|
Reforma,
uma palavra que envolve várias cenas da vida, objetos variados e ideias
inúmeras de vários contextos, pessoas e coisas.
Reformamos
a casa, o quarto, o sítio, a varanda. Reformamos ideias, valores e
ideologias. Reformamos o visual, o pensamento e o sentimento. Infinidades de
formas e reformas, fluxos, refluxos e transformações.
Entretanto, existe uma modalidade de reforma que recebe pouca dedicação das
pessoas e pode ser considerada tão importante quanto (ou mais que) as
reformas que fazemos na paisagem exterior.
Trata-se
desta reforma que ganha como companheira gramatical e de sentido a palavra
íntima. Tão próxima se tornou a companheira da reforma que ambas
formam uma dupla interessante – a reforma íntima.
Somos
frutos de uma árvore cultural extensa, com matizes variados e diferenças
presentes e constantes.
No
entanto, a despeito da diversidade cultural planetária e da multiplicidade
de modos de ser, vivemos sob a tutela de um sistema econômico presente em
quase todo o orbe terrestre que influencia, molda e tolda comportamentos
individuais, grupais e institucionais.
Tempo não
há, pois como diz o ditado popular, “tempo é dinheiro!”. E, como o dinheiro
se transmutou em riqueza, considerada item de primeira necessidade, não há
tempo de cultivar a preguiça saudável, de vivenciar o famoso ócio criativo a
que se dedicavam os filósofos da Grécia Antiga.
O tempo
que era necessário para descobrir-se afastado do outro, ficou pequenino e
quase inexistente, e o olhar-se no espelho ganhou a finalidade única e
exclusiva de ornamentar a couraça de pele que vive subjugada pela moda do
hoje, sem a graça nem a arte da cultura da Renascença, pasteurizada pela
repetição de figuras, modelos copiados e invejados, expulsando de si o
espaço para o desenvolvimento de si mesmo.
Há um
momento no ciclo da vida em que nos encontramos totalmente enlaçados à
presença do outro. Ainda sem habilidades cognitivas, biológicas e psíquicas
maduras, é a fase na qual estamos grudamos em alguém, para que possamos, aos
poucos, construir a nós mesmos. Essa fase se chama infância.
Crescemos
paulatinamente, buscando colocar os pezinhos para fora bem devagar, a
mãozinha ainda agarrada ao outro. O medo de ficarmos sozinhos não é só uma
representação da nossa fragilidade infantil, mas um sinal de que ainda não
temos uma identidade ou subjetividade ou mesmo uma existência independente
em si. Existe nesse processo o desejo de que o outro tire de mim a dor
existencial de decidir, e escolha por mim e para mim o percurso a seguir.
Aos
poucos, os passos ganham compasso de um andar que se consolida passo a
passo. O ser cresce e aparece! Não só o seu corpo ganha formas diferentes e
relevantes ao olhar. O ser começa a externar os primórdios da
individualidade necessária para que caminhe sem precisar de mãos o tempo
todo a segurá-lo. Ensaia sair, ensaia brigar e se revoltar. Ensaia viver os
primeiros sintomas de um ser que começa a encorpar e, aos olhos do mundo,
emancipar-se. Embora saiba que continuará sempre a crescer, algo de concreto
já se espelha na alvorada da individuação desse ser. Primeiros sinais e
contornos de uma vida já experimentada e que carrega em si páginas de
construções, momento de uma história que começou no dia em que nascemos.
À medida
que deixamos a infância, passamos pela adolescência, atravessamos a
juventude e chegamos à adultez, nós, de fato, crescemos e aparecemos, porém
muito pouco de nós, nesse sinuoso trajeto, floresce e se expressa de forma
autêntica. Nessa caminhada, a definição exata de quem somos continua a se
espreitar em nós. Por vezes, a voz genuína dos recessos do nosso ser é
ofuscada pela tendência de reproduzir o comportamento alheio, de obter a
aprovação de grupos, abdicando de si mesmo, para se sentir parte do todo,
mesmo que apartado de si.
Para
reformar, é preciso primeiramente existir o que reformar. Não se reforma o
que nem sequer ainda existe nem nunca existiu. Reforma-se o que já dá sinais
de não ser tão funcional, o que já não deixa a energia fluir, para que a
vida possa frutificar, a evolução prospere e as ações ensejem novos
horizontes de crescimento.
Contudo,
se não há consciência de si, paremos por aqui. É necessário saber o que
precisa mudar, mas, antes, é preciso conhecer e começar a desvendar a
caixinha de segredos que se guarda dentro de si. A chave está guardada em
algum lugar secreto e só você pode encontrá-la. Não se pode fazer nada
enquanto o ser não se põe a percorrer o caminho que o levará a descobrir-se.
Descobrir o que foi, como se é, janela de um possível vir-a-ser.
|