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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 01 de dezembro de 2010 21:19:17                                               

 
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CRôNICAS

Cativar

   

Fernanda Leite Bião1

publicado em 01/12/2010

 

“[...] – Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda.

– [...] Que quer dizer ‘cativar?’.

[...] – É algo quase esquecido – disse a raposa. – Significa ‘criar laços’...

[...] – Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.

– É preciso ser paciente – respondeu a raposa. – Tu te sentarás um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...” [...]

(Trecho do diálogo entre a raposa e o Pequeno Príncipe. In: SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. 48. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009, p. 64-67. Tradução de Dom Marcos Barbosa.)


 

Na parábola de “O Pequeno Príncipe” (Capítulo XXI), de Antoine de Saint-Exupéry, o menininho se aproxima devagar, percebido é por ela – a senhora raposa. Faceiramente, munida de experiências marcantes da sua vida, ela se esconde, tem medo de ser caçada.

Mais passos são percebidos e os olhos da tal senhora estão ligados naquela criatura que se aproxima.

O menino percebe também um movimento e questiona quem seja. Assim começa o diálogo – estrutura de comunicação necessária ao estabelecimento de relações.

Em passos lentos, entre a necessidade de se esconder e de se mostrar, a permissão ao contato acontece. Um olhar curioso, um sorriso como sinal de intimidade e a capacidade de escolher começar, ou seja, recomeçar, de um novo começo sobre o conhecimento aprendido.

Sempre é tempo de experimentar novas possibilidades e novos olhares. Foi assim que a raposa medrosa permitiu ao menino curioso se aproximar. O medo dela se torna o prazer de tê-lo consigo e a curiosidade dele se torna o principio fundante para um novo olhar sobre a vida.

‒ Tu me cativas, menininho?

‒ Cativar, senhorinha?

‒ Sim, pois te esperarei. Você virá?

‒ Sim. Quero aprender a arte de brincar ‒ disse o menino.

A brincadeira é um jogo simbólico para a compreensão da vida. Uma fala representada por expressões de uma liberdade diferente.

Brincar de conquistar, brincar de cativar.

Olhos brilham e os corações se tocam. A respiração individual circunda no mesmo raio de espaço, tornando-se uma manifestação de relação.

Claro que preciso do outro. Do outro que também sou eu. Do outro que fui e do outro que serei.

A importância do outro está associada ao ato de cativar, de aproximar, de compartilhar vivências e florescer afetos.

Uma vez que o coração é tomado pela energia da presença de alguém, jamais terá o mesmo pulsar.

De pulinhos, esconderijos e aproximações, senhora raposa e o menininho passaram a se amar.

Do ato à vontade ou será da vontade ao ato?

É preciso movimento, persistência e a permissão do nascimento da vontade, para se estar junto a outrem. Vontade é o combustível para que o ato se torne realidade.

De ato em ato, o amor, que era só um desejo, um sonho, torna-se palpável, singular.

Conquistar é para as coisas. Nós, seres humanos, queremos é ser cativados!

 

1 Psicóloga e Orientadora Profissional. Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

 

 

 
  

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 Fernanda Leite Bião é Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Psicóloga e Orientadora Profissional. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com. .

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