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17 de agosto de
2009.
O que é a vida? Fico a
pensar que este é um conceito muito além da minha capacidade
intelectual. Não sou filósofo, nem pretendo sê-lo. Isso me isenta de
quaisquer deslizes. Não pense o leitor que encontrará aqui a resposta
pronta, mas sim o germe da provocação, da inquietude, da reflexão de um
“filosofar” ainda mesquinho. Por falar nisso, acho que a vida é
indefinível, imensurável, indizível... Palavras seriam suficientes para
elucidar conceito tão complexo? Arrisco-me a exteriorizar o que penso,
pois se penso, logo existo!
Uma coisa é certa,
indiscutível: não dá para pensar a vida sincronicamente apenas. A vida
não é somente o agora, muito menos só o respirar, sentir o coração
pulsar, comer, dormir, andar, transar... Não dá para pensar a vida como
um objeto que se leva a um laboratório para ser analisado,
minuciosamente examinado, dissecado, estudado, cientificamente
verificado. Não, não dá. A vida é um prisma visto de vários ângulos, é
um “objeto” caleidoscópico, é um contínuo que se (re)constrói a cada
dia. E pensar essa construção, é pensar diacronicamente ou utopicamente?
(Deixo para falar desta segunda concepção em outro momento). Prefiro
acreditar que o motor da vida é a nossa memória, atrelada aos nossos
sonhos, evidentemente!
Tenho a audácia de
dizer que ser humano sem memória é uma folha seca levada pelo vento, um
mármore frio, semelhante àquele em que se escrevem os epitáfios (tão
belos e tão poéticos, às vezes, diga-se de passagem!). O que seríamos
nós, se não nos lembrássemos dos bons momentos que vivemos? E também dos
maus (por que não?), ao menos eles nos fortalecem, parecem anticorpos
que nos deixam protegidos para não cairmos em uma segunda cilada!
Por falar nisso, quem
não lembra da infância? Essa fase da vida que, acredito seja
unanimidade, julgo ser a melhor: dormir sem se preocupar com o amanhã,
não pensar em trabalho, não ter que fazer relatórios exaustivos para a
academia, não se preocupar com o que vestir, o que comer, o que fazer
para pagar os débitos, não ter que fazer concursos, que arcar com as
consequências dos próprios atos....
Pois, recordo-me da
minha infância, das tardes fagueiras, à sombra das mangueiras ouvindo o
canto dos pássaros e o barulho do saguis nas moitas de aveloz; do
esconde-esconde, dos banhos no Rio Paraíba (a popular Praíba), da pesca
com os amigos; do corpo suado e ofegante por causa das correrias
gratuitas sobre os paióis de casas de feijão em noites de lua cheia!
Ah, como era bom ouvir
o canto estridente da cigarra grudada nos pés de castanhola; parece que
ela cantava com a alma, em pleno mês de janeiro. O sol escaldante. A
terra rachada de tão seca. Mas, era um som orquestrado, que ia se
misturando aos poucos com o canto das outras cigarras. Fico a
imaginá-las. Aqueles sons ecoam até hoje nos meus ouvidos como se eu
estivesse em um grande teatro a ouvir as sinfonias de Beethoven ou uma
ópera duplamente encenada em língua italiana!
Não quero esquecer
ainda das noites de inverno. O vento soprava frio pelas brechas do
telhado como um ser fantasmagórico! A chuva batia nas telhas de barro e
a água escorria pelas goteiras. Cada pingo era um som doce, um acalento
que tecia um concerto infinito, mexia com os nervos e fazia dormir mais
rápido. Ao longe, bem ao longe, ouvia-se o coaxar dos sapos. Uma
“conversa” confusa que só eles entendiam. Era um vlup...vlup...vlup...
num diálogo infinito que mais parecia perguntas sem respostas. Outra
hora, era um “meu pai foi à guerra”, “foi...foi...não foi”, como disse
Manuel Bandeira em duras críticas aos parnasianos.
Estas e outras
lembranças estão enraizadas na minha memória como o troco da palmeira,
que por nada se abala; permanecem fixas, vivas como uma chama acesa. E a
cada dia percebo como isso tem me feito existir num eterno devir.
Parecem coisas banais, mas se revestem de uma significação ímpar. São o
alicerce do ser que hoje sou.
Não consigo me
desvincular desta ideia fixa (Machado de Assis não aconselha que se
tenham ideias fixas. Brás Cubas que o diga!) e defendo que não há vida
(no melhor sentido do termo) sem memória, sem história, sem passado. É
grosseiro e terminantemente absurdo associar o passado à História como
uma coisa morta, uma página virada, numa visão museológica. Os tolos não
concordariam com isso que digo, talvez. Ao contrário, a memória e a
história, e mais especificamente a história de cada um de nós, são as
mais belas páginas da vida que a cada dia escrevemos um capítulo!
Chego a ter
pensamentos macabros! E não me sai da memória aqueles que cavam as suas
próprias covas, dando fim às suas próprias vidas. Perderam eles o
sentido da vida, sincronicamente falando? Certamente. Deixaram de
sonhar? Indubitavelmente. Conseguiram olhar para trás e perceberam que o
sentido da vida não se faz somente no presente? Jamais. Logo, concluo
que a nossa memória é fundamental para ressignificar a nossa existência
e para nos mantermos vivos. Apesar do caráter efêmero de que a
existência se reveste, não dá para ser somente carpe diem. É
preciso mergulhar nos baús da memória, casá-la com as nossas utopias e
cruzá-la com o presente. Quem sabe assim vivamos melhor e sejamos mais
felizes...
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