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Todas as
pessoas têm uma música, filme ou história marcada na memória pela emoção
provocada. Este é o caso do conto “O Capote” de Nicolai Gogol, escrito em
1842. Os mais jovens não tiveram a oportunidade de assistir ao “Caso
Especial”, uma série produzida pela Rede Globo na década de 70. Ainda em
preto e branco, mas como uma pintura em muitas cores, traçada pela
interpretação de grandes atores e atrizes, sobretudo do saudoso ator polonês
Ziembinski; no impecável papel de Acaqui Acaquievich.
Gogol,
considerado o iniciador da moderna literatura russa, satiriza o sistema
burocrático czarista da Rússia do século XIX e inverte a lógica dominante ao
abrir novos horizontes. O protagonista da história é um homem mundano,
incomum para a época.
O herói ou anti-herói da história, humilde funcionário público cujo seu
capote, velho e esfarrapado, torna-se motivo de desprezo e deboche pelos
seus colegas de repartição.
Acaqui
conserta o casaco, ao longo de muitos anos, até que o alfaiate se nega a
fazer os remendos pelo total desgaste do tecido e sugere a compra de um
capote novo. Com grande sacrifício, por alguns meses, ele consegue a quantia
necessária para confeccionar um capote. Tomado pelo efeito arrebatador do
capote novo parece se livrar do sentimento de insignificância que o
enclausura. Quando chega ao trabalho, diferentemente trajado, causa sensação
entre os colegas da repartição e até recebe o convite para uma festa. Acaqui
comparece à comemoração, ao voltar para casa um assalto acaba com a sua
felicidade, o capote é roubado.
Tentando
recuperar o capote, como se tratasse da honra perdida, transita em vão pela
burocracia russa. Apenas encontra palavras ásperas de um alto funcionário,
por não seguir todos os trâmites burocráticos. A “autoridade” em questão
estava interessada em impressionar um amigo visitante em seu escritório.
Abalado com o acontecido e desprotegido do rigoroso inverno que assola São
Petersburgo, sofre forte dor de garganta e uma gripe, causando a sua morte.
A redenção de Acaqui ocorre com o aparecimento do seu fantasma que assombra
todas as pessoas que saem à noite trajando um capote.
Debaixo do
capote de Gogol estão abrigados os personagens periféricos, alternando o
foco da literatura para os homens invisíveis, diante das histórias cercadas
de castelos e heróis beirando a perfeição. Transitando entre o irônico e o
grotesco, sobressai a frágil condição humana frente ao contexto de opressão,
no qual o personagem se desorienta entre a realidade e a ilusão. O seu valor
estava no capote? Relata toda a perversidade da burocracia excessiva e dos
detentores de algum poder, perante a solidão e a imensa dor de um homem
comum; advinda da indiferença desse sistema.
Enquanto
criança ao assistir a majestosa interpretação de Ziembinski, impressionada
pelo forte impacto causado pela história, foram várias as noites convivendo
com a assombração deste capote. Sentindo o arrepio causado pelo frio
intenso, a solidão e o sofrimento de Acaqui para recuperar o objeto. Este
fruto de tanto desejo e que permitiu, pela primeira vez, sentir-se uma
pessoa. Ainda sem conhecer o conto e todas as nuances desta obra-prima,
abriu a porta para adentrar nas fantásticas histórias de Nicolai Gogol que
sempre merecem uma releitura.
Esses
componentes, o preconceito pelo modo de vestir, abuso de autoridade, soberba
por ocupar algum cargo, criaturas devotadas ao egoísmo e à sordidez, ainda
estranhamente contemporâneos...
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