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Os medos da noite desapareciam
ao se ouvir o som da \Banda Musical\ da cidade em serenata às quatro
horas da madrugada. Era normal em todas as datas festivas ou não,
homenagear o município, os moradores e os visitantes com aquela
apresentação pelas ruas estreitas. Alvoradas memoráveis.
Os fantasmas da noite e da
imaginação eram expulsos quando na mesma hora as funcionárias de uma
tecelagem próxima à minha casa aguardavam a entrada para o trabalho. Em
seguida as máquinas começavam a funcionar. As vozes entusiasmadas das
trabalhadoras, o som dos teares e toda aquela dinâmica da madrugada,
permanecem vivas em minha imaginação.
Criança ainda, dez anos de
idade, duas vezes por semana eu acordava às quatro horas da manhã para
ajudar e conhecer o trabalho na Redação de um dos jornais da cidade. Sem
me preocupar com os perigos da noite que não existiam, a não ser pelas
narrativas de alguns que tentavam nos amedrontar com casos do
sobrenatural, eu me dirigia muito feliz e tranquilo pela penumbra das
ruas até a Redação.
Essa era a minha rotina. Ao
deixar a Redação eu me dirigia à Igreja Matriz para ajudar na Celebração
da Missa matinal, em seguida corria para casa, um café rápido e chegava
a tempo na Escola.
Assim foi minha infância e
continuada na adolescência.
Ainda de \calças curtas\,
Colegial pela manhã; educação física ao amanhecer; Curso noturno em
Escola Técnica de Contabilidade e tempo para assistir aulas de desenho
técnico no Liceu de Artes e Ofício da cidade.
Não havia espaço para pensar
no que não fosse sadio e planejava-se os afazeres com inteligência.
Assim era com todos os jovens naquela época. Tudo com alegria, prazer,
objetivo e valorizar cada momento vivido era normal.
Alguns fatos pitorescos
marcaram aquelas madrugadas. No caminho para a redação eu encontrava
alguns veículos que entregavam e vendiam pães. Quando era mês de
festejos juninos, eles me davam alguns fogos do tipo \Traques ou as
conhecidas bombinhas\ depois me orientavam onde estourá-las. Não
confundam com \CRAK\, essa expressão
na minha época era sinônimo de vencedores que se destacavam por aquilo
que tinham de melhor. Crak do futebol; Crak nos estudos; Crak da
Medicina; Crak do Direito; Crak no amor, entre outros vencedores, eram
todos sadios.
Hoje rio ao pensar na minha
ingenuidade ao estourar os fogos nas ruas. Os padeiros com isso
acordavam as pessoas, vendiam o produto e aproveitavam para cobrar os
\fiados, devedores de longo prazo\, mas quitavam a dívida.
Deixavam os pães nas janelas,
ninguém tocava, mas tinha alguém na cidade, que escolhia uma residência
com vários pães na janela e levava um para casa. Ao levar só um, ela
garantia pão fresco todos os dias. Para quem se lembra, era o famoso
\pão filão\. A coincidência, que os \fiados\ era por conta dessas
entregas cujas contas nunca conferiam. O morador acreditava em entrega
equivocada, a menos. Eu não era \dedo duro\, um dia pegaram o ladino,
mas a benevolência era tão grande, o senso de caridade sempre presente
em todos, fez com que os padeiros o presenteasse diariamente com um pão
para sua família.
As noites eram calmas,
madrugada serena, sem qualquer atropelo, mas como precaução existia a
segurança da cidade. A responsabilidade maior ficava a cargo da
\Gloriosa Força Pública\, hoje Polícia Militar; \Tiro de Guerra
(Exército) e uma Guarda Noturna composta por dois vigilantes. Enquanto
um dormia o outro descansava. Não havia ocorrências.
