spacer

 

ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 13 de julho de 2009 21:34:27                                               

 
  Principal
 Cultura
 Crônicas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
 
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 Institucional
 
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 
   Blogs
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Econotas
 Humor
 Memória Sindical
 Mirim
 Assédio Moral
 Vitrine do Giba
 Nosso Dáimon
 O Grito do Ipiranga
 Mirim
 Feiras e Mercados
 Em RHede
 Econotas
 Ambientais
 Esportes
 Agenda
 
 
 
 
 
 
 
CRÔNICAS

A Quaresma do velho Misael Alves - o segundo prefeito de Santana do Ipanema, AL - (ou Foi, aí, Que o Velho Dançou)

Maria do Socorro Ricardo

publicado em 05/02/2008

 

 

- Lá vem o bloco do prefeito! O bloco do prefeito! O prefeito!
Gritava o povo na rua de Misael Alves: "Eu nesse passo vou até Honolulu! Eu nesse passo vou até Honolulu!".
Acontecera à quaresma do velho Misael Alves ou foi, aí, que o velho dançou. Início dos quarenta dias após o Carnaval. Na quarta-feira de cinzas, quando os festejos de Momo despediam-se de Santana, o velho Misael Alves, debruçado à janela sob o Sol, um enfeite no janelão de sua casa no bairro do Monumento. Aquele ano não brincou Carnaval por causa da varíola.
Início do século passado, ainda em formação Santana. Brasil atrasado. Tudo era difícil. As epidemias se alastravam na população.
A maioria das cidades em desenvolvimento. O comércio. A educação. A medicina. O desenvolvimento andava lerdo, principalmente, no interior. Combater epidemias não era fácil. Muitas pessoas, à época, morreram por falta de assistência médica; falta de remédios para se combater as doenças mais simples.
Misael Alves, revelou a sua neta, no tempo em que uma epidemia de varíola se hospedara na cidade, fizera vítima também o meu avô. Doença infecciosa e contagiante.
- Lá vem o bloco do prefeito! O bloco do prefeito! O prefeito!
Gritava o povo na rua de Misael Alves: "Eu nesse passo vou até Honolulu! Eu nesse passo vou até Honolulu!".
Em pleno Carnaval, Santana fervia. Uma semana de festa. Misael Alves, na janela de sua casa, restabelecia-se da varíola. Para aliviar o sofrimento, resolvera assistir a passagem dos derradeiros blocos de Carnaval que desfilavam em sua rua.
- Lá vem o bloco do prefeito! O bloco do prefeito! O prefeito!
Gritava o povo na rua de Misael Alves. O prefeito muito amigo de meu avô, Fiscal Geral da Prefeitura, além de comerciante varejista, um fazendeiro de muitas criações, não poderia passar em branco o seu amigo prefeito. Brincava o prefeito a se despedir da folia. Ora sambista. Ora maracatu. Ora frevo.
- Lá vem o bloco do prefeito! O bloco do prefeito! O prefeito!
Gritava o povo na rua de Misael Alves.
O prefeito doido por votos. Misael Alves entusiasmado, deixara o janelão. Saíra de casa, a perguntar cadê meu chapéu, e se pôs à porta onde ia saudar o amigo. Foi, aí, que o velho dançou. O barulho dos metais.
- Lá vem o bloco do prefeito! O bloco do prefeito! O prefeito!
Gritava o povo na rua de Misael Alves. Aproximavam-se os metais frenéticos. As moças marcavam o passo. Os cachaceiros de duas máscaras: um rosto triste à frente, atrás uma risonha caricatura carnavalesca. Confetes. Serpentinas. As ruas tomadas de cartazes. Bandeirolas nas praças se emendavam às casas. Casarões pesados. Grossas paredes. Tudo colorido.
- Lá vem o bloco do prefeito! O bloco do prefeito! O prefeito!
Gritava o povo na rua de Misael Alves sem cessar. O prefeito deu o braço ao amigo Misael Alves e saíra rebocando o amigo. Apertava o braço ao seu. Meu avô pedia calma, mostrava o braço, fazia careta, deixava escapar algumas lágrimas, gemia, pedia um médico. O prefeito gritava, bufava de alegria. Mandava que o amigo Misael Alves acompanhasse a marchinha: "Eu nesse passo vou até Honolulu!". Com o barulho dos metais, o prefeito não entendia os apelos do amigo Misael Alves.
- É a despedida do Carnaval, Misael. Canta: "Eu nesse passo vou até Honolulu! Eu nesse passo vou até Honolulu!". Canta, Misael: "Eu nesse passo vou até Honolulu! Eu nesse passo vou até Honolulu!".
Meu avô a marcar o passo, a contra gosto, passou horas neste sofrimento. Em plena quarta-feira de cinzas. Quando o prefeito resolveu soltar o braço do meu avô, ele estava com todos os tumores estourados. E todo ensangüentado. Daquela quarta-feira de cinzas em diante, Misael Alves Farias jamais quis assistir despedida de Carnaval. Quem tivesse seu Carnaval que não lhe trouxesse para despedidas.

----------------------------------------
O segundo prefeito de Santana do Ipanema, AL, foi o fazendeiro e comerciante santanense, Misael Alves Farias, tendo sido o primeiro prefeito Joel Marques; ambos, na primeira metade do século XX. Joel Marques, pai de Adeildo Nepomuceno Marques, e Misael Alves Farias, trabalhavam juntos na Prefeitura de Santana na condição de fiscais que viajavam em lombo de burro por todos os rincões do município sertanejo. Com o passar do tempo, Joel Marques assumiu a Prefeitura. Tendo sido o primeiro prefeito. Quando Getúlio Vargas, no Estado Novo, caçou os mandatos, Joel Marques fugiu da Prefeitura e deixou os documentos nas mãos de Misael Alves Farias, que assumiu a cadeira de prefeito, e passariam os documentos a quem fosse indicado por Getúlio Vargas. À época, Misael Alves Farias, era o chefe dos fiscais da Prefeitura. Portanto, esta é a história.

 
  

spacer
::sobre o autor::

Maria do Socorro Ricardo é filha do maestro José Ricardo Sobrinho e Lu Ricardo Farias. Sua literatura recebeu elogios na Universidade de Blumenau, na Revista de Divulgação Cultural, foi assunto em dissertação de mestrado na UFAL, falando sobre uma pessoa importante do Estado, e em tese de doutorado por aluna Teresa Kleba Lisboa, da UFSC. Artigos no Jornal Barreiros, do jornalista Rogério Salgado, Belo Horizonte, no Jornal de Educação de Joinville, SC, no Jornal de Blumenau, no Jornal Tribuna de Alagoas, no Jornal de Santa Catarina e no Jornal Gazeta de Alagoas. Com elogios de Djalma Melo Carvalho e do jornalista Agamenon Magalhães Jr. Lançou seu primeiro livro JOSÉ RICARDO SOBRINHO UM MÁGICO DA MÚSICA, 1997, em Blumenau e Alagoas.  http://escritoramariadosocorroricardo.blogspot.com/

::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

 
::anuncie::

Saiba como anunciar no site clicando aqui.

 
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 
 

::outros textos da autora::

Não há violência e nem injustiça em meu Maceió
Por Maria do Socorro Farias Ricardo
publicado em 17/03/2007

 

 

 

 

 
 
::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2008
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil
spacer