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CRÔNICAS

A Educação entre chaves

   

Ronie Von Rosa Martins

publicado em 02/12/2010

 

 

Theodor W. Adorno dizia que um dos objetivos da educação seria o de se opor a crescente violência e barbárie onde o ser humano sem falta de avisos se encontra. Marcado pelos horrores de Auschwits, Adorno via na educação uma das formas de resistir à barbárie.


 

No entanto o que se percebe na educação brasileira não tem nada a ver com essa idéia inicial. A educação não visa a formação do indivíduo como um ser humano autônomo e democrático. As instituições escolares apenas resistem ao tempo, mantendo as mesmas tradições e verdades que erigiram a sociedade do jeito que ela é.


 

Adorno critica nos seus escritos a transformação da escola em indústria, empreendimento comercial. O autor não vê como um pensamento administrativo e burocrático possa servir para emancipar o sujeito e transformar o estudante e o cidadão em criaturas melhores. Pelo contrário, percebe através destes dois pensamentos formas de reduzir a própria educação em mercadoria, facilitando dessa forma uma educação “mais ou menos”, para as massas. Ou péssima, se formos um pouco mais radicais.


 

O aluno se vê seqüestrado pelas organizações do espaço e dos tempos escolares, é seccionado pela organização das disciplinas e conteúdos e é seduzido a se diluir num aparato cada vez mais tecnológico a fim de estar e ser como todos os outros. Buscar o seu lugar ao sol. Mesmo que para isso tenha que bater em alguém. “cotoveladas” diria Adorno.


 

A escola promove a competição em detrimento do companheirismo e da solidariedade, lembrada apenas em datas marcadas na folhinha. Não há um movimento dentro da educação para fazer pensar a educação, mas sim em cumprir o que é e está.


 

O professor, profissional que deveria por sua condição de intelectual e pensador, promover debates e questionamentos sobre a sociedade a fim de buscar melhorias através de um pensamento que criasse opções e novos caminhos, se vê automatizado e prisioneiro de sua limitação, tanto econômica quanto cultural, e apenas ecoa o grande discurso dos que estão no poder.


 

Como falar de violência em sala de aula, se o próprio aluno é tratado como se fosse um prisioneiro? Para não dizer do próprio professor, amedrontado pelo dedo fascista de um discurso tecnicista e castrador?


 

O que pensar de uma escola que obriga o aluno a pedir a chave do banheiro publicamente para poder se aliviar. O carcereiro olha para o infeliz e diz: Não demora!


 

A barbárie não está só em Auschwits, e se esta mesma escola não consegue fazer seus alunos “aprenderem” a ir no banheiro sem destruí-lo, o que se espera que os alunos aprendam?


 

Há uma visão antiquada que reduz a instituição educacional, com todos os seres que a habitam em mero braço da força e do discurso tradicional que procura manter tudo do jeito que sempre foi.


 

A violência, de todas as formas, se origina da necessidade que o homem tem em controlar o medo e na conseqüente necessidade de dominar. E a educação não questiona nem argumenta contra isso. Pior, incita na alma dos estudantes o egoísmo e essa necessidade de dominação. A formação não é mais vista como uma forma de singularização do indivíduo e como um caminho para melhor compreender o mundo e interferir positivamente nele, mas sim como uma forma de “encarecer” uma mercadoria. Cada vez mais o homem busca “formação”, não como forma de melhorar como homem, mas apenas para se promover e valorizar o produto. Ele mesmo.


 

A escola e a educação são violentadas por visões que não vêem a educação, mas o que ela pode lhes dar em troca; dinheiro, poder político, status social. E a educação não tem voz. Sofre de bullying nas mãos de outros interesses.


 

A educação, deveria pelo menos, denunciar essa “pseudoformação” como diria Adorno, apontar as condições que a geram, mas o que vemos são discursos que procuram reduzir esse fato histórico e social em atributos de responsabilidade individual.


 

A escola é meramente um lugar para “docilizar” o indivíduo, fazer com que perceba que é só mais uma engrenagem da máquina. Apêndice do organismo estatal.


 

Enquanto isso, o menininho nervoso levanta de sua cadeira, ergue a mão. Trêmulo: “Posso ir ao banheiro fessora?” Se a professora está de “boas”, permite que a criança saia... ela atravessa o espaço da escola e chega na secretaria. Várias pessoas conversam: - A chave do banheiro? Ele abana afirmativamente a cabeça. Alguém procura em uma gaveta uma chave...


 

A educação é isso. Uma prisão, e toda hora alguém se ajoelha pedindo uma chave...
 

É... Educação após Auschwits...
 

  

  

::sobre o autor::
Ronie Von Rosa Martins é professor da rede pública municipal e estadual das cidades de Pedro Osório e Cerrito no Rio Grande do sul.
Tem Pós-graduação em Literatura Contemporânea Brasileira - UFPEL e em Linguagens Verbais, Visuais e suas Tecnologias pelo IFSUL. 

 

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