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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 11 de abril de 2008 22:57:33                                               

 
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CRôNICAS

Descrevendo crenças e escrevendo descrenças

   

Antonio Brás Constante

publicado em 07/10/2007

 

A fé assim como a vida é uma chama de pureza em sua essência mais básica. Infelizmente, em contato com a imperfeição humana, se macula. Vira vício. Segrega e cega. Cria preconceitos. Envenena pensamentos. Incitando fanatismos, guerras, exclusões.

O ser humano costuma engarrafar a fé em religiões. Usando rótulos para vender o seu produto as massas, sedentas pela embriaguez da ilusão de suas promessas de paraíso. Tomando todos os seus ensinamentos como verdades incontestáveis. Seguem regras e fazem penitências como se estivessem em uma gincana, arrebanhando pontos para própria salvação. As pessoas recebem estigmas e assistem “aulas”, que lhes ensinam como devem agir e pensar, deixando-as aptas para pertencerem a um determinado grupo religioso, dizendo que sem tudo aquilo nada poderá salvar as suas almas, que ficarão a mercê de todo mal que possa existir. Passam a agir como se o mais importante não fossem os gestos simples de bondade, mas sim muita oração. A absolvição dos pecados é obtida através de penitências, nunca de indulgências.

Estas tantas doutrinas religiosas envolvem seus seguidores com dogmas em forma de grilhões. Arrecadando fortunas. Construindo verdadeiras cidades de luxo em cima da fé de milhões. O corpo de cada indivíduo passa a ser considerado como ataúde profano, por estar cheio de desejos carnais, que se mostra impuro frente a um ser superior que tudo pode, mas que nada faz, pois está em cada um a liberdade do caminho a tomar e a cruz que deve carregar. Para que estes fiéis possam viver felizes, basta que se ajoelhem. Basta que agradeçam. Basta que rezem, sem questionamentos, apenas com fervorosa devoção. Devem mostrar que merecem um lugar no paraíso, se destacando mais do que os outros em sua adoração. Então clamem por suas almas, vejam os moribundos que perambulam em sua volta. Alguém escreveu que são estes pobres e infelizes que herdarão o reino do além. É deles toda riqueza pós-vida, e para merece-la só precisam miseravelmente sofrer.

            Nos casos de falha humana, procurem um dos templos mais próximos e troquem seus pecados por orações e penitências. Ali haverá alguém lhes esperando sempre pronto para pesar suas culpas, passando uma nota verbal dos custos de seus atos. Não deixem de pagar o que for cobrado, pois ficarão em pecado grave.

            E o nosso grande pequeno mundo gira em torno de dois eixos que não se tocam, formados de um lado por aqueles que cometem os erros motivados pela fé, e no outro extremo encontramos aqueles que fazem o mesmo pela total falta de fé. No fim, pode ser percebido que os dois lados são frutos de problemas nas mesmas engrenagens, que se mostram defeituosas em seus corações. E o mundo segue girando sobre suas cabeças, mas suas cabeças são apenas vácuos, preenchidos com enxertos feitos de pacotes prontos com verdades absolutas, ou simplesmente na mais frenética negação. Você sabe qual a diferença entre um assassino que não crê em nada e um fanático que mata inocentes em nome dá fé?

            Enfim, vivemos em um mundo dividido entre os que acham que tem fé e os que pensam não ter nenhuma. Onde muitas vezes seus próprios destinos lhes mostram o quanto ambos estão errados.            A fé não deve ser buscada, imposta, forçada, explicada. Deve apenas ser sentida, vivida na sua forma mais simples (a fé no amor). Sem almejar alcançar qualquer graça, qualquer privilégio, qualquer proteção. Qualquer ato de fé de fuja disto vira fel, envenenando o que talvez seja a maior dádiva da humanidade, a pureza indefesa e rara que se guarda no fundo de nossas eternas almas.

 

 

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::sobre o autor::

 Antonio Brás Constante é  natural de Porto Alegre. Residente em Canoas RS. Bancário. Bacharel em Ciência da Computação. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores).

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