os olhos algumas vezes, quando sumiram de lampejo com o trovejar e o iniciar da tempestade.

            Volto às leituras e ao primeiro fitar daquela página tive: “O que se transmite hereditariamente são os efeitos do pecado e não o pecado em si. Este não é hereditário”. Reli o trecho e procurei a autoria daqueles manuscritos fotocopiados: um tio-avô meu, médico galego, veio e pôs-se a conversar.

            Nesse instante senti as gotas da chuva como se dentro de mim estivessem e limpando o que não fluía. Das minhas costas espinhos saíram. E também as sensações de delicioso alívio e de leveza fizeram com que eu fechasse os olhos ali mesmo, sobre os livros.

            A margem da laguna foi propriedade de espíritos maus que materializavam o mal e pediam por ele. Era uma cadeia que, destruída, libertou o que era vítima vampirizada. E sem responsabilidade pelo próprio céu.

Tendo a verdade escrita e revelada, a transformação tornou-se pura, em verbo: agora aquelas eram águas santas, com vida. Três murtas frondosas nasceram de entre as pedras e perfumam angelicalmente quando florescem. 

Busquei o anular das maldições: com as águas do sacrifício lavei os pés de Jesus.

 

 

 

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Ana Marina Godoy é turismóloga.
turismologia@bol.com.br

 

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