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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 02 de dezembro de 2011 21:06:43                                               
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CRôNICAS

Não adianta chorar

Margarete Hülsendeger

publicado em 01/12/2011

Chorar é lindo, pois cada lágrima na face são palavras ditas de um sentimento calado.

Mario Quintana

Sim, somos choronas! É fato. As mulheres choram mais, se emocionam mais, enfim se deixam levar pelos sentimentos com mais facilidade que os homens. A questão é: isso ajuda? Essas explosões emocionais trazem algum tipo de alívio? Segundo pesquisa conduzida com mulheres holandesas e publicada no periódico americano Journal of Research in Personality, a resposta é não.

O estudo foi realizado durante três meses com 97 mulheres entre 18 e 48 anos e o número de episódios de choro registrado durante esse período foi de 1004. Em 61% dos casos as mulheres não notaram nenhuma diferença no seu humor e, em 9%, houve registros de depressão. Para o professor Jonathan Rottenberg, principal autor da pesquisa, o ato de chorar não é tão benéfico como se pensava e se em alguns momentos ajuda é porque mobiliza as pessoas e chama a atenção para problemas importantes.

Apesar de a afirmativa ser um tanto quanto contundente, a notícia do jornal esclarece que o estudo ainda não encontrou evidências sólidas de que chorar não traga benefícios psicológicos. E justamente porque os resultados não são conclusivos é que eles nos permitem refletir, trazendo para o debate novos elementos que possam, quem sabe, contradizer essas informações.

O choro normal, não o que resulta de algum problema psicológico mais sério, é uma espécie de válvula de segurança, muito semelhante àquelas que existem nas panelas de pressão. O objetivo é permitir que o estresse acumulado (assim como o vapor dentro da panela) “escape”, dando oportunidade à mulher de colocar para fora toda a angústia e nervosismo que, por força das circunstâncias, ela acabou represando. Diante de uma crise que pode ser disparada por conflitos, perdas e até mesmo a compaixão pelo sofrimento alheio, a mulher não se reprime, permitindo que as suas emoções extravasem, sem sentir com isso muita vergonha ou constrangimento.

Para os homens é difícil compreender esse tipo de mecanismo. Afinal, nossos avôs já afirmavam que homem que é homem não chora. Esse comportamento tão diferente nada mais é do que o resultado de séculos e séculos de “treinamento” com o objetivo de cercear quaisquer sentimentos ou emoções que possam demonstrar algum tipo de fraqueza. O preconceito é tão forte que basta um homem exibir alguma emoção para ser apontado na rua como uma espécie nova a ser ignorada e até mesmo desprezada.

A mulher, graças a Deus, não sofre esse tipo de pressão social. Ao contrário. Espera-se que a mulher chore. Por essa razão, fica difícil acreditar nos resultados dessa pesquisa americana. Quem já passou por uma explosão emocional com direito a muitas lágrimas derramadas sabe o quanto esse processo pode ser purificador, sendo a causa, muitas vezes, da redução de ansiedades e angústias. No entanto, não me entendam mal, não estou aqui defendendo o choro compulsivo, doentio ou o drama pelo drama. Estou apenas dizendo que chorar, na medida certa, pode trazer um alívio tremendo para o espírito.

O estranho é que mais adiante a mesma matéria do jornal informa que foi observado que quem chora por mais tempo tende a se sentir melhor depois da crise. Assim, fica a dúvida: se o choro não traz alívio, porque a pessoa, ao chorar muito – o quanto é esse muito não ficou claro –, se sentirá melhor? Essas são aquelas contradições que só pesquisas que desejam estudar as emoções são capazes de trazer. Os sentimentos – felizmente – não têm a mesma natureza da matemática, onde dois mais dois são quatro. Na verdade, quando se trata de emoções os resultados podem ser completamente imprevisíveis.

Renato Russo em um de seus versos dizia: “Nunca chore diante das pessoas que não entendem o significado de suas lágrimas porque amar é uma arte, mas nem todo mundo é artista". Portanto, independentemente de pesquisas, as mulheres continuarão chorando e os homens seguirão sem entender esse mecanismo de liberação tão próprio do gênero feminino. Quem sabe, quando eles perceberem que chorar nada tem de vergonhoso, possam compreender o quanto de alívio lágrimas bem derramadas podem proporcionar. Até lá eles permanecerão sendo apenas espectadores de uma cena que talvez apenas os poetas sejam capazes de interpretar.

 

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 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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