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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 24 de agosto de 2009 22:20:22                                               

 
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CRôNICAS

A memória ressignifica a vida

Valfrido da Silva Nunes

publicado em 24/08/2009

17 de agosto de 2009.

 

O que é a vida? Fico a pensar que este é um conceito muito além da minha capacidade intelectual. Não sou filósofo, nem pretendo sê-lo. Isso me isenta de quaisquer deslizes. Não pense o leitor que encontrará aqui a resposta pronta, mas sim o germe da provocação, da inquietude, da reflexão de um “filosofar” ainda mesquinho. Por falar nisso, acho que a vida é indefinível, imensurável, indizível... Palavras seriam suficientes para elucidar conceito tão complexo? Arrisco-me a exteriorizar o que penso, pois se penso, logo existo!

Uma coisa é certa, indiscutível: não dá para pensar a vida sincronicamente apenas. A vida não é somente o agora, muito menos só o respirar, sentir o coração pulsar, comer, dormir, andar, transar... Não dá para pensar a vida como um objeto que se leva a um laboratório para ser analisado, minuciosamente examinado, dissecado, estudado, cientificamente verificado. Não, não dá. A vida é um prisma visto de vários ângulos, é um “objeto” caleidoscópico, é um contínuo que se (re)constrói a cada dia. E pensar essa construção, é pensar diacronicamente ou utopicamente? (Deixo para falar desta segunda concepção em outro momento). Prefiro acreditar que o motor da vida é a nossa memória, atrelada aos nossos sonhos, evidentemente!

Tenho a audácia de dizer que ser humano sem memória é uma folha seca levada pelo vento, um mármore frio, semelhante àquele em que se escrevem os epitáfios (tão belos e tão poéticos, às vezes, diga-se de passagem!). O que seríamos nós, se não nos lembrássemos dos bons momentos que vivemos? E também dos maus (por que não?), ao menos eles nos fortalecem, parecem anticorpos que nos deixam protegidos para não cairmos em uma segunda cilada!

Por falar nisso, quem não lembra da infância? Essa fase da vida que, acredito seja unanimidade, julgo ser a melhor: dormir sem se preocupar com o amanhã, não pensar em trabalho, não ter que fazer relatórios exaustivos para a academia, não se preocupar com o que vestir, o que comer, o que fazer para pagar os débitos, não ter que fazer concursos, que arcar com as consequências dos próprios atos....

Pois, recordo-me da minha infância, das tardes fagueiras, à sombra das mangueiras ouvindo o canto dos pássaros e o barulho do saguis nas moitas de aveloz; do esconde-esconde, dos banhos no Rio Paraíba (a popular Praíba), da pesca com os amigos; do corpo suado e ofegante por causa das correrias gratuitas sobre os paióis de casas de feijão em noites de lua cheia!

Ah, como era bom ouvir o canto estridente da cigarra grudada nos pés de castanhola; parece que ela cantava com a alma, em pleno mês de janeiro. O sol escaldante. A terra rachada de tão seca. Mas, era um som orquestrado, que ia se misturando aos poucos com o canto das outras cigarras. Fico a imaginá-las. Aqueles sons ecoam até hoje nos meus ouvidos como se eu estivesse em um grande teatro a ouvir as sinfonias de Beethoven ou uma ópera duplamente encenada em língua italiana!

Não quero esquecer ainda das noites de inverno. O vento soprava frio pelas brechas do telhado como um ser fantasmagórico! A chuva batia nas telhas de barro e a água escorria pelas goteiras. Cada pingo era um som doce, um acalento que tecia um concerto infinito, mexia com os nervos e fazia dormir mais rápido. Ao longe, bem ao longe, ouvia-se o coaxar dos sapos. Uma “conversa” confusa que só eles entendiam. Era um vlup...vlup...vlup... num diálogo infinito que mais parecia perguntas sem respostas. Outra hora, era um “meu pai foi à guerra”, “foi...foi...não foi”, como disse Manuel Bandeira em duras críticas aos parnasianos.

Estas e outras lembranças estão enraizadas na minha memória como o troco da palmeira, que por nada se abala; permanecem fixas, vivas como uma chama acesa. E a cada dia percebo como isso tem me feito existir num eterno devir. Parecem coisas banais, mas se revestem de uma significação ímpar. São o alicerce do ser que hoje sou.

Não consigo me desvincular desta ideia fixa (Machado de Assis não aconselha que se tenham ideias fixas. Brás Cubas que o diga!) e defendo que não há vida (no melhor sentido do termo) sem memória, sem história, sem passado. É grosseiro e terminantemente absurdo associar o passado à História como uma coisa morta, uma página virada, numa visão museológica. Os tolos não concordariam com isso que digo, talvez. Ao contrário, a memória e a história, e mais especificamente a história de cada um de nós, são as mais belas páginas da vida que a cada dia escrevemos um capítulo!

Chego a ter pensamentos macabros! E não me sai da memória aqueles que cavam as suas próprias covas, dando fim às suas próprias vidas. Perderam eles o sentido da vida, sincronicamente falando? Certamente. Deixaram de sonhar? Indubitavelmente. Conseguiram olhar para trás e perceberam que o sentido da vida não se faz somente no presente? Jamais. Logo, concluo que a nossa memória é fundamental para ressignificar a nossa existência e para nos mantermos vivos. Apesar do caráter efêmero de que a existência se reveste, não dá para ser somente carpe diem. É preciso mergulhar nos baús da memória, casá-la com as nossas utopias e cruzá-la com o presente. Quem sabe assim vivamos melhor e sejamos mais felizes...


 

 

 

 
  

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::sobre o autor::

Valfrido da Silva Nunes é natural de Bom Conselho – PE. Licenciado em Letras Português/Inglês pela Universidade de Pernambuco (2005). Tem pós-graduação lato sensu em Programação do Ensino da Língua Portuguesa (2008) por esta mesma instituição. Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira da rede estadual de ensino de Pernambuco; nas horas vagas, ousa escrever poesias e crônicas. Atualmente é aluno especial do Mestrado em Letras e Linguística da Universidade Federal de Alagoas.

E-mail: <fridoval@hotmail.com>


 

 

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