A fé assim como a vida é uma chama de pureza em
sua essência mais básica. Infelizmente, em contato com a imperfeição
humana, se macula. Vira vício. Segrega e cega. Cria preconceitos.
Envenena pensamentos. Incitando fanatismos, guerras, exclusões.
O ser humano costuma engarrafar a fé em
religiões. Usando rótulos para vender o seu produto as massas,
sedentas pela embriaguez da ilusão de suas promessas de paraíso.
Tomando todos os seus ensinamentos como verdades incontestáveis.
Seguem regras e fazem penitências como se estivessem em uma gincana,
arrebanhando pontos para própria salvação. As pessoas recebem
estigmas e assistem “aulas”, que lhes ensinam como devem agir e
pensar, deixando-as aptas para pertencerem a um determinado grupo
religioso, dizendo que sem tudo aquilo nada poderá salvar as suas
almas, que ficarão a mercê de todo mal que possa existir. Passam a
agir como se o mais importante não fossem os gestos simples de
bondade, mas sim muita oração. A absolvição dos pecados é obtida
através de penitências, nunca de indulgências.
Estas tantas doutrinas religiosas envolvem seus
seguidores com dogmas em forma de grilhões. Arrecadando fortunas.
Construindo verdadeiras cidades de luxo em cima da fé de milhões. O
corpo de cada indivíduo passa a ser considerado como ataúde profano,
por estar cheio de desejos carnais, que se mostra impuro frente a um
ser superior que tudo pode, mas que nada faz, pois está em cada um a
liberdade do caminho a tomar e a cruz que deve carregar. Para que
estes fiéis possam viver felizes, basta que se ajoelhem. Basta que
agradeçam. Basta que rezem, sem questionamentos, apenas com
fervorosa devoção. Devem mostrar que merecem um lugar no paraíso, se
destacando mais do que os outros em sua adoração. Então clamem por
suas almas, vejam os moribundos que perambulam em sua volta. Alguém
escreveu que são estes pobres e infelizes que herdarão o reino do
além. É deles toda riqueza pós-vida, e para merece-la só precisam
miseravelmente sofrer.
Nos casos de falha humana, procurem
um dos templos mais próximos e troquem seus pecados por orações e
penitências. Ali haverá alguém lhes esperando sempre pronto para
pesar suas culpas, passando uma nota verbal dos custos de seus atos.
Não deixem de pagar o que for cobrado, pois ficarão em pecado grave.
E o nosso grande pequeno mundo gira
em torno de dois eixos que não se tocam, formados de um lado por
aqueles que cometem os erros motivados pela fé, e no outro extremo
encontramos aqueles que fazem o mesmo pela total falta de fé. No
fim, pode ser percebido que os dois lados são frutos de problemas
nas mesmas engrenagens, que se mostram defeituosas em seus corações.
E o mundo segue girando sobre suas cabeças, mas suas cabeças são
apenas vácuos, preenchidos com enxertos feitos de pacotes prontos
com verdades absolutas, ou simplesmente na mais frenética negação.
Você sabe qual a diferença entre um assassino que não crê em nada e
um fanático que mata inocentes em nome dá fé?
Enfim, vivemos em um mundo dividido
entre os que acham que tem fé e os que pensam não ter nenhuma. Onde
muitas vezes seus próprios destinos lhes mostram o quanto ambos
estão errados. A fé não deve ser buscada, imposta,
forçada, explicada. Deve apenas ser sentida, vivida na sua forma
mais simples (a fé no amor). Sem almejar alcançar qualquer graça,
qualquer privilégio, qualquer proteção. Qualquer ato de fé de fuja
disto vira fel, envenenando o que talvez seja a maior dádiva da
humanidade, a pureza indefesa e rara que se guarda no fundo de
nossas eternas almas.