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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 02 de agosto de 2011 20:05:35                                               
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CRôNICAS

A armadilha do elogio

Gilda E. Kluppel
publicado em 02/08/2011

Diante dos elogios podemos observar diversas reações, desde as mais tímidas aos comportamentos que beiram a infantilidade, revelando determinadas imaturidades. Nesta hora o que está guardado e às vezes muito bem escondido aparece abruptamente, revelando algumas surpresas. O escritor português Vergílio Ferreira tem uma citação interessante sobre os elogios: "A melhor forma de te não dizerem pequeno é dizeres dos outros que são grandes. Sobretudo se for mentira." Existem aqueles que se valem deste recurso para se divertir, enaltecendo exageradamente as supostas qualidades do outro, com o propósito de perceber até aonde o ego infla ou prevalece o bom senso; mesmo recebendo uma saraivada de elogios. Alguns ficam num estado de êxtase parecendo inebriados diante de um possível sucesso, adentrando no movediço terreno daqueles que se consideram superiores e diferentes dos demais.

Evidentemente gostamos de receber elogios, mas alguns nem sempre verdadeiros costumam mais atrapalhar do que ajudar. Além de convivermos numa sociedade em que o jogo da hipocrisia conta com muitos adeptos, dificilmente sabemos quando são sinceros, principalmente se o elogio decorre do nada. Caso não proceda de uma contribuição efetiva ou trabalho apresentado, perde totalmente o sentido; meras palavras despejadas no vazio.

Alguns ficam tão entusiasmados diante de comentários favoráveis, munidos de envaidecimento exagerado, que descuidam das suas atividades pela sobra de confiança. O falso reconhecimento de si próprios e a autoconfiança excessiva conduz à insuportável arrogância. Com o passar do tempo, a pessoa pode se convencer de que pertence a uma categoria superior aos demais mortais; consequentemente sua capacidade de autocrítica reduz vertiginosamente. Leva a crer que a pessoa incorporou apenas os elogios recebidos durante toda a sua vida e, a partir de dado momento, adquiriu uma licença especial para se auto elogiar. O pior de todos é o elogio próprio. Quantas vezes escutamos em demasia a expressão do “eu” entre uma conversa e outra? Logo a conversa se esvazia quando prevalece a manifestação de um ego insuflado.

É interessante observar o elogio cruzado, um elogia o outro para receber em troca a sua parte. Num absurdo jogo de negociação, uma prática que atende apenas aos envolvidos, visando preencher alguma deficiência ou um interesse escuso aos eventuais espectadores desse infeliz espetáculo. A barganha pela adulação, por esta moeda sem lastro de verdade e cunhada pela futilidade, acarreta dano ao se passar adiante.

No trato com as pessoas, todas merecem os gestos amáveis e a delicadeza, não dispensando o sorriso sincero. As palavras motivadoras são imprescindíveis para superar as dificuldades da vida. Mas estas nunca tendem ao exagero, decorrem na medida exata da sinceridade de quem as pronuncia, sem os excessos que beiram a bajulação. Elogiar atitudes e não personificar os elogios para que alguns se julguem no direito de assentar no trono da soberba. Que elogios sirvam de impulso e não um objetivo a ser almejado, decorrente de um banal jogo de interesses. Nada melhor que um bom desafio para não se acomodar, ele impulsiona e permite um rumo centrado e firme em torno de um objetivo.

 

 
 
  

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Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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