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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 13 de julho de 2009 22:42:21                                               

 
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CRôNICAS

Ansiedade

   

Margarete Hülsendeger

publicado em 08/07/2007

Abro os olhos. É noite.

Sinto o coração apertado batendo descompassadamente. Olho à volta, assustada, acreditando que algo terrível aconteceu ou está para acontecer. Quero fugir, mas não tenho forças sequer para levantar. Sinto, simultaneamente, a boca seca e um gosto amargo que não me deixa falar e nem mesmo gritar. Muda, suando, espero o terror me abandonar.

Essa não parece a descrição de uma cena de um filme de terror? No entanto, não se trata disso, mas da versão resumida e até mesmo bastante light de uma crise de ansiedade. Quem já a viveu sabe do que estou falando e quem nunca a sentiu, meu conselho, é que reze (mas reze muito!) para nunca ter de senti-la.

Mas qual seria a origem de sentimentos tão tenebrosos e conflitantes? O que faz uma pessoa sentir, com tamanha força, que seu mundo está preste a acabar?

Não existem respostas definitivas para o assunto, mas a psicanálise aponta um candidato bem forte: o medo. Mas medo do que? De tudo! E de onde vem esse medo? Na maioria das vezes do inconsciente, esse ilustre desconhecido que domina boa parte da nossa vida e determina muitas das nossas ações.

Quando penso no inconsciente, e nas peças que muitas vezes ele nos prega, não consigo deixar de compará-lo a um salão entulhado de quinquilharias que insistimos em guardar. Toda vez que nos movemos dentro dele acabamos esbarrando em coisas que há muito pensávamos esquecidas, mas que na verdade estavam escondidas. Alguns desses esbarrões são sentidos no momento e depois são rapidamente esquecidos, não deixando sequer hematomas; outros têm efeito retardado, só os sentimos bem mais tarde, quando grandes e roxos hematomas tomam conta da nossa carne, nos machucando e impedindo que continuemos a ignorá-los.

São esses, os de efeito retardado, que causam as palpitações e a sensação de desgraça iminente. São esses que nos fazem acordar à noite. São esses que despertam os nossos mais primitivos e infantis terrores, fazendo-nos, inclusive, voltar a acreditar em bicho-papão. Quando essas emoções nos dominam nos tornamos personagens de um filme de horror, presos a uma seqüência de sensações e sentimentos que nos imobiliza e trai. Nesses momentos, chegamos a esquecer o que somos, onde estamos e o que queremos. Nos tornamos marionetes de nossa própria mente.

Mas será que somos, realmente, marionetes? Será que não existe uma maneira de romper esse circulo vicioso? Será que não há como enfrentar esses medos vindos de uma parte de nós desconhecida e, muitas vezes, obscura?

A resposta é simples, apesar de o processo ser de extrema complexidade: é possível romper com esse circulo vicioso, é possível, no mínimo, enfrentar todos esses medos. Mas para isso, devemos estar dispostos a “limpar o salão”.

Esse processo de “limpeza” deve ter como objetivo descobrir o que é importante e significativo em nossas vidas e o que não é. Deve-se, durante a “limpeza”, procurar reavaliar quais das quinquilharias, há tanto tempo guardadas, merecem ser realmente preservadas, ou se o melhor não seria encaminhá-las para a lixeira mais próxima.

Sei que nada disso é simples; ao contrário, o esforço é enorme e, muitas vezes, esgota. Sem contar que a necessidade de arregaçar as mangas e colocar as mãos à obra nem sempre está suficientemente clara para todos, isso exige maturidade e discernimento, mercadorias que andam em falta nos dias de hoje. No entanto, para quem não deseja continuar acordando à noite, acreditando-se perseguido por um serial killer, é um caminho que merece ser considerado e avaliado. Ah! É importante deixar claro que para esse tipo de faxina não é permitido contratar uma faxineira, a limpeza deve ser feita pelo proprietário do salão, só ele tem permissão para lá entrar, mais ninguém!

Portanto, quando, em uma noite qualquer, você acordar com o coração disparado, a boca seca e uma vontade louca de fugir pense (mas, pense mesmo!) em empunhar uma vassoura, um esfregão e muito sabão e faça uma faxina nesse salão entulhado de coisas inúteis, retirando as teias de aranha e colocando para fora todo o lixo acumulado. Creio que depois dessa “limpeza” suas noites poderão ser mais tranqüilas e proveitosas, pois você terá colocado o seu serial killer pessoal no lugar que lhe é de direito, no lixo.

Tenha, então, uma boa noite e durma bem!

 
  

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::sobre o autor::

 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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