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Há quem
impeça, em pleno século XXI, uma biblioteca em cada município alagoano?
O sertão alagoano, de onde eu venho, continua sedento por livros,
sedento também o litoral, aonde eu fui. Não se fala em cada bairro - o
que seria razoável -, fala-se em cada um dos municípios. Entregue as
chaves dessa casa do saber às mãos de um grêmio literário, de uma
agremiação estudantil, de um padre, de um grupo de teatro, um pastor,
uma boa alma. Estimular intelectuais alagoanos a manterem ininterruptos
contatos com essas sementes de livros (bibliotecas espalhadas em
Alagoas. Vamos desenterrar os talentos. Fazerem os líderes políticos e
religiosos acreditarem que o Paraíso é um lugar cheio de bibliotecas),
oxigenando-as com ilustres visitas de alagoanos dramaturgos, poetas,
contistas, ensaístas, roteiristas, cronistas, juristas, romancistas. E
Alagoas passe a ter a lembrança desses intelectuais que honrariam
quaisquer lugares do mundo; e que eles sejam modelos em lugar da
violência e do analfabetismo.
Uma biblioteca em cada município. Nas linhas do poeta de Palmares: "As
minhas Alagoas são outras". As minhas Alagoas também são outras. Os
escritores alagoanos são muitos, muitos intelectuais que honrariam
quaisquer lugares no mundo; esta luz continua embaixo da mesa. Tenho
insistido em minhas palestras, criação de escolas de escritores,
encontros, simpósios, festivais de poesia, concursos literários e
premiações para que esta luz seja levada para cima da mesa. A imagem de
Alagoas não pode continuar sendo as faces da violência (a tragédia) e do
analfabetismo (a comédia). Todos nós temos uma grande dívida com
Alagoas. Para solvê-las, muitas caixas de livros ainda terão que ir de
mãos em mãos. Uma academia de letras é uma instituição de grande
responsabilidade social; a imortalidade de seus acadêmicos não
representa um tácito contrato com Deus para imortalizar os intelectuais
em suas cadeiras perpétuas. O pai de Capitu, Machado, co-fundador da
primeira de nossas academias de letras, quis moralizar o escritor; as
academias de letras depois de Machado de Assis se justificam se
concorrer para moralizar a sociedade.
A imagem de Alagoas não pode continuar sendo as faces da violência (a
tragédia) e do analfabetismo (a comédia). O que atrai? Cabeças de
bandoleiros nas portas de igrejas em latas de querosene? O que atrai? A
vampirização dos noticiários? O que atrai? Ninguém em Alagoas publica
mais um livro? Ninguém mais estréia um filme, uma peça de teatro? O que
atrai? Ninguém mais inaugura uma exposição? O que atrai? Por que nunca
mais se festejou a construção de uma outra universidade federal? O que
atrai? Não se inaugura mais um museu? Aonde anda a multiplicação do
número de boas escolas públicas? Continuará utópica a democratização do
saber? A imagem de Alagoas não pode continuar sendo as velhas faces da
violência (a tragédia) e do analfabetismo (a comédia). Estamos no século
XXI. O século da erradicação da miséria humana. Os nômades no deserto
africano não acreditavam no fim da escravidão, mas a escravidão chegou
ao fim até mesmo àquelas caravanas de camelos e homens antigos que ainda
hoje caminham no Tenerê como fizeram seus antepassados há centenas de
anos.
O livro publicado em Recife, Maceió, Aracaju consegue atravessar a
ponte? Quem conhece quem, se atravessar à ponte? Não se sabe. O livro
publicado em Santana do Ipanema ou em Pão de Açúcar, dificilmente será
conhecido em Maceió. Se o livro nasce em Delmiro Gouveia ou em Feliz
Deserto, como consegue atravessar a ponte se continua "inédito"? Como
chegar o livro às mãos do povo sem bibliotecas? Quem conhece quem, se
atravessar à ponte? Não se sabe. Ao menos consegue atravessar a rua?
Não, ainda assim; o vizinho da frente desconhece a escritura do vizinho
de porta. E a literatura de quem escreve consegue atravessar a calçada?
Há quem não tenha certeza. Às vezes, a boca está cheia de um Ginsberg ou
de outros intelectuais estrangeiros, ídolos de pano que nunca ouviram
falar em Maceió ou em Santana do Ipanema, v.g., nem na Serra do Almeida,
ou da Maravilha e do Poço onde muito se falou na existência de um
cemitério de elefantes. Mas os adoradores de Caramuru salivam ao
pronunciar Shakespeare, pronunciar Joyce, pronunciar Kafka, pronunciar
Brecht, pronunciar Elliot, cumming, Rimbaud, Whitman; e dizem muitas
partes de seus livros numa decoreba típica de quem sofre do Complexo de
Caramuru. Eles elogiam Fausto, de Goethe, mas se enojam dos poetas de
cordel. Será que escritores de lá têm os nomes dos escritores de cá na
ponta da língua? Quantos, aqui mesmo, conhecem quantos dentro das
páginas de Alagoas? Alagoas estuda a Literatura Alagoana desde o ensino
fundamental ao universitário?
Quem imortaliza os acadêmicos de uma academia de letras? Seus livros
indo de mãos em mãos. O sertão alagoano continua sedento por livros,
sedento o litoral. Todas essas academias de letras têm o compromisso em
levar os livros de mãos em mãos. O que impede, em pleno século XXI, uma
biblioteca em cada município alagoano? Qual o lugar que não faria bom
proveito do legado de Graciliano Ramos? Quebrangulo. Qual o lugar que
não faria bom proveito do legado de Brenno Accioly? Santana do Ipanema.
Os exemplos se vão a progressões geométricas. Existem verbas municipais,
estaduais e federais para a criação de museus, escolas e afins;
investimentos da iniciativa privada existem. Mediante projeto, cada
município, com ou sem inesquecíveis intelectuais que honrariam quaisquer
lugares do mundo, vai sonhar; e, aos poucos, as duas faces (tragédia e
comédia) violência/analfabetismo não mais irão amedrontar as ruas de
Maceió. E cada município fará o seu caminho caminhando.
É correto afirmar que muitos livros são espécies de clarões para quem
ler ou escuta falar a respeito deles. Quem planta um livro, quem acende
esta luz, o primeiro a ser beneficiado é o agricultor, o primeiro a ser
iluminado é quem acende a luz. Algumas crianças descobrem a existência
dos livros em A Cachoeira de Paulo Afonso, outras em Grande Sertão:
Veredas, ou ainda em Vidas Secas, ou quem sabe em João Urso, ou em
Infância. Infância de cada um é cheia de surpresas e cabe, desde ontem,
fazer com que essas surpresas (habitantes das bibliotecas) sejam as
melhores possíveis.
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