A
rua e o silêncio, no início de uma nova manhã, parecem
querer me dizer algo bem baixinho. Som de passarinhos,
passos apressados, pessoas que, como eu, iniciam mais um dia
da jornada de trabalho ou de estudos. De repente, paro e
decido sentar-me em um banco, destes que nos convidam para
observamos o mundo e os seus ecos.
Olho à minha volta e sinto uma calma inusitada,
ouço o barulho das folhas secas do outono, que se despedem
para receber mais um inverno. Fazem com que eu sorria e
lembre cenas adormecidas da infância, das vozes, que aqui já
não se encontram comigo. Devaneios, nostalgias, talvez...
Penso que são memórias guardadas em caixinhas, bem
recolhidas das nossas vidas, assim, meio como mágicas, por
vezes gritam para que as visitemos.
É justamente assim, olhando para esta praça, para
este banco, que me embriago com os barulhos de seu entorno,
enquanto o sol do outono, num quase inverno, belisca-me,
delicadamente, a face. Sorrio e decido, sim, ir ao encontro
de alguns momentos nostálgicos, de um tempo que ficou para
trás, lá, dentro da minha caixinha, entre fotografias, sons,
aromas, vozes, tantas coisas, que precisaria de mais tempo
para nominá-las. Saudades, sim, saudades dessa fase tão
linda e ingênua que foi minha infância.
Fecho meus olhos e deixo as lembranças chegarem
devagarzinho... Uma por uma... O doce som dos balanços da
pracinha de brinquedos, das gangorras, dos balanços, estes
são, sem dúvida, lugares perdidos e reencontrados no tempo,
onde descobri a arte de sonhar... Em boa parte das minhas
tardes, viajava para apreender o mundo em minhas retinas
imaginativas, querendo ser adulta no embalo de um balanço e
do barulho do vai e volta que dele ecoava.
A caixa de areia, onde construí castelos e mundos
distantes, fui visitá-la... E descobri, aos poucos, a arte
da imaginação, capaz de me levar para tão longe, que passei
a viver em dois lugares: o mundo real e o mundo fantástico e
mágico do imaginar de uma criança que deslizava nos
pensamentos e, por horas, escorregava em lugares lindos,
mágicos, ternos, com as cores que eu pintava... Muitas
vezes, repletos de multicoloridos, que somente eu percebia.
Abro meus olhos e, num tênue piscar, as lembranças
jorram como água da fonte. Os aromas, esses são lindos, sim,
são tão tocantes, que me sinto adentrando aos meus poucos
mais de sete anos. O cheiro do pão no forno... O cheiro da
cera, que, para mim, remontava a dia de festa, quando o
assoalho brilhava como espelho toda sexta-feira. A mesa
posta para o café das cinco, que alegria, quantas tardes
pintadas no quadro do tempo e aquareladas em minhas
memórias...
No fogão, a lenha queimava, espalhando um doce
cheiro que anunciava que era hora de nos reunirmos, de
sorrirmos, de aquietarmos... Que beleza foi minha infância!
Pular sapata, jogar cinco marias, subir em árvores, olhar as
estrelas e vê-las de todas as cores. Minha boneca feita de
pedaço de lenha era tão perfumada, seus olhos, dois botões
de rosa, sua roupa colorida, eu e ela éramos tão felizes.
Nossa, parece que preciso despertar e voltar ao
real, as lembranças me levam a lugares distantes e, sem
avisar, fazem-me sorrir, o que percebo mágico.
Que bom, penso eu, (e eu sei que não é assim),
quisera que todas as crianças tivessem os aromas e as cores
da minha infância, que me levaram por trilhos lindos, por
veredas sublimes e que me deram a presença de pais e irmãos
tão queridos. Vivi uma infância feliz. Brinquei como
criança, sorri junto a amigos... Também chorei a partida de
outros. Nesse embalo dos dias da minha infância, construí-me
serena.
Ë o que desejo para as crianças... Essas, que vejo diante
de mim e que me fazem retornar ao mundo do agora. São tão
pequenas e, na ronda de suas sobrevivências diárias,
aproximam-se de mim e me falam baixinho: tia tem alguma
coisinha para eu comer?! Ah, infância roubada, que triste
vê-la assim! Descobri que a minha ficou na memória, tão
mágica e bela. Quiçá, no futuro de meninos e de meninas,
possam viver o que vivi! Um viver sempre reascendido em uma
pequena menina que encontrava alegria a cada novo sol que
despertava.