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Na FLIP (Festa Literária Internacional de
Paraty) de 2009, Chico Buarque fez a seguinte declaração: “Bom mesmo é
ler. Escrever é uma chatice”. Lendo essa frase, assim de supetão, é
impossível não se levar um susto. Afinal, seu autor é Chico Buarque de
Holanda, compositor, dramaturgo e escritor de sucesso.
No entanto, como em todas as declarações
de famosos, é preciso entender em que contexto elas foram feitas e,
principalmente, qual foi a intenção do seu autor. Eu, por exemplo, tenho
certeza que o objetivo de Chico Buarque não foi desmerecer o trabalho do
escritor. Muito pelo contrário. Na minha opinião, Chico só tentou
retirar um pouco do glamour – totalmente fantasioso – que existe sobre
essa atividade.
Muitos escritores já afirmaram que
escrever, na maior parte das vezes, é 90% de suor e apenas 10% de
inspiração. Qualquer coisa diferente disso seria, segundo eles, pura
ilusão. Assim, quando o autor de “Leite Derramado” adjetiva dois
processos diferentes, como ler e escrever, ele está, na verdade,
procurando explicar como eles ocorrem, sem, é claro, diminuir ou
engrandecer qualquer um deles. Afinal, apesar de serem diferentes, eles
podem muito bem ser considerados complementares.
Ler poderia ser comparado à satisfação de
se degustar um bom vinho. Quando temos esta chance, já estamos recebendo
um produto acabado, cabendo-nos apenas o prazer de saboreá-lo. Nenhum
esforço maior nos será exigido, além de sentir o seu aroma e desfrutar
do seu sabor. Portanto, é difícil não concordar com Chico Buarque quando
ele diz: “Bom mesmo é ler”.
Escrever, por outro lado, é algo
totalmente diferente: seria como produzir esse mesmo bom vinho. É
preciso acompanhar de perto todo o processo; desde o plