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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 03 de setembro de 2010 19:59:29                                               

 
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CRôNICAS
Sofridas Lembranças dos “Anos de Chumbo”    
Gilda E. Kluppel*
publicado em 03/09/2010

Diante da discussão sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos um episódio reavivou-se em minha memória. Muito tem sido escrito e falado sobre os desaparecidos e os que sobreviveram à ditadura e atualmente ocupam posições de destaque na sociedade. Mas, quantos não tiveram essa chance? Quantos foram condenados ao esquecimento pelas sequelas das torturas ocorridas nos porões da ditadura? Quantos foram impedidos de, ao menos tentar, satisfazer os seus desejos e suas aspirações pessoais e profissionais? 

Relato um caso que me chocou bastante. Em certa ocasião, recebi o convite para um almoço na casa da prima de uma amiga. Logo que chegamos nos causou estranheza o comportamento da irmã mais nova da dona da casa, muito retraída e que desesperadamente tentava, sem êxito, preparar alguma coisa na cozinha para as convidadas. Até que fui alertada pela minha amiga: ela foi torturada pela ditadura. Fiquei estarrecida, pois se passaram mais de vinte anos daqueles terríveis "anos de chumbo". Soube depois de toda a sua história e a crueldade da qual foi vítima, as torturas dilaceraram a sua alma.

A moça em questão chamava-se Maria, estudava Ciências Sociais na USP, presa e torturada aos dezenove anos de idade. Não pertencia aos grupos dos opositores mais temidos pelos ditadores, tais como a Ação Libertadora Nacional, o Movimento Revolucionário Oito de Outubro ou outro movimento organizado mais ousado, tratava-se apenas de uma estudante idealista e indignada com a repressão vigente na época, revolta mais contundente quando se tem dezenove anos de idade. Poderia usufruir do conforto de uma vida tranquila, adequada aos padrões da sua família paulistana de classe média, mas as amargas consequências da tortura continuam presentes.

Maria reside no apartamento da irmã em um agradável bairro de São Paulo. Possui a segurança afetiva e financeira que a família lhe proporciona, mas sequer pode trabalhar um dia de sua vida. Demonstra sentimentos de culpa e ansiedade alternados com momentos de profunda depressão. Vive em estado de alerta permanente, desconfia de todos, evita sair para a rua e não se pode conversar com ela a respeito daquele período, resquícios das lembranças ainda muito doloridas.

Imagino a intensidade do seu sofrimento pelo extenso rol das crueldades praticadas pela ditadura militar, que incluíam choques elétricos, pau de arara, aplicação de injeções de éter, afogamentos e muitos espancamentos. Imagino também quantos casos semelhantes existem em nosso país. Quantas vidas foram interrompidas não pela morte, mas pela impossibilidade de realizar coisas para nós tão banais, como preparar um almoço, fazer compras em um supermercado, trabalhar, enfim ter uma vida considerada normal. Uma existência aniquilada pela retirada da paz de espírito e da tranquilidade.

As lembranças das brutalidades sofridas permanecem por longos e árduos anos e chega-se a admitir a possibilidade da morte como alternativa para se livrar delas. O caso do Frei Tito de Alencar Lima é um exemplo, preso e torturado na década de 70, enforcou-se anos depois em seu exílio na França. Não suportou conviver com os fantasmas de seus torturadores que ainda lhe assombravam. Considerado um mártir da ditadura escreveu dias antes da sua morte:

“São noites de silêncio

vozes que clamam num espaço infinito.

Um silêncio do homem e um silêncio de Deus."

A sessão de tortura não se resumia a um mero castigo físico, fazia parte de uma programação elaborada com a finalidade de desconstruir a identidade da vítima. Segundo depoimentos de ex-presos políticos existia um ritual minuciosamente preparado, no qual a principal intenção é a destruição da pessoa, dos seus valores e de suas convicções. Suponha o agravante desse trauma em um jovem que está em fase de afirmação da sua personalidade e os seus valores e as suas convicções ainda não estão consolidados. Uma pavorosa experiência de desorganização dos sentimentos e emoções nas relações da vítima consigo mesma e com o mundo, buscando minar o seu referencial ideológico.

Muitos casos tiveram ampla repercussão na mídia, tais como: o assassinato do estudante Edson Luís e a grande comoção da população na cidade do Rio de Janeiro; o desaparecimento do filho de Zuzu Angel e a suspeita morte dela ao denunciar a brutalidade cometida com seu filho em um quartel, a filha e jornalista Hildegard não permite o esquecimento, pela sociedade, das atrocidades que atingiram seus entes queridos.

Entretanto, diante de tantos relatos divulgados, existe também o sofrimento anônimo, compartilhado apenas pela família e pelos amigos mais próximos. Permanece marcado em minha memória o olhar esquivado de Maria. Desorientada no tempo e confusa, quantas tristes e terríveis lembranças ainda lhe atormentam? Muitos superaram, constituíram famílias, tiveram sucesso em suas carreiras, outros como a Maria não. A contínua assistência médica e psicológica não foi suficiente para resgatá-la para a vida.

Enfim, pude compreender, com toda a clareza, a barbárie que se consuma com o sofrimento físico e mental provocado na vítima desse crime. Tivemos oportunidade de ler muitos depoimentos sobre a tortura nesse período, mas a realidade quando confrontada parece ser ainda mais cruel, pois temos a certeza que não se trata de uma obra macabra de ficção e, assustadoramente, estamos diante de uma vida que foi ceifada no auge da sua vigorosa e rebelde juventude. Pelo idealismo e o desejo de mudanças de Maria presto a singela homenagem da sua lembrança, apesar da impossibilidade de esboçar as suas angustiantes memórias, participou de um importante capítulo de nossa história. Um capítulo recheado de muita coragem. 


 

* Professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

 

 

 

 
  

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Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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