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Diante da discussão sobre o
Plano Nacional de Direitos Humanos um episódio reavivou-se em minha
memória. Muito tem sido escrito e falado sobre os desaparecidos e os que
sobreviveram à ditadura e atualmente ocupam posições de destaque
na sociedade. Mas, quantos não tiveram essa chance? Quantos foram
condenados ao esquecimento pelas sequelas das torturas ocorridas nos
porões da ditadura? Quantos foram impedidos de, ao menos tentar,
satisfazer os seus desejos e suas aspirações pessoais e profissionais?
Relato um caso que me chocou
bastante. Em certa ocasião, recebi o convite para um almoço na casa da
prima de uma amiga. Logo que chegamos nos causou estranheza o
comportamento da irmã mais nova da dona da casa, muito retraída e que
desesperadamente tentava, sem êxito, preparar alguma coisa na cozinha
para as convidadas. Até que fui alertada pela minha amiga: ela foi
torturada pela ditadura. Fiquei estarrecida, pois se passaram mais de
vinte anos daqueles terríveis "anos de chumbo". Soube depois de toda a
sua história e a crueldade da qual foi vítima, as torturas dilaceraram a
sua alma.
A moça em questão chamava-se
Maria, estudava Ciências Sociais na USP, presa e torturada aos dezenove
anos de idade. Não pertencia aos grupos dos opositores mais temidos
pelos ditadores, tais como a Ação Libertadora Nacional, o Movimento
Revolucionário Oito de Outubro ou outro movimento organizado mais
ousado, tratava-se apenas de uma estudante idealista e indignada com a
repressão vigente na época, revolta mais contundente quando se tem
dezenove anos de idade. Poderia usufruir do conforto de uma vida
tranquila, adequada aos padrões da sua família paulistana de classe
média, mas as amargas consequências da tortura continuam presentes.
Maria reside no apartamento da
irmã em um agradável bairro de São Paulo. Possui a segurança afetiva e
financeira que a família lhe proporciona, mas sequer pode trabalhar um
dia de sua vida. Demonstra sentimentos de culpa e ansiedade alternados
com momentos de profunda depressão. Vive em estado de alerta permanente,
desconfia de todos, evita sair para a rua e não se pode conversar com
ela a respeito daquele período, resquícios das lembranças ainda muito
doloridas.
Imagino
a intensidade do seu sofrimento pelo extenso rol das crueldades
praticadas pela ditadura militar, que incluíam choques elétricos, pau de
arara, aplicação de injeções de éter, afogamentos e
muitos espancamentos. Imagino também quantos casos semelhantes existem
em nosso país. Quantas vidas foram interrompidas não pela morte, mas
pela impossibilidade de realizar coisas para nós tão banais, como
preparar um almoço, fazer compras em um supermercado, trabalhar, enfim
ter uma vida considerada normal. Uma existência aniquilada pela retirada
da paz de espírito e da tranquilidade.
As lembranças das brutalidades
sofridas permanecem por longos e árduos anos e chega-se a admitir a
possibilidade da morte como alternativa para se livrar delas. O caso do
Frei Tito de Alencar Lima é um exemplo, preso e torturado na década de
70, enforcou-se anos depois em seu exílio na França. Não suportou
conviver com os fantasmas de seus torturadores que ainda lhe
assombravam. Considerado um mártir da ditadura
escreveu dias antes da sua morte:
“São noites de silêncio
vozes que clamam num espaço
infinito.
Um silêncio
do homem e um silêncio de Deus."
A sessão de tortura não se
resumia a um mero castigo físico, fazia parte de uma programação
elaborada com a finalidade de desconstruir a identidade da vítima.
Segundo depoimentos de ex-presos políticos existia um ritual
minuciosamente preparado, no qual a principal intenção é a destruição da
pessoa, dos seus valores e de suas convicções. Suponha o agravante desse
trauma em um jovem que está em fase de afirmação
da sua personalidade e os seus valores e as suas convicções ainda não
estão consolidados. Uma pavorosa experiência de desorganização dos
sentimentos e emoções nas relações da vítima consigo mesma e com o
mundo, buscando minar o seu referencial ideológico.
Muitos casos
tiveram ampla repercussão na mídia, tais como: o assassinato do
estudante Edson Luís e a grande comoção da
população na cidade do Rio de Janeiro; o
desaparecimento do filho de
Zuzu Angel e a suspeita morte dela ao denunciar a brutalidade cometida
com seu filho em um quartel, a filha e jornalista Hildegard não permite
o esquecimento, pela sociedade, das atrocidades que atingiram seus entes
queridos.
Entretanto, diante de tantos relatos divulgados, existe também o
sofrimento anônimo, compartilhado apenas pela família e pelos amigos
mais próximos. Permanece marcado em minha memória o olhar
esquivado de Maria. Desorientada no tempo e confusa, quantas tristes e
terríveis lembranças ainda lhe atormentam? Muitos superaram,
constituíram famílias, tiveram sucesso em suas carreiras, outros como a
Maria não. A contínua assistência médica e psicológica não foi
suficiente para resgatá-la para a vida.
Enfim, pude compreender, com
toda a clareza, a barbárie que se consuma com o sofrimento físico e
mental provocado na vítima desse crime. Tivemos oportunidade de ler
muitos depoimentos sobre a tortura nesse período, mas a realidade quando
confrontada parece ser ainda mais cruel, pois temos a certeza que não se
trata de uma obra macabra de ficção e, assustadoramente, estamos diante
de uma vida que foi ceifada no auge da sua vigorosa e rebelde juventude.
Pelo idealismo e o desejo de mudanças de Maria presto a singela
homenagem da sua lembrança, apesar da impossibilidade de esboçar as suas
angustiantes memórias, participou de um importante capítulo de nossa
história. Um capítulo recheado de muita coragem.
* Professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em
Educação pela Universidade Federal do Paraná. |