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A amizade é um meio de nos isolarmos da
humanidade cultivando algumas pessoas.
Carlos Drummond de Andrade
O conceito de amizade sempre me pareceu
claro e pouco sujeito a controvérsias. Assim pensava até o dia que tive
de explicar ao meu filho de 17 anos o seu significado.
Tudo começou com uma proposta de redação
dada por seu professor de Língua Portuguesa. O objetivo era escrever
sobre o sentido da amizade nesses tempos de acesso liberado a diferentes
meios de comunicação. Para facilitar a escrita – e também servir de
inspiração –, foram oferecidos trechos de músicas, citações de filósofos
e poemas.
Qual não foi a minha surpresa quando meu
filho adolescente pediu – ou melhor, implorou – ajuda na tarefa, pois
não tinha a mínima ideia de como começar. Deixando claro que a redação
deveria ser escrita por ele – e somente por ele –, propus que, antes de
escrever, nós dois apenas conversássemos sobre o assunto. Assim, o
primeiro passo foi questioná-lo sobre o que ele entendia por amizade.
Nova surpresa. Sua resposta foi um curto e objetivo “não sei”.
“Como, não sabe?!”, perguntei. “Você não
tem amigos? Você não é amigo? Então, o que isso representa na sua
vida?”, voltei a perguntar. O silêncio foi a sua resposta. A expressão
em seu rosto também não deixava dúvidas: ele, realmente, não sabia do
que eu estava falando.
Estranho. Meu filho, assim como quase a
totalidade dos adolescentes do planeta, conhece e utiliza (muito!) as
diferentes ferramentas de comunicação da internet: orkut,
MSN, e-mail, facebook, twitter, entre outros. Esses
são locais onde sabidamente (assim pensava eu!) relações de amizade são
construídas. No entanto, tinha diante de mim um adolescente típico que
não sabia verbalizar os significados desses relacionamentos em sua vida.
Respirando fundo, fiz o que se espera de
uma boa mãe: procurei ajudá-lo. Primeiro expus, de forma clara e
didática, o significado da amizade para mim. Não tive vergonha de usar
termos batidos como companheirismo, respeito e empatia. Expliquei que os
amigos são todas aquelas pessoas que, nos momentos de necessidade, ficam
do nosso lado, ouvindo nossas lamentações e nos apoiando
incondicionalmente. Esclareci também que os verdadeiros amigos não têm
medo de nos dizer a verdade e, mesmo conhecendo nossos defeitos e
fragilidades, continuam do nosso lado. Disse ainda que a estrofe da
canção de Milton Nascimento – Amigo é coisa para
se guardar no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância
digam “não”–, fora uma maneira encontrada
pelo artista para homenagear aqueles que, de alguma forma, em algum
momento de sua vida, haviam feito a diferença.
Meu filho ouviu todos
os meus argumentos e explicações em silêncio. Quando terminei, quis
saber não só o que ele achava, mas se ele agora tinha entendido o
significado da amizade. Sua resposta, novamente, não se fez esperar:
“Mãe, não tenho nada sequer parecido com isso e acho que ninguém que eu
conheço tem”. “Como é possível?!”, perguntei assustada.
Segundo ele, hoje o
significado da amizade é bem diferente. As redes de relacionamento da
internet não são utilizadas para encontrar ou fazer amigos. Elas, na
verdade, servem, na sua maioria, para permitir que as pessoas apenas
sejam vistas. As relações são frágeis e, consequentemente, efêmeras,
baseadas em interesses superficiais e, portanto, ao sabor da moda
vigente no momento. Quem era louco ou corajoso o suficiente para fazer
alguma confidência ou buscar algum tipo de apoio nesses grupos estava
correndo o risco de se expor ao ridículo.
Confesso: fiquei muito
triste. Não é fácil ouvir o filho de 17 anos dizer que a amizade, como
eu a compreendo, está difícil, quase impossível, de encontrar. “E você
como lida com isso?”, quis saber. “Mãe, não esquenta, esse é o meu mundo
e para mim isso é normal”, foi a sua resposta.
Dessa vez quem ficou em
silêncio fui eu. De que adiantava insistir no assunto se, segundo ele,
nossos mundos eram tão diferentes? Como mãe, me cabe apenas apoiar e
ajudar, rezando para que nesse novo mundo, construído por essa nova
geração, ainda possa existir espaço para a amizade, mesmo que o seu
significado seja tão diferente do meu.
E a redação foi feita?
Sim. Depois de quase quatro horas de discussão (Juro! Foram mesmo quase
quatro horas!) eu, finalmente, o aconselhei a escrever sobre o que ele
havia me contado. Afinal, assim como a vida (e as amizades), o texto era
dele, não meu. |