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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 11 de abril de 2008 22:57:31                                               

 
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CRôNICAS

Inveja

   

Margarete Hülsendeger

publicado em 11/09/2007

Você já deve ter ouvido falar de pessoas que, literalmente, secam as flores para as quais olham. Você já deve ter conhecido alguém que sempre está desejando possuir o que é de outro. E, é claro, você sabe como essas pessoas costumam ser chamadas.

Todos as temem. Todos querem distância delas. Mas, o que muitos não desejam reconhecer e aceitar é que a semente desse sentimento está plantada no coração da maioria das pessoas. Em algumas, ela nunca deixa de ser semente. Em outras, torna-se um pequeno arbusto. E, em um grupo, difícil de ignorar, transforma-se em uma imensa árvore. Esses últimos são aqueles que costumamos chamar de invejosos.

Mas, afinal, o que seria esse sentimento? Ele é sempre destrutivo? Ou, sob determinadas circunstâncias, ele pode tornar-se algo positivo?

Vamos, então, começar definindo-o. Segundo o dicionário Aurélio, inveja significa, “desgosto ou pesar pelo bem ou pela felicidade de outrem. Desejo violento de possuir o bem alheio”. Em outros termos, sentir inveja está associado ao desejo, algumas vezes inconsciente, de querer para si o que é do outro. No entanto, do meu ponto de vista, todo problema da inveja está na forma e na força desse querer.

Para alguns (na verdade, prefiro crer que sejam muitos), esse querer implica o desafio de vencer os seus próprios limites. As conquistas dos outros despertam nesses o desejo de ir além, pois “se outros conseguiram”, se perguntam, “por que eu não?”. Nesse caso, a pessoa que inveja não deseja o mal de ninguém, mas estabelece para si metas possíveis, sabendo de antemão que outros já as atingiram. Assim, se pensarmos por esse ponto de vista veremos que todos aqueles que se tornaram nossos modelos ou ídolos o foram por que tinham algo que invejávamos e que, portanto, queríamos conquistar. Nesse contexto a inveja até pode ser considerada boa, pois representa, apenas, o desejo de novas conquistas, uma forma de progredir, tendo como exemplos pessoas que atingiram os mesmos objetivos.

Mas, e quanto ao outro tipo de inveja? A que “seca” as flores? O que será que move pessoas que se sentem assim em relação aos outros?

Algumas vezes, os indivíduos que “sofrem desse mal” sequer percebem o que está acontecendo ou o que estão provocando. Para eles, é tudo natural, como se fosse uma segunda natureza ou uma segunda pele.

É horrível, eu sei! Porém, podemos amenizar a situação tentando entender o quanto essas pessoas são doentes, já que esse tipo de inveja pode ser perfeitamente encarado como uma espécie de enfermidade. Portanto, o importante, nesses casos, é compreender qual o seu mecanismo, como “essa doença” se manifesta, para assim nos protegermos e, quem sabe, ajudar.

Deve-se perceber, então, que nessas circunstâncias a inveja passa a assumir uma forma ou aparência totalmente diversa da descrita anteriormente. Nela, a pessoa não se conforma em apenas querer algo melhor para si, agora ela quer tudo o que é do outro, não suportando a idéia de que esse outro tenha algo que ela não tem. O simples desejar transforma-se num sentimento amargo de não-realização, como se tudo o que há de melhor fosse reservado aos outros e ele, o invejoso, nunca conseguisse alcançar nada de bom.

Imaginem o sofrimento dessas pessoas. Imaginem o vazio de suas vidas. O desejo hoje realizado, amanhã nada significará. Tudo tem um gosto azedo, esgotando-se o prazer no simples ato de conquistar. A felicidade dificilmente está ao alcance dessas pessoas. No entanto, elas se dizem felizes, principalmente quando alcançam essa pseudofelicidade a custa do sofrimento alheio.

Pode-se pensar que essa descrição é exagerada; entretanto, não se iludam. Esses sujeitos existem e, muitas vezes, estão bem próximos de nós. Se buscarmos em nossa memória, lembraremos de pessoas que se comportavam dessa maneira. E, do mesmo modo, recordaremos, sem dificuldade, as sensações desagradáveis que elas nos transmitiam.

