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Você já deve ter ouvido falar de pessoas que, literalmente, secam as
flores para as quais olham. Você já deve ter conhecido alguém que sempre
está desejando possuir o que é de outro. E, é claro, você sabe como
essas pessoas costumam ser chamadas.
Todos as temem. Todos querem distância delas. Mas, o que muitos não
desejam reconhecer e aceitar é que a semente desse sentimento está
plantada no coração da maioria das pessoas. Em algumas, ela nunca deixa
de ser semente. Em outras, torna-se um pequeno arbusto. E, em um grupo,
difícil de ignorar, transforma-se em uma imensa árvore. Esses últimos
são aqueles que costumamos chamar de
invejosos.
Mas, afinal, o que seria esse sentimento? Ele é sempre destrutivo? Ou,
sob determinadas circunstâncias, ele pode tornar-se algo positivo?
Vamos, então, começar definindo-o. Segundo o dicionário Aurélio, inveja
significa, “desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem.
Desejo violento de possuir o bem alheio”. Em outros termos, sentir
inveja está associado ao desejo, algumas vezes inconsciente, de querer
para si o que é do outro. No entanto, do meu ponto de vista, todo
problema da inveja está na forma e na força desse querer.
Para alguns (na verdade, prefiro crer que sejam muitos), esse querer
implica o desafio de vencer os seus próprios limites. As conquistas dos
outros despertam nesses o desejo de ir além, pois “se outros
conseguiram”, se perguntam, “por que eu não?”. Nesse caso, a pessoa que
inveja não deseja o mal de ninguém, mas estabelece para si metas
possíveis, sabendo de antemão que outros já as atingiram. Assim, se
pensarmos por esse ponto de vista veremos que todos aqueles que se
tornaram nossos modelos ou ídolos o foram por que tinham algo que
invejávamos e que, portanto, queríamos conquistar. Nesse contexto a
inveja até pode ser considerada boa, pois representa, apenas, o desejo
de novas conquistas, uma forma de progredir, tendo como exemplos pessoas
que atingiram os mesmos objetivos.
Mas, e quanto ao outro tipo de inveja? A que “seca” as flores? O que
será que move pessoas que se sentem assim em relação aos outros?
Algumas vezes, os indivíduos que “sofrem desse mal” sequer percebem o
que está acontecendo ou o que estão provocando. Para eles, é tudo
natural, como se fosse uma segunda natureza ou uma segunda pele.
É horrível, eu sei! Porém, podemos amenizar a situação tentando entender
o quanto essas pessoas são doentes, já que esse tipo de inveja pode ser
perfeitamente encarado como uma espécie de enfermidade. Portanto, o
importante, nesses casos, é compreender qual o seu mecanismo, como “essa
doença” se manifesta, para assim nos protegermos e, quem sabe, ajudar.
Deve-se perceber, então, que nessas circunstâncias a inveja passa a
assumir uma forma ou aparência totalmente diversa da descrita
anteriormente. Nela, a pessoa não se conforma em apenas querer algo
melhor para si, agora ela quer
tudo o que é do outro,
não suportando a idéia de que esse outro tenha algo que ela não tem. O
simples desejar transforma-se num sentimento amargo de não-realização,
como se tudo o que há de melhor fosse reservado aos outros e ele, o
invejoso, nunca conseguisse alcançar nada de bom.
Imaginem o sofrimento dessas pessoas. Imaginem o vazio de suas vidas. O
desejo hoje realizado, amanhã nada significará. Tudo tem um gosto azedo,
esgotando-se o prazer no simples ato de conquistar. A felicidade
dificilmente está ao alcance dessas pessoas. No entanto, elas se dizem
felizes, principalmente quando alcançam essa pseudofelicidade a custa do
sofrimento alheio.
Pode-se pensar que essa descrição é exagerada; entretanto, não se
iludam. Esses sujeitos existem e, muitas vezes, estão bem próximos de
nós. Se buscarmos em nossa memória, lembraremos de pessoas que se
comportavam dessa maneira. E, do mesmo modo, recordaremos, sem
dificuldade, as sensações desagradáveis que elas nos transmitiam.
