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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 03 de setembro de 2011 15:57:46                                               
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CRôNICAS

Sobre um famoso capote

Gilda E. Kluppel
publicado em 03/09/2011

 

Todas as pessoas têm uma música, filme ou história marcada na memória pela emoção provocada. Este é o caso do conto “O Capote” de Nicolai Gogol, escrito em 1842. Os mais jovens não tiveram a oportunidade de assistir ao “Caso Especial”, uma série produzida pela Rede Globo na década de 70. Ainda em preto e branco, mas como uma pintura em muitas cores, traçada pela interpretação de grandes atores e atrizes, sobretudo do saudoso ator polonês Ziembinski; no impecável papel de Acaqui Acaquievich.

Gogol, considerado o iniciador da moderna literatura russa, satiriza o sistema burocrático czarista da Rússia do século XIX e inverte a lógica dominante ao abrir novos horizontes. O protagonista da história é um homem mundano, incomum para a época. O herói ou anti-herói da história, humilde funcionário público cujo seu capote, velho e esfarrapado, torna-se motivo de desprezo e deboche pelos seus colegas de repartição.

Acaqui conserta o casaco, ao longo de muitos anos, até que o alfaiate se nega a fazer os remendos pelo total desgaste do tecido e sugere a compra de um capote novo. Com grande sacrifício, por alguns meses, ele consegue a quantia necessária para confeccionar um capote. Tomado pelo efeito arrebatador do capote novo parece se livrar do sentimento de insignificância que o enclausura. Quando chega ao trabalho, diferentemente trajado, causa sensação entre os colegas da repartição e até recebe o convite para uma festa. Acaqui comparece à comemoração, ao voltar para casa um assalto acaba com a sua felicidade, o capote é roubado.

Tentando recuperar o capote, como se tratasse da honra perdida, transita em vão pela burocracia russa. Apenas encontra palavras ásperas de um alto funcionário, por não seguir todos os trâmites burocráticos. A “autoridade” em questão estava interessada em impressionar um amigo visitante em seu escritório. Abalado com o acontecido e desprotegido do rigoroso inverno que assola São Petersburgo, sofre forte dor de garganta e uma gripe, causando a sua morte. A redenção de Acaqui ocorre com o aparecimento do seu fantasma que assombra todas as pessoas que saem à noite trajando um capote.

Debaixo do capote de Gogol estão abrigados os personagens periféricos, alternando o foco da literatura para os homens invisíveis, diante das histórias cercadas de castelos e heróis beirando a perfeição. Transitando entre o irônico e o grotesco, sobressai a frágil condição humana frente ao contexto de opressão, no qual o personagem se desorienta entre a realidade e a ilusão. O seu valor estava no capote? Relata toda a perversidade da burocracia excessiva e dos detentores de algum poder, perante a solidão e a imensa dor de um homem comum; advinda da indiferença desse sistema.

Enquanto criança ao assistir a majestosa interpretação de Ziembinski, impressionada pelo forte impacto causado pela história, foram várias as noites convivendo com a assombração deste capote. Sentindo o arrepio causado pelo frio intenso, a solidão e o sofrimento de Acaqui para recuperar o objeto. Este fruto de tanto desejo e que permitiu, pela primeira vez, sentir-se uma pessoa. Ainda sem conhecer o conto e todas as nuances desta obra-prima, abriu a porta para adentrar nas fantásticas histórias de Nicolai Gogol que sempre merecem uma releitura.

Esses componentes, o preconceito pelo modo de vestir, abuso de autoridade, soberba por ocupar algum cargo, criaturas devotadas ao egoísmo e à sordidez, ainda estranhamente contemporâneos...
 

 

 
 
  

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::sobre o autor::

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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