O
inverno é uma época em que aspiramos
muitas coisas (boa parte delas pelo nariz). Entre elas podemos
citar: o delicioso aroma de um chocolate quente, ou o cheirinho
gostoso proveniente das diversas iguarias preparadas especialmente
para nos esquentar do frio dessa temporada. Aspiramos a brisa gelada
da estação, que nos faz lembrar das paisagens européias, recobertas
de neve por todos os lados. E infelizmente, aspiramos sem perceber,
o vírus da gripe.
Esse tal de vírus da gripe é
realmente um dos piores estraga-prazeres do inverno. Parece um
daqueles penetras que aparecem nas festas, chegando sem ser
convidado, aprontando de tudo, e na maioria das vezes, somente indo
embora quando é de alguma forma expulso dali.
Ele surge de mansinho, causando
sensações similares aquelas experimentadas pelos amantes. Porém, faz
isso da pior maneira possível. No início, sentimos uns arrepios na
pele. Percebemos o calor inundando o corpo, e tudo vai se
intensificando. O suor passa a brotar em cada um de nossos poros.
Vamos sendo dominados por uma espécie de torpor. Os sentidos ficam
confusos e quando percebemos, o vírus já nos levou para cama,
passando a usar e abusar indecentemente de nossa frágil carcaça
inocente. Divertindo-se às nossas custas sem qualquer pudor ou
piedade. E nós ali, indefesos diante daquele psicopata invisível e
sádico.
Um ser humano gripado torna-se uma
pobre alma que sofre as agruras do purgatório, sem nem mesmo ter
morrido ou pecado. Não pode sequer pegar um cineminha, gastando uns
trocados por lá (claro que para obter uma quantidade suficiente de
trocados para pagar as pipocas, o refrigerante, o estacionamento, a
entrada do cinema, etc, a pessoa primeiro teria que vender um de
seus rins). Se alguém gripado, ousar fazer tal programa, logo é
taxado de chato, pois conforme um dos ditos populares: “Chato quando
está com tosse não vai à farmácia, vai ao cinema”. E a tosse é
apenas um dos tantos martírios da gripe.
Mesmo a leitura de um bom livro
seria inviável, já que as gotas de saliva, associadas a outras
substâncias orgânicas (que saem voando a todo instante da boca de
alguém que tosse), não combinam com o papel das páginas de qualquer
obra literária.
O jeito seria recorrer a indústria
farmacêutica, que dispõe de tratamentos para quase todos os tipos de
tormentos. Entrar em uma farmácia é semelhante a entrar em uma loja
de doces. Lá encontramos atendentes simpáticos que oferecem várias
amostras de comprimidos coloridinhos, como quem oferece balas para
crianças. Pior do que o gosto dos remédios, somente os seus nomes,
que mais parecem palavrões extraídos das profundezas obscenas da
própria moralidade.
Se você achava que sua esposa lhe
fazia gastar muito, ou que seus filhos, seu automóvel, ou até mesmo
seu fiel cachorro (muitas vezes apelidado de “Lulu”), faziam com que
você gastasse muito, finalmente descobrirá que um bom (ou mal)
resfriado consegue provocar mais gastos do que todos eles juntos.
Enfim, após alguns dias de sofrimento a gripe
geralmente termina, levando com ela os últimos centavos de seu
salário, entregues ao setor farmacêutico, que em troca devolve sua
saúde. Porém, com prazo de validade inferior ao de qualquer
medicamento.