O como e o porquê de elas terem-se tornado assim são questões difíceis
de responder. Haveria a necessidade de se realizar uma análise profunda
das suas psiquês. Dever-se-ia tentar compreender o que as motiva, que
sofrimento carregam em suas almas, para nunca estarem satisfeitas com
suas conquistas e, portanto, permanentemente desejosas do que é do
outro.
Contudo, é importante que se esclareça que a busca pelas respostas
dessas questões já geraram inúmeros tratados de psicologia e,
principalmente, de filosofia. Assim, Spinoza, por exemplo, definia a
inveja como sendo a tristeza que se torna ódio e o ódio nunca pode
ser bom. Kant qualifica a inveja como um dos vícios da
misantropia, diretamente oposto à filantropia. Já Schopenhauer
considerava ser natural e mesmo inevitável que o homem, na
contemplação do prazer e da propriedade alheios, sinta amargamente sua
própria carência; apenas, isto não deveria erguer seu ódio contra o
felizardo, mas precisamente nisto consiste a inveja. E, para
finalizar esse apanhado de considerações filosóficas sobre a inveja,
temos Diderot, escrevendo que o talento é imperdoável, numa clara
alusão a negativa do invejoso de aceitar as qualidades dos outros e,
conseqüentemente, da sua necessidade de destruir aquilo que não é capaz
de alcançar por mérito próprio.
Vê-se, então, que o tema da inveja não é nenhuma novidade; na verdade,
ele vem ocupando a mente de diferentes e renomados pensadores há muito
tempo. No entanto, deve-se reconhecer que este é um assunto que nunca se
esgota, talvez porque, como disse no início desse texto, todos tenhamos
em nossos corações a semente desse sentimento. Mas como não há respostas
definitivas quando se está tratando com sentimentos e emoções, o que se
pode dizer mais sobre a inveja e o invejoso?
Se você conhece algum, talvez deva refletir se vale a pena conviver com
ele, ou se a melhor opção não seria se afastar. Mas, se, por outro lado,
pensarmos que nossa vida não pode ser passada dentro de uma redoma de
vidro e que, com certeza, cruzaremos com muitos invejosos ao longo de
nossa existência, talvez o caminho seja encontrarmos formas de
tentarmo-nos proteger contra as suas investidas. Como fazer isso? Bem,
cada um tem a sua receita. Alguns apelam para raminhos de arruda atrás
da orelha, outros em carregar amuletos de proteção e outros ainda, em se
manter firmes na idéia de que pessoas desse tipo não lhes podem fazer
mal, exercitando o que hoje se acostumou a chamar de “pensamento
positivo”. Entretanto, todos são unânimes em afirmar que apesar de todos
esses cuidados, os riscos continuam sendo imensos e que, portanto, só
nos resta rezar para nunca termos a infelicidade de cruzar com nenhum
invejoso.
Contudo, não seria correto de minha parte encerrar este texto sem
indicar algum tipo de caminho que nos ajude a lidar com a inveja e,
conseqüentemente, com os diferentes tipos de invejosos de plantão.
Assim, trago a mensagem de outro pensador que se não dá uma solução
definitiva à inveja, pelos menos aponta uma forma de manejar com ela em
nosso proveito. A citação é do escritor italiano
Giovanni Papini:
A melhor vingança
contra aqueles que me pretendem rebaixar consiste em ensaiar um voo para
um cume mais elevado. E talvez não subisse tanto sem o impulso de quem
me queria por terra. O indivíduo verdadeiramente sagaz faz mais:
serve-se da própria difamação para retocar melhor o seu retrato e
suprimir as sombras que lhe afectam a luz. O invejoso torna-se, sem
querer, o colaborador da sua perfeição
(sic).
Portanto, tentemos
fazer o que nos aconselha Papini. Tornemos os invejosos nossos
colaboradores e façamos de suas críticas e injúrias um trampolim para
conseguirmos atingir objetivos mais elevados. Porém, se mesmo assim esse
pensamento final não trouxer a segurança necessária e não afastar o
medo, não custa nada continuar usando o velho e sempre poderoso raminho
de arruda atrás da orelha, pois, parafraseando os espanhóis, “Eu não
creio em invejosos, mas que existem, existem”. |