|
Essa lembrança... mas de onde? De quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa, mas de alguém que, pensando em
nós, só possa mandar um eco do seu pensamento nessa mensagem pelos céus
perdida...
Mário Quintana
A mente muitas vezes nos aplica peças
difíceis de entender. Com relativa frequência nos deixamos levar por
pensamentos aparentemente sem sentido. Outro dia, me peguei pensando em
um filme que, há alguns anos, se tornou conhecido no mundo inteiro. O
interesse despertado por ele, no entanto, não foi devido a alguma
indicação ao Oscar ou mesmo por que entre seus atores havia pessoas
muito famosas. Não. Na verdade, ele se tornou conhecido pelo assunto
abordado: a Física Quântica. Estou me referindo, é claro, ao filme
intitulado “What the bleep do we know?”, em português, “Quem Somos
Nós?”.
Sei que estou meio atrasada – afinal, ele
foi lançado em 2004, já gerando inclusive uma continuação –, mas meu
interesse não é discutir sobre o filme em si, em minha opinião, já
bastante debatido. Desejo, na verdade, analisar apenas uma das suas
cenas.
Nela, a personagem principal, chamada
Amanda (interpretada pela atriz americana Marlee Matlin), encontra-se na
entrada de um cinema. Nesse instante, ocorre uma espécie de
desdobramento com várias “Amandas” surgindo aparentemente do nada. O
objetivo da cena é representar os diferentes caminhos que a Amanda
original pode vir a percorrer em sua vida. As consequências que
resultarão de qualquer uma dessas escolhas são uma das várias questões
levantadas pelo filme.
A cena torna-se interessante porque
transmite a ideia de todas essas possibilidades estarem coexistindo no
mesmo espaço e tempo. É deixado, no entanto, para a personagem a decisão
de resolver por qual caminho seguir. E quando finalmente essa decisão
ocorre, apenas uma Amanda permanece, com todas as outras desaparecendo
como se jamais tivessem existido.
É, sem dúvida nenhuma, uma imagem
intrigante. Contudo, para mim, ela se tornou especial porque me permitiu
refletir sobre a estranheza que a passagem do tempo pode muitas vezes
nos causar. E aqui não estou falando da velhice versus juventude
ou da questão da mortalidade. Estou me referindo ao passado propriamente
dito. Como ele pode nos atingir. Como cada um de nós o vê e o
interpreta. Enfim, quem fomos nós no dia de ontem em comparação ao que
somos no dia de hoje.
É claro que há pessoas que não veem nenhum
sentido nesse tipo de pensamento. Para elas, o passado tornou-as apenas
mais experientes, com rugas no rosto e dores nas juntas. Elas não se
sentem realmente diferentes; só um pouco modificadas.
Entretanto, há aquelas que têm
dificuldades em se reconhecer quando resolvem olhar para trás.
Consideram-se pessoas diferentes a cada etapa de suas vidas, como se
cada momento tivesse sido vivido por alguém distinto daquele que é hoje.
Exatamente como na cena do filme. Cada desdobramento, cada
possibilidade, é uma pessoa diferente na linha do tempo. E aqui, quem
sabe, a ideia mais adequada nem fosse de uma única linha, mas várias,
infinitas linhas se entrecruzando de forma aparentemente desordenada e
sem sentido, semelhante a uma teia.
Essa falta de identificação que muitos
dizem sentir talvez seja o resultado do não entendimento pleno de todas
as experiências vividas. Ou, quem sabe, uma maneira de se proteger
contra situações de um passado obscuro e complicado. Estranho? Pode ser.
No entanto, é sempre bom lembrar que na vida nem tudo é simples ou fácil
de se entender ou explicar. Daí a razão da cena do filme ter me causado
tanta impressão. Ver aquelas várias “Amandas” tendo de escolher entre as
diversas possibilidades de vida, fez-me lembrar dos vários “eus” que, em
algum momento no tempo e no espaço, já existiram e hoje estão
praticamente esquecidos.
Para concluir, preciso dizer que a cena,
assim como todo o filme, tenta transmitir uma série de mensagens
sujeitas às mais variadas interpretações. É possível, por exemplo,
imaginar que as várias “Amandas”, na verdade, não desapareceram, após a
decisão ter sido tomada, mas se incorporaram a “verdadeira” Amanda.
Exatamente como ocorre com muitas das experiências do nosso passado. Por
essa razão, ele não deve ser ignorado. Ao contrário. É preciso
entendê-lo e aceitá-lo. Afinal, para termos alguma chance de responder a
pergunta “Quem somos nós?” temos de nos sentir inteiros, sem medo de
encarar o passado, o presente ou o futuro. |