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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 13 de julho de 2009 21:21:08                                               

 
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CRôNICAS

Coração Espartano

   

Madalena Sofia Galvão Viana

publicado em 01/02/2008

 

         Não foi à toa que eu lhe liguei faltando meia hora para ônibus sair. Bastava uma palavra sua, qualquer que fosse, um sinal sutil até, pra eu descer, pegar um táxi e ver você partir. Dar-lhe um abraço e um beijo de boa viagem.

Meu apartamento fica pertinho da rodoviária, a distância era o que menos importava pra mim, eu ia de táxi e em dez minutos iria ver você, de farda com vinco e broches dourados na camisa, chapéu azul (embora já tenha me dito que tem outro nome que não me lembro agora) e mochila nas costas.

Quando eu liguei as 15:30 queria escutar de fato a sua voz, mas ela ao vivo, olhando nos seus olhos, dizendo que era difícil ver você partir, esperá-lo voltar. Dizer que amava você olhando pra você.

Acho que as minhas intenções ficaram claras, na verdade, saltitantes... mas você preferiu o celular. Disse que era horrível me ver sair. Que doía muito, que a tarde perdia o brilho, que lhe dava depressão entrar no ônibus e me ver lá embaixo, na plataforma de embarque, dando-lhe as costas e indo embora. Que precisávamos ter “coração espartano”.

Sabe, acho que o que mais queria no momento era que você deixasse solto o seu coração. Que você não fechasse os braços, nem cerrasse os lábios. Que a sua vontade de me ver antes de ir embora fosse maior do que o medo de ficar pensando naqueles curtos 15 minutos que eu o teria em meus braços.

De que me adianta um coração espartano diante da cor que esse céu aqui tem no fim de tarde? De que me vale optar por lhe abraçar apenas na quarta-feira se eu podia sentir seu cheiro hoje? Mas talvez seja a maneira mais sensata e menos doloroso de vencermos a saudade que bate nesses dias em que você viaja. Quem sabe, no fundo, você esteja certo e encarar isso como uma coisa simples diminua a ansiedade e o aperto que sufoca o coração quando o ônibus sai.

O celular tocou faz 2 minutos, era você me dizendo que o ônibus estava saindo... Acho que pela hora o trânsito não deva estar muito intenso, daqui a uns vinte minutos, no máximo, você estará na AL 101 – Sul, vendo o pôr do sol por entre as palhas dos coqueiros e o contorno das areias brancas que aquelas praias têm. O celular perderá o sinal e o meu soldado espartano estará a quilômetros de mim.

 

 

 
  

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::sobre o autor::

 Madalena Sofia Galvão Viana é filha de União dos Palmares – AL, de Cristina Lopes Galvão Viana e de Jairo Correia Viana. É acadêmica de Direito da Universidade Federal de Alagoas e vez ou outra se atreve nos caminhos da escrita.

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