ISSN 1678-8419  

Última atualização feita em:20-06-2005 17:56


 
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Lá Onde a Grama Não Cresce
Por Silas Corrêa Leite

“O futebol começou na pré-história, na
primeira vez que um pré-brasileiro fez
embaixada com o crânio do inimigo....”
Luis Fernando Veríssimo


Lá onde a grama não cresce, tudo pode acontecer, benza-Deus! Rebola pra cá, espalma pra lá, xinga a mãe do juiz ladrão, aceita um frango na falha da caída errada, a tabelinha do contra-ataque adversário é fatal, impedimento que o bandeirinha feição de ranho não deu, haja paciência. Tá tudo aqui na minha mente. Também, o beque fica só num cerca-lourenço, o volante é um pamonha, o tiro foi um fuzilo no ângulo. Onde a coruja fez um ninho.

Lá onde a grama não cresce, o lazarento do centro-avante cisca, o ponta cruza direitinho, o lateral polaco tem uma canhotaça, o meia-armador cor de chumbo é um garrincha de pé murcho mas lança bem, a marca da cal é pior que o sinal da cruz, pega, pega, falta, cartão vermelho, a barreira foi um desastre, a torcida que vá se ferrar, o coração dispara um bólido no peito arfando. Só por Deus.

Lá onde a grama não cresce, o quarto-zagueiro rala, o atacante peteca o ar em chute errado, o lateral tenta evitar o cruzamento, o ponta destro tenta o drible da vaca, o becão fuzila pra arquibancada – ganha o porco da quermesse – enquanto a banda Furiosa sola uma marcha carnavalesca e as galeras cantam alucinadas, ora por um lado, ora por outro. Alguns rezam, coitados.

Lá onde a grama não cresce, o técnico se esgoela, o preparador físico sonha um placar favorável – ser goleiro é fogo! – enquanto a bola siricoteia na área, todo mundo pesa que é fácil pegar aquelas pancadas, saber cair direitinho, depois se livrar do risco e, depressinha lançar o atacante em melhor posição. No lugar do goleiro nem o sol brilha. Mas o guarda-metas tem que estar ali, ou o véu de noiva é desvirginado pela bola. Só estando ali pra saber. Ser goleiro é um inferno.

Lá onde a grama não cresce... se o goleirão pega um pênalti, é sorte, fácil, o batedor bateu mal. Era zarolho. Se toma um gol bem bolado é frangueiro mesmo sendo uma defesa impossível. Se o time ganha bem, todos elogiam o artilheiro, as fintas, as mudanças estratégicas, o desenho tático do clássico. Se perde, sai de baixo. Ser Goleiro é quase uma cruz. Quem não sabe jogar bola vira goleiro? Coitada da bola. Ninguém merece. Para o goleiro, sempre, toda bola vem quadrada. Tá lá o corpo estendido no chão.

Lá onde a grama não cresce, o goleiro perde cabelos, perde o sono, perde a paciência, não pode errar, tem que berrar com a defesa, tem que se matar para não ver sua defesa vazada. Se toma um chapéu, é grosso, se rebate uma falta batida em estilo de folha seca, tá ali pra isso mesmo, feito um louco tem que distribuir o jogo ligeirinho, logo depois do sufoco de um ataque avassalador do time adversário.

Lá onde a grama não cresce, é um bate cabeças, é um siricotico generalizado, se bobear a bola entra detravessada, ainda tem o lateral pé murcho tomando bola nas costas, tem o zagueiro grosso e redondo, tem o maricão que não sabe fazer pé de ferro, vai por aí a vida de goleiro. Puro Saigon.

Lá onde a grama não cresce, o goleiro e um cone são a mesma coisa. A zaga falha e o goleiro leva a fama. Salário então, piora tudo. Centro-avante mais fantasiado do que penteadeira de cigana, faz um golzinho aqui e ali, ganha uma grana alta. Se o goleiro vai renovar, depois de dez anos do time, é uma merreca. O profissional Goleiro não tem procurador. Tem mau olhado. E gente sempre de olho nele. Maria Chuteira então, só vai atrás de Ataliba, de Mané, de Edmundo, de Vampeta. Quem vai na fiúza de goleiro é zarolha pelancuda com mau hálito sabor chulé vencido e sovaco com cheirim de fedô.

Lá onde a grama não cresce, fica a história. Gilmar tinha fama e fez nome. Era herói. Mas quando perdia, adeus carreira. Quem se lembra do Barbosa? Se for como o Leão, é fresco. Se for como o Ronaldo, é maloqueiro. Se for como o Dida, é frio demais. Tafarel foi um pegador de pênalti e daí? Só lembram do Romário e do Bebeto. Se for como o Marco, pensa que é dono do time. Se é o Rogério Ceni só serve mesmo pro seu time, não pra seleção canarinho. Que vida a de goleiro, hein?

Nunca está onde pensa que está. Come o pão que o diabo amassou. Se pudessem, os times jogavam sem goleiro e seria dez a dez qualquer placar de empate.

Na outra encarnação eu quero ser o craque Sócrates.

Lá onde a grama não cresce, o goleiro pasta! Melhor ser gandula.

 

 

 

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Silas Corrêa Leite é de Itararé-SP, poeta, professor. Membro da UBE-União Brasileira de Escritores – Pós-graduado em Educação, Literatura, Relações Raciais e Inteligência Emocional.

poesilas@terra.com.br

 

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