O como e o porquê de elas terem-se tornado assim são questões difíceis de responder. Haveria a necessidade de se realizar uma análise profunda das suas psiquês. Dever-se-ia tentar compreender o que as motiva, que sofrimento carregam em suas almas, para nunca estarem satisfeitas com suas conquistas e, portanto, permanentemente desejosas do que é do outro.

Contudo, é importante que se esclareça que a busca pelas respostas dessas questões já geraram inúmeros tratados de psicologia e, principalmente, de filosofia. Assim, Spinoza, por exemplo, definia a inveja como sendo a tristeza que se torna ódio e o ódio nunca pode ser bom. Kant qualifica a inveja como um dos vícios da misantropia, diretamente oposto à filantropia. Já Schopenhauer considerava ser natural e mesmo inevitável que o homem, na contemplação do prazer e da propriedade alheios, sinta amargamente sua própria carência; apenas, isto não deveria erguer seu ódio contra o felizardo, mas precisamente nisto consiste a inveja. E, para finalizar esse apanhado de considerações filosóficas sobre a inveja, temos Diderot, escrevendo que o talento é imperdoável, numa clara alusão a negativa do invejoso de aceitar as qualidades dos outros e, conseqüentemente, da sua necessidade de destruir aquilo que não é capaz de alcançar por mérito próprio.

Vê-se, então, que o tema da inveja não é nenhuma novidade; na verdade, ele vem ocupando a mente de diferentes e renomados pensadores há muito tempo. No entanto, deve-se reconhecer que este é um assunto que nunca se esgota, talvez porque, como disse no início desse texto, todos tenhamos em nossos corações a semente desse sentimento. Mas como não há respostas definitivas quando se está tratando com sentimentos e emoções, o que se pode dizer mais sobre a inveja e o invejoso?

Se você conhece algum, talvez deva refletir se vale a pena conviver com ele, ou se a melhor opção não seria se afastar. Mas, se, por outro lado, pensarmos que nossa vida não pode ser passada dentro de uma redoma de vidro e que, com certeza, cruzaremos com muitos invejosos ao longo de nossa existência, talvez o caminho seja encontrarmos formas de tentarmo-nos proteger contra as suas investidas. Como fazer isso? Bem, cada um tem a sua receita. Alguns apelam para raminhos de arruda atrás da orelha, outros em carregar amuletos de proteção e outros ainda, em se manter firmes na idéia de que pessoas desse tipo não lhes podem fazer mal, exercitando o que hoje se acostumou a chamar de “pensamento positivo”. Entretanto, todos são unânimes em afirmar que apesar de todos esses cuidados, os riscos continuam sendo imensos e que, portanto, só nos resta rezar para nunca termos a infelicidade de cruzar com nenhum invejoso.

Contudo, não seria correto de minha parte encerrar este texto sem indicar algum tipo de caminho que nos ajude a lidar com a inveja e, conseqüentemente, com os diferentes tipos de invejosos de plantão. Assim, trago a mensagem de outro pensador que se não dá uma solução definitiva à inveja, pelos menos aponta uma forma de manejar com ela em nosso proveito. A citação é do escritor italiano Giovanni Papini:

A melhor vingança contra aqueles que me pretendem rebaixar consiste em ensaiar um voo para um cume mais elevado. E talvez não subisse tanto sem o impulso de quem me queria por terra. O indivíduo verdadeiramente sagaz faz mais: serve-se da própria difamação para retocar melhor o seu retrato e suprimir as sombras que lhe afectam a luz. O invejoso torna-se, sem querer, o colaborador da sua perfeição (sic).

Portanto, tentemos fazer o que nos aconselha Papini. Tornemos os invejosos nossos colaboradores e façamos de suas críticas e injúrias um trampolim para conseguirmos atingir objetivos mais elevados. Porém, se mesmo assim esse pensamento final não trouxer a segurança necessária e não afastar o medo, não custa nada continuar usando o velho e sempre poderoso raminho de arruda atrás da orelha, pois, parafraseando os espanhóis, “Eu não creio em invejosos, mas que existem, existem”.

 

 

 

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::sobre o autor::

 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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