No curso fundamental, na época
conhecido por \Curso Primário\, as atividades eram muitas. Ensinava-se
tudo o que era necessário para uma vida feliz e o currículo era rico em
cultura. Lembro-me da inauguração de um \Jornalzinho escolar\ que me
surpreendeu e me emocionou com um texto de minha autoria em primeira
página.
A educação detinha um nível de
excelência brilhante. O curso ginasial exigia exame de admissão para
ingresso, em junho, outro exame avaliava a continuidade do aluno na
série que estava matriculado. Esses exames equivalem hoje aos \famosos
vestibulares\. Não tinha e não havia necessidade de \cursinhos\, o aluno
da rede pública era preparado para ingressar em qualquer faculdade.
A chegada do horário de
recreio era esperada com ansiedade para se trocar idéias, lanches e
participar de brincadeiras sadias.
Não tinha policiamento nas
portas das escolas.
O tempo passou, não enveredei
pelos caminhos da literatura ou jornalismo, mas com dez anos de idade um
escritor e jornalista convidou-me para escrever alguns pequenos textos
em um dos jornais da cidade, publicaram e me causou orgulho ao vê-los
publicados.
O curso fundamental me trás
grandes recordações pela eficiência e dedicação dos professores,
reconhecidos mestres em preparar os alunos para o futuro. Lembro-me
ainda com carinho de todos eles. Será que os jovens de hoje se lembrarão
de seus professores? Será que terão o que comentar sobre a vida escolar?
Era tudo diferente. Respeito a
vida; gentilezas; educação; saúde; dedicação exclusiva por parte dos
educadores; responsabilidade política; ética e moral caminhavam juntas,
contudo, não precisava investir tanto em segurança, não havia
necessidade.
Parece que estamos vivendo o
Apocalipse; tempos difíceis, mas é preciso resgatar a identidade
perdida, essa parte boa e saudável da vida, romper com o pernicioso,
jogar fora tudo o que não presta e apenas investir no conhecimento, nada
mais. Só a Educação, só conhecimento, será capaz de alicerçar com bases
sólidas o futuro de nossos jovens. Do contrário, seremos condenados a
continuar com a ausência de pessoas preparadas para tudo e conviver com
uma sociedade podre cuja utilidade única é propagar o sofrimento entre
as pessoas.
Por tudo isso, eu aprendi a
gostar da madrugada, valorizar cada momento vivido e entendi por que o
fim de noite inspirou tantos artistas e poetas das artes, musical,
letras e plásticas a reverenciar toda essa beleza. Descobri o
firmamento; o luar e os encantos da Estrela da Manhã, fonte inspiradora
de canções inesquecíveis. O aroma que exalava nas alvoradas de cada
final de noite, faz-me sentir até hoje nas entranhas como a um perfume
nunca antes inalado.
Hoje assimilo uma época bem
diferente e distante daquela que conheci, vivi e acredito no desejo
geral das famílias em querer procurar no passado um motivo de fuga
desesperada. Não são apenas reminiscências, são lembranças vivas
acompanhadas de muita saudade, alegrias que se foram sonhos
transformados em pesadelos, esperanças perdidas e frustrações. Ainda sou
uma criança adulta.
Por que essa mudança radical
na vida das famílias?
Tenho por hábito acordar na
madrugada e numa dessas fui até a uma panificadora próxima buscar alguns
pães.
Meu Deus! Que horror. Valores
invertidos. Quanta tristeza.
Vi muitos jovens, até crianças
indo e vindo como parte da rotina diária. Foi fácil distinguir os que
caminhavam para um objetivo e foi mais fácil ainda ver aqueles que
voltavam para lugar nenhum. Pareciam perdidos em um mundo irreal como
robôs enfileirados se abismando em profundezas sem fim. Em cada olhar,
desespero; tristeza; angústia; desesperança; desamor e no íntimo, o
grito de \ajuda-me\.
Quanta amargura nos lares;
quantas lágrimas derramadas; quantos caminhos truncados; quantos sonhos
obstruídos e desfeitos, quanta tristeza nos corações.
Egoísmo; individualismo;
omissão; duras penas às vítimas do descaso, da ganância, de um poder
corrompido e condenados ao sofrimento. Uma sociedade carente das coisas
mais importantes e simples para se viver em harmonia e paz. Quantos
jovens já se foram na curta vida que lhe foi dada. Quantos ainda serão
as próximas vítimas? Em poucos anos o que será de nossos jovens? Que
futuro teremos? Quantos velhos hoje com vinte ou trinta anos de idade
não querem mais viver? Alguém tem alguma dúvida de como será nossos
futuros \Jovens Velhos\? Teremos
futuro?
Esses jovens vivem e crêem na
falsa alegria que lhes são impostas; no falso poder que demonstram;
cantam; riem; dançam; patrocinam espetáculos em público; alguns
violentos, outros não conseguem mais raciocinar; mansos, perdem as
forças e inabilitados para tudo, procuram a passagem perdida de volta.
Um grande prêmio para os que encontram, terão a oportunidade de apreciar
os encantos e o esplendor da vida e das madrugadas sadiamente.
Na cavalgada noturna perdem a
noção de família e aqueles que têm onde encostar, aonde chegar, levam um
pouco do inferno consigo e transforma a vida daqueles que os amam e os
acolhem em aflições terríveis. Convivência insuportável esgota-se todos
os recursos de ajuda e obriga as famílias a tomarem decisões cruéis que
deixam seqüelas, feridas dolorosas difíceis de cicatrizar.
A busca dos familiares é
intensa e constante na resolução desses problemas. Questionam DEUS pela
demora em mostrar a solução que a cada dia se agrava mais. Viemos de uma
geração cujo credo Cristão nos ensinou a não perder a fé, a esperança e
orar até pelos responsáveis por essa excrescência social, exercitar a
paciência e entender o livre arbítrio e o poder salvífico como proposta
de se encontrar a saída e o céu.
Será que não chegará o dia que
essa angústia tenha fim e a paz, o amor, voltem a reinar nas famílias?
– DEUS, OUÇA NOSSAS PRECES!
Foi em uma dessas madrugadas,
ao voltar com os pães, que entendi os Desígnios de Deus, são
inquestionáveis. Coloquei uma música suave em baixo volume, orquestrada
e que agrada a todos pela maravilhosa harmonia de seus acordes.
EDELWEISS, que em Alemão significa
alguma coisa muito preciosa, branco; nobre. É uma flor delicada,
aveludada, bonita que nasce nas alturas dos Alpes Europeus. Surgiram
lendas sobre jovens que para provar o amor a alguém, arriscavam suas
vidas na dificuldade de colhê-las.

Como Edelweiss, o que existe
de mais nobre, mais precioso para um pai; mãe e uma família? É a própria
família e preservar os filhos é o mesmo que colher nos Alpes a flor como
prova de amor familiar.
No quarto, um menino ainda,
sobressaltado, mergulhado em sonhos ou pesadelo, aos prantos e soluços
clamava para que DEUS o levasse e terminasse com seu sofrimento. Ao
mesmo tempo, orei para que DEUS abrandasse aquele sofrimento causado
pela ação maligna da irresponsabilidade humana. Não é justo, um menino
cheio de vida pela frente; muitos projetos, terminar dessa maneira. É
difícil aceitar essa ação desumana que o coloca nossos jovens no abismo
da desesperança.
O
que está acontecendo não é humano. Enxuguei as lágrimas e ao som da
música Edelweiss implorei a DEUS uma ação regeneradora, urgente e
naquele momento, como resposta, ouvi uma voz rouca muito triste, que
disse:
- PAI, ENSINA-ME A SORRIR
OUTRA VEZ.
Dedico a todos aqueles que sofrem por essa maldita causa .
Johnny Notariano
notarian@usp.br
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