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Chorar é lindo, pois cada lágrima na face são palavras ditas de um
sentimento calado.
Mario Quintana
Sim, somos choronas! É fato. As mulheres choram mais,
se emocionam mais, enfim se deixam levar pelos sentimentos com mais
facilidade que os homens. A questão é: isso ajuda? Essas explosões
emocionais trazem algum tipo de alívio? Segundo pesquisa conduzida com
mulheres holandesas e publicada no periódico americano Journal of
Research in Personality, a resposta é
não.
O
estudo foi realizado durante três meses com 97 mulheres entre 18 e 48
anos e o número de episódios de choro registrado durante esse período
foi de 1004. Em 61% dos casos as mulheres não notaram nenhuma diferença
no seu humor e, em 9%, houve registros de depressão. Para o professor
Jonathan Rottenberg, principal autor da pesquisa, o ato de chorar não é
tão benéfico como se pensava e se em alguns momentos ajuda é porque
mobiliza as pessoas e chama a atenção para problemas importantes.
Apesar de a afirmativa ser um tanto quanto contundente, a notícia do
jornal esclarece que o estudo ainda não encontrou evidências sólidas de
que chorar não traga benefícios psicológicos. E justamente porque os
resultados não são conclusivos é que eles nos permitem refletir,
trazendo para o debate novos elementos que possam, quem sabe,
contradizer essas informações.
O
choro normal, não o que resulta de algum problema psicológico mais
sério, é uma espécie de válvula de segurança, muito semelhante àquelas
que existem nas panelas de pressão. O objetivo é permitir que o estresse
acumulado (assim como o vapor dentro da panela) “escape”, dando
oportunidade à mulher de colocar para fora toda a angústia e nervosismo
que, por força das circunstâncias, ela acabou represando. Diante de uma
crise que pode ser disparada por conflitos, perdas e até mesmo a
compaixão pelo sofrimento alheio, a mulher não se reprime, permitindo
que as suas emoções extravasem, sem sentir com isso muita vergonha ou
constrangimento.
Para os homens é difícil compreender esse tipo de mecanismo. Afinal,
nossos avôs já afirmavam que homem que é homem não chora. Esse
comportamento tão diferente nada mais é do que o resultado de séculos e
séculos de “treinamento” com o objetivo de cercear quaisquer sentimentos
ou emoções que possam demonstrar algum tipo de fraqueza. O preconceito é
tão forte que basta um homem exibir alguma emoção para ser apontado na
rua como uma espécie nova a ser ignorada e até mesmo desprezada.
A
mulher, graças a Deus, não sofre esse tipo de pressão social. Ao
contrário. Espera-se que a mulher chore. Por essa razão, fica difícil
acreditar nos resultados dessa pesquisa americana. Quem já passou por
uma explosão emocional com direito a muitas lágrimas derramadas sabe o
quanto esse processo pode ser purificador, sendo a causa, muitas vezes,
da redução de ansiedades e angústias. No entanto, não me entendam mal,
não estou aqui defendendo o choro compulsivo, doentio ou o drama pelo
drama. Estou apenas dizendo que chorar, na medida certa, pode trazer um
alívio tremendo para o espírito.
O
estranho é que mais adiante a mesma matéria do jornal informa que foi
observado que quem chora por mais tempo tende a se sentir melhor depois
da crise. Assim, fica a dúvida: se o choro não traz alívio, porque a
pessoa, ao chorar muito – o quanto é esse muito não ficou claro –, se
sentirá melhor? Essas são aquelas contradições que só pesquisas que
desejam estudar as emoções são capazes de trazer. Os sentimentos –
felizmente – não têm a mesma natureza da matemática, onde dois mais dois
são quatro. Na verdade, quando se trata de emoções os resultados podem
ser completamente imprevisíveis.
Renato Russo em um de
seus versos dizia: “Nunca chore diante das pessoas que não entendem o
significado de suas lágrimas porque amar é uma arte, mas nem todo mundo
é artista". Portanto, independentemente de pesquisas, as mulheres
continuarão chorando e os homens seguirão sem entender esse mecanismo de
liberação tão próprio do gênero feminino. Quem sabe, quando eles
perceberem que chorar nada tem de vergonhoso, possam compreender o
quanto de alívio lágrimas bem derramadas podem proporcionar. Até lá eles
permanecerão sendo apenas espectadores de uma cena que talvez apenas os
poetas sejam capazes de interpretar.
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