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Conviver
equivale a uma arte, a de as pessoas relacionarem-se, o que,
vezes muitas, é-lhes problemático, dadas as diferenças de
temperamento, de sensibilidade e de atuação próprias de cada
qual. As pessoas sentem, entendem e atuam segundo a sua
psicologia própria que, se apresenta coincidências com a de
outrem, muitas vezes dela difere.
Das
diferenças
resultam,
positivamente,
a
rica
variedade
do
gênero
humano
e,
negativamente,
as
dificuldades
de
convivência,
que
se agravam
pela
incompreensão:
compreender
significa substituir-se ao
próximo,
em
pensamento,
colocar-se na
posição
dele e
tentar
sentir
o
que
ele
sentiu,
pensar
como
ele
pensou e
atuar
como
ele
atuou.
Não se trata de adotar a sensibilidade do outro, nem os seus
critérios de entendimento ou de ação: trata-se de entender por
qual lógica ele se rege ou qual o moveu em uma dada
circunstância.
Certa
atitude
aparentemente
incompreensível
ou
dificilmente
aceitável,
poderá tornar-se
compreensível
ou
mais
facilmente
aceitável
se,
por
um
momento,
colocarmo-nos na
mesma
situação
que
viveu o
seu
autor,
ao tomá-la, e se imaginarmo-nos movidos
pelos
sentimentos
e pelas
convicções
que
o animaram
então.
O
observador
perguntar-se-á: “O
que
eu
faria se estivesse no
lugar
dele?”.
Esta operação
subjetiva exige o conhecimento das circunstâncias da vida, das
emoções, dos antecedentes e dos critérios próprios de cada
pessoa; do seu conhecimento insuficiente e incorreto, as
incompreensões, porventura as perplexidades, certamente os
julgamentos injustos.
Certa
sabedoria recomenda: “Não julgueis para não serdes julgados”; eu
diria: “’Não julgueis se não conhecerdes as circunstâncias que
levaram alguém a certa atitude”.
O oposto da
compreensão corresponde a uma incapacidade de, subjetivamente,
adotarmos a psicologia alheia, o que expõe-nos a erros de
avaliação capazes de, por sua vez, conduzir-nos a tratamentos
injustos e a reações imerecidas.
Compreender o
próximo facilita a aceitação do comportamento alheio e favorece
a harmonia entre as pessoas, o que apresenta redobrada
importância nas amizades e nos matrimônios: quantos amigos não
se afastam, quantos cônjuges não se divorciam, por falta de
compreensão mútua!
A compreensão
conduz à indulgência e ao perdão: entender que os outros não são
perfeitos nos seus critérios, nos seus sentimentos, nas suas
ações, e que cada um de nós também não o é, reconhecer-se a
natureza falível do ser humano e que a perfeição corresponde a
um ideal e não à realidade humana, correspondem a critérios que
justificam uma certa indulgência diante dos erros alheios e o
perdão dos que nos atingem, ao menos em certa medida e sobretudo
se o seu autor, reconhecendo a sua falta, desculpa-se perante
quem atingiu. Compreender e perdoar não equivalem a tudo
aceitar-se, indiscriminadamente, porém a relevar-se o que,
razoavelmente, resulta da falibilidade humana.
A
compreensão
provém da
capacidade
de
reflexão
do
indivíduo
que
se acrescenta
com
o
passar
dos
anos
e
com
o
acumular
da
experiência.
Aos
cerca
de 20
anos,
é-se
inexperiente;
aos
cerca
de 30, adentrou-se,
já,
na
idade
da
razão;
volvida
mais
uma
década,
pesa
a
obrigação
de uma
certa
sabedoria:
há de
compreender
mais
o
mais
velho
ao
mais
moço
do
que
o inverso; daí,
também,
a
obrigação
moral
de
paciência
dos
pais
em
relação
aos
filhos,
de
querer
ouvi-los, de
saber
fazê-lo, de
dialogar
e
colaborar
com
eles
no
seu
desenvolvimento:
hão de
encarnar
os
pais
colaboradores compreensivos,
assim
como
as
pessoas
compreensivas encarnam
elementos
de engrazamento
humano.
Saiba
compreender; seja paciente; não julgue com excesso; desculpe-se;
aceite as desculpas alheias.
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