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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 02 de setembro de 2011 20:04:02                                               
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Crônicas
Confissões de um menor abandonado    

Ivone Boechat

publicado em 02/09/2011

Eu sei que sou culpado,não tive a capacidade de assumir a administração de minha vida, não fui capaz de resolver as emoções infantis nem consegui equilibrar-me sobre os obstáculos que herdei da sociedade.


Até que me esforcei! Olhei para a vida de meus pais, porém, os desentendimentos de seu casamento falido nublaram os tais exemplos de que ouvi falar, só falar.


Não tive o privilégio de me  aquecer no meu próprio lar, porque faltou-lhe a chama do amor, sustentando-nos unidos. Cada qual saiu para o seu lado. Na confusão da vida me perdi.


Candidatei-me à escola. Juntei a identidade civil ao retrato desbotado, botei a melhor farda de guerreiro, entrei na fila. Humilhado por tantas exigências, implorando prazos, descontos e vaga, sentei-me num banco escolar, jurei persistência, encarei o desafio.


- Joãozinho, você não sabe sentar-se?
- Joãozinho, seu material está incompleto.
- Joãozinho,  seu  trabalho  de pesquisa está horrível.
- Joãozinho, seu uniforme está ridículo.


A barra foi pesando, fui sendo passado para trás e vendo que escola é coisa de rico. Um dia, arrependi-me, mas a professora se escandalizou das faltas (nem eram tantas!) e disse que meu nome já estava riscado, há muito tempo. O que fazer?   Dei marcha à ré ali e, olhando a turma, com vergonha, fui saindo.


Moro nas marquises, debaixo da ponte, nas calçadas e não moro em lugar nenhum. Tenho avós, pais, irmãos e primos, mas não tenho família. Tenho idade de criança e desilusões de adulto. Minha aparência assusta as pessoas e nada posso fazer. A cada dia que passa, estou mais sujo, mais anêmico, mais fraco.


Sou um rosto perdido, perambulando, em solo brasileiro. Na verdade, chamam-nos menores, todavia, somos os maiores desgraçados.


Vendo balas num sinal de trânsito que muda de cor a cada minuto. Quando o sinal fica vermelho, os carros param, meu coração dispara. Para nós, menores abandonados, o vermelho é a cor da esperança.


Ivone Boechat
 

 

 

 
  

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::sobre o autor::
Ivone Boechat de Oliveira é bacharel em Direito, pela Universidade Cândido Mendes; Graduada em Pedagogia e Pós-Graduada em Educação, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro; e Mestre em Educação e PhD em Psicologia da Educação, pela Wisconsin International University, dos EUA. É membro da Academia Duquecaxiense de Letras e Artes, em Duque de Caxias/RJ.
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