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A
poesia, um dos mais fecundos entre os gêneros literários, raramente encontra
espaço em revistas e jornais. No passado, não muito remoto, até mesmo a
televisão promovia a declamação de poemas clássicos da nossa literatura.
Hoje prevalece a opção pelo imediatismo, de modo
que a sociedade pudesse dispensar a arte e o lirismo poético. Relegando o
que existe de mais sublime e definitivo no ser humano, a força de um
sentimento e a poesia como a expressão máxima deste sentimento. Apesar desse
gênero vender menos livros, a produção poética brota de forma
incessante. Soa como uma incoerência: vende pouco e por que se compõe tanta
poesia? Os poetas não têm espaço na grande mídia e não obtêm lucros com seus
trabalhos; a poesia está fora da esfera comercial. Uma arte sem mercado.
Assim, torna-se ainda mais especial, a arte que sobrevive à margem do sistema.
Talvez este seja o grande segredo da poesia.
Mas, para que serve a poesia? Uma das melhores respostas se encontra nas
palavras do poeta Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego:
“Os
críticos podem dizer que determinado poema, longamente ritmado, não quer,
afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é
difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom
em memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos
astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira”.
A
poesia possibilita exceder os limites, tocar a sensibilidade, incitar novas
formas de pensamento e sobretudo é capaz de provocar um sorriso. Uma
oportunidade para sair da mesmice insossa do
cotidiano; ao percorrer pelo caminho do revigorante e tão necessário
lirismo. Poesia rima com alegria e alarga
os horizontes para a criatividade, oferece mais substância e sentido a nossa
realidade.
Pela falta de conhecimento, pouca divulgação e a não valorização dos grandes
poetas do cenário nacional, a poesia se mantém como algo decorativo e
ilustrativo; para ser lida em ocasiões especiais, como em datas
comemorativas. Entretanto, além de despertar sentimentos que podem servir de
referência para inúmeras pessoas, suscita importantes reflexões de ordem
social.
Cabe ressaltar a abrangência de uma denúncia, em
forma de poema, talvez uma das mais contundentes sobre a destruição do Salto
Sete Quedas para a formação do Lago de Itaipu, ocorrida em 1982, no Estado
do Paraná. Escrita por Carlos Drummond de Andrade, ocupou uma página
inteira, em grandes letras, da capa do Caderno B do Jornal do Brasil no dia
09 de setembro de 1982. Abaixo os últimos versos:
“Sete quedas por nós passaram,
e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
e todas sete foram mortas,
e todas sete somem no ar,
sete fantasmas, sete crimes
dos vivos golpeando a vida
que nunca mais renascerá.”
A história registrada pela sensibilidade. Que outra forma de denúncia pode
ser tão expressiva tal qual a poética? São impressões da alma do poeta que
registram o presente e o passado pela emoção
vivida. Como seria louvável, caso pudéssemos desfrutar de poemas sobre os
diversos acontecimentos, entre alegrias e tristezas, impressos em jornais e
revistas.
Mesmo ignorada pela grande mídia, a poesia está e sempre estará presente,
engrandecendo a linguagem e fortalecendo a nossa identidade; seja a dos
grandes autores, preservadas como relíquias pelo tempo. E as novas, sempre
tentando furar o bloqueio da lógica utilitarista e imediatista, buscando
caminhos para a sua propagação. A internet propicia muitas páginas para a
divulgação de novos autores, pode-se dizer que há um grande espaço
alternativo, no qual a produção poética flui abundantemente neste solo
fértil. Desprezada por muitas editoras, saindo da forma clássica dos livros
e adentrando o mundo cibernético; movida a muitos gigas de potência,
continua viva e apreciada. Expressa e discutida virtualmente em revistas,
comunidades específicas e blogs poéticos.
Distante de um olhar meramente consumista que impõe à sociedade novas
necessidades materiais para serem atendidas, a poesia oferece o
indispensável alimento da alma. E como existe inúmeros motivos para datas
comemorativas, a poesia também tem o seu dia. No dia do nascimento do poeta
Castro Alves, 14 de março, ficou estabelecido como o Dia Nacional da Poesia.
Neste mesmo mês, em 21 de março, celebra-se o Dia Mundial da Poesia. Que em
muitas outras datas a poesia mereça uma reflexão. Na contramão do
consumismo, necessitamos de mais tempo para a contemplação reflexiva e para
o tão propalado, mas ainda pouco praticado, ócio criativo.
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