|
“O futebol começou na
pré-história, na
primeira vez que um pré-brasileiro fez
embaixada com o crânio do inimigo....”
Luis Fernando Veríssimo
Lá onde a grama não cresce, tudo pode acontecer,
benza-Deus! Rebola pra cá, espalma pra lá, xinga
a mãe do juiz ladrão, aceita um frango na falha
da caída errada, a tabelinha do contra-ataque
adversário é fatal, impedimento que o
bandeirinha feição de ranho não deu, haja
paciência. Tá tudo aqui na minha mente. Também,
o beque fica só num cerca-lourenço, o volante é
um pamonha, o tiro foi um fuzilo no ângulo. Onde
a coruja fez um ninho.
Lá onde a grama não cresce, o lazarento do
centro-avante cisca, o ponta cruza direitinho, o
lateral polaco tem uma canhotaça, o meia-armador
cor de chumbo é um garrincha de pé murcho mas
lança bem, a marca da cal é pior que o sinal da
cruz, pega, pega, falta, cartão vermelho, a
barreira foi um desastre, a torcida que vá se
ferrar, o coração dispara um bólido no peito
arfando. Só por Deus.
Lá onde a grama não cresce, o quarto-zagueiro
rala, o atacante peteca o ar em chute errado, o
lateral tenta evitar o cruzamento, o ponta
destro tenta o drible da vaca, o becão fuzila
pra arquibancada – ganha o porco da quermesse –
enquanto a banda Furiosa sola uma marcha
carnavalesca e as galeras cantam alucinadas, ora
por um lado, ora por outro. Alguns rezam,
coitados.
Lá onde a grama não cresce, o técnico se
esgoela, o preparador físico sonha um placar
favorável – ser goleiro é fogo! – enquanto a
bola siricoteia na área, todo mundo pesa que é
fácil pegar aquelas pancadas, saber cair
direitinho, depois se livrar do risco e,
depressinha lançar o atacante em melhor posição.
No lugar do goleiro nem o sol brilha. Mas o
guarda-metas tem que estar ali, ou o véu de
noiva é desvirginado pela bola. Só estando ali
pra saber. Ser goleiro é um inferno.
Lá onde a grama não cresce... se o goleirão pega
um pênalti, é sorte, fácil, o batedor bateu mal.
Era zarolho. Se toma um gol bem bolado é
frangueiro mesmo sendo uma defesa impossível. Se
o time ganha bem, todos elogiam o artilheiro, as
fintas, as mudanças estratégicas, o desenho
tático do clássico. Se perde, sai de baixo. Ser
Goleiro é quase uma cruz. Quem não sabe jogar
bola vira goleiro? Coitada da bola. Ninguém
merece. Para o goleiro, sempre, toda bola vem
quadrada. Tá lá o corpo estendido no chão.
Lá onde a grama não cresce, o goleiro perde
cabelos, perde o sono, perde a paciência, não
pode errar, tem que berrar com a defesa, tem que
se matar para não ver sua defesa vazada. Se toma
um chapéu, é grosso, se rebate uma falta batida
em estilo de folha seca, tá ali pra isso mesmo,
feito um louco tem que distribuir o jogo
ligeirinho, logo depois do sufoco de um ataque
avassalador do time adversário.
Lá onde a grama não cresce, é um bate cabeças, é
um siricotico generalizado, se bobear a bola
entra detravessada, ainda tem o lateral pé
murcho tomando bola nas costas, tem o zagueiro
grosso e redondo, tem o maricão que não sabe
fazer pé de ferro, vai por aí a vida de goleiro.
Puro Saigon.
Lá onde a grama não cresce, o goleiro e um cone
são a mesma coisa. A zaga falha e o goleiro leva
a fama. Salário então, piora tudo. Centro-avante
mais fantasiado do que penteadeira de cigana,
faz um golzinho aqui e ali, ganha uma grana
alta. Se o goleiro vai renovar, depois de dez
anos do time, é uma merreca. O profissional
Goleiro não tem procurador. Tem mau olhado. E
gente sempre de olho nele. Maria Chuteira então,
só vai atrás de Ataliba, de Mané, de Edmundo, de
Vampeta. Quem vai na fiúza de goleiro é zarolha
pelancuda com mau hálito sabor chulé vencido e
sovaco com cheirim de fedô.
Lá onde a grama não cresce, fica a história.
Gilmar tinha fama e fez nome. Era herói. Mas
quando perdia, adeus carreira. Quem se lembra do
Barbosa? Se for como o Leão, é fresco. Se for
como o Ronaldo, é maloqueiro. Se for como o Dida,
é frio demais. Tafarel foi um pegador de pênalti
e daí? Só lembram do Romário e do Bebeto. Se for
como o Marco, pensa que é dono do time. Se é o
Rogério Ceni só serve mesmo pro seu time, não
pra seleção canarinho. Que vida a de goleiro,
hein?
Nunca está onde pensa que está. Come o pão que o
diabo amassou. Se pudessem, os times jogavam sem
goleiro e seria dez a dez qualquer placar de
empate.
Na outra encarnação eu quero ser o craque
Sócrates.
Lá onde a grama não cresce, o goleiro pasta!
Melhor ser gandula.
|