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Abro os olhos. É noite.
Sinto o coração apertado batendo descompassadamente. Olho
à volta, assustada, acreditando que algo terrível aconteceu ou está para
acontecer. Quero fugir, mas não tenho forças sequer para levantar.
Sinto, simultaneamente, a boca seca e um gosto amargo que não me deixa
falar e nem mesmo gritar. Muda, suando, espero o terror me abandonar.
Essa não parece a descrição de uma cena de um filme de
terror? No entanto, não se trata disso, mas da versão resumida e até
mesmo bastante light de uma crise de ansiedade. Quem já a viveu
sabe do que estou falando e quem nunca a sentiu, meu conselho, é que
reze (mas reze muito!) para nunca ter de senti-la.
Mas qual seria a origem de sentimentos tão tenebrosos e
conflitantes? O que faz uma pessoa sentir, com tamanha força, que seu
mundo está preste a acabar?
Não existem respostas definitivas para o assunto, mas a
psicanálise aponta um candidato bem forte: o medo. Mas medo do que? De
tudo! E de onde vem esse medo? Na maioria das vezes do inconsciente,
esse ilustre desconhecido que domina boa parte da nossa vida e determina
muitas das nossas ações.
Quando penso no inconsciente, e nas peças que muitas
vezes ele nos prega, não consigo deixar de compará-lo a um salão
entulhado de quinquilharias que insistimos em guardar. Toda vez que nos
movemos dentro dele acabamos esbarrando em coisas que há muito
pensávamos esquecidas, mas que na verdade estavam escondidas. Alguns
desses esbarrões são sentidos no momento e depois são rapidamente
esquecidos, não deixando sequer hematomas; outros têm efeito retardado,
só os sentimos bem mais tarde, quando grandes e roxos hematomas tomam
conta da nossa carne, nos machucando e impedindo que continuemos a
ignorá-los.
São esses, os de efeito retardado, que causam as
palpitações e a sensação de desgraça iminente. São esses que nos fazem
acordar à noite. São esses que despertam os nossos mais primitivos e
infantis terrores, fazendo-nos, inclusive, voltar a acreditar em
bicho-papão. Quando essas emoções nos dominam nos tornamos personagens
de um filme de horror, presos a uma seqüência de sensações e sentimentos
que nos imobiliza e trai. Nesses momentos, chegamos a esquecer o que
somos, onde estamos e o que queremos. Nos tornamos marionetes de nossa
própria mente.
Mas será que somos, realmente, marionetes? Será que não
existe uma maneira de romper esse circulo vicioso? Será que não há como
enfrentar esses medos vindos de uma parte de nós desconhecida e, muitas
vezes, obscura?
A resposta é simples, apesar de o processo ser de extrema
complexidade: é possível romper com esse circulo vicioso, é possível, no
mínimo, enfrentar todos esses medos. Mas para isso, devemos estar
dispostos a “limpar o salão”.
Esse processo de “limpeza” deve ter como objetivo
descobrir o que é importante e significativo em nossas vidas e o que não
é. Deve-se, durante a “limpeza”, procurar reavaliar quais das
quinquilharias, há tanto tempo guardadas, merecem ser realmente
preservadas, ou se o melhor não seria encaminhá-las para a lixeira mais
próxima.
Sei que nada disso é simples; ao contrário, o esforço é
enorme e, muitas vezes, esgota. Sem contar que a necessidade de
arregaçar as mangas e colocar as mãos à obra nem sempre está
suficientemente clara para todos, isso exige maturidade e discernimento,
mercadorias que andam em falta nos dias de hoje. No entanto, para quem
não deseja continuar acordando à noite, acreditando-se perseguido por um
serial killer, é um caminho que merece ser considerado e
avaliado. Ah! É importante deixar claro que para esse tipo de faxina não
é permitido contratar uma faxineira, a limpeza deve ser feita pelo
proprietário do salão, só ele tem permissão para lá entrar, mais
ninguém!
Portanto, quando, em uma noite qualquer, você acordar com
o coração disparado, a boca seca e uma vontade louca de fugir pense
(mas, pense mesmo!) em empunhar uma vassoura, um esfregão e muito sabão
e faça uma faxina nesse salão entulhado de coisas inúteis, retirando as
teias de aranha e colocando para fora todo o lixo acumulado. Creio que
depois dessa “limpeza” suas noites poderão ser mais tranqüilas e
proveitosas, pois você terá colocado o seu serial killer pessoal
no lugar que lhe é de direito, no lixo.
Tenha, então, uma boa noite e durma bem! |