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Margarete
Hülsendeger
Se tens um coração
de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de
carne, e sangra todo dia.
José
Saramago
Quem acha que sofrer por ter perdido um amor é coisa dos românticos do
século XIX está muito enganado. Uma pesquisa americana revelou que o fim
de um romance ou a morte de alguém que amamos pode desencadear os
sintomas de um ataque cardíaco. Esse estudo também indicou que as
mulheres são as mais afetadas por esse tipo de trauma, em média nove
vezes mais que os homens.
Os pesquisadores não sabem explicar por que o organismo feminino é mais
vulnerável. Especula-se, no entanto, que pode ser algo relacionado com
os hormônios do sexo. De qualquer maneira, mesmo que o número de casos
fatais não seja grande – apenas 1% –, essa nova doença está intrigando
muitos médicos, em especial, os cardiologistas.
Lendo sobre mais essa pesquisa, lembrei-me de Vinícius de Morais quando
dizia que nada melhor para a saúde do que um amor correspondido. Parece
que os poetas têm acesso a informações privilegiadas que nós, pobres
mortais, sequer suspeitamos. E se também lembrarmos que o coração era
considerado, por muitas culturas antigas, como a sede da alma, não nos
espantaríamos tanto quando ficamos sabendo que perder um amor pode
provocar um infarto.
Do mesmo modo, não deveria nos surpreender a notícia de que são as
mulheres as mais afetadas por essa nova enfermidade. Sabe-se que o
organismo feminino é um refém das mudanças hormonais, causas primeiras
das variações de humor que atingem a mulher ao entrar na puberdade.
Assim, algumas teorias indicam que seria a liberação de hormônios –
adrenalina e nor-adrenalina – a origem das
modificações no ritmo dos batimentos cardíacos. E
tudo isso, segundo os pesquisadores, teria
como gatilho o estresse gerado pela perda da pessoa amada.
No entanto, apesar de as mulheres serem as mais atingidas por esse tipo
de síndrome, outro estudo, dessa vez dos ingleses, constatou que os
homens também têm as suas vulnerabilidades. Segundo essa pesquisa, a
morte da esposa aumenta em seis vezes o risco de morte do viúvo,
enquanto as chances de uma viúva morrer apenas dobram. Isso nos leva a
pensar que os homens, mesmo não tendo tantos problemas com os seus
hormônios, tornam-se igualmente frágeis e propensos a doenças quando
perdem a sua companheira.
É possível perceber que fica cada vez mais difícil descartar a
influência das emoções na saúde de homens e mulheres. Hoje a máxima
latina
Mens sana in corpore sano
("Uma mente sã num corpo são") está sendo levada mais a sério, deixando
de ser algo restrito a conversas de gurus da Nova Era. Atualmente, a
medicina tradicional já entende e aceita a importância de saber lidar
com as emoções de maneira saudável, sem menosprezá-las e muito menos
ignorá-las. E a perda por rompimento ou luto é, com certeza, um abalo
emocional poderoso que se não é bem administrado pode gerar problemas
muitas vezes fatais.
De qualquer maneira, parece claro que um coração partido não é mais um
tema exclusivo dos poetas. Amar e depois perder esse amor transformou-se
também numa questão médica. Junto com os exercícios e o controle do
colesterol teremos que dar mais atenção aos sentimentos, exercitando-os
do mesmo modo que exercitamos o corpo. É claro que isso não vai nos
tornar completamente imunes às desilusões amorosas ou à perda de alguém
que amamos. Afinal, o amor é um daqueles sentimentos difíceis de
controlar e até mesmo de compreender. Contudo, fugir dele por medo de
perdê-lo também não é a solução. Na verdade, acredito, assim como os
poetas, que a resposta para a maioria dos nossos problemas está em amar
muito mais do que nos permitimos. E fazendo minhas as palavras de Freud,
concluo dizendo que, “Em
última análise, precisamos amar para não adoecer”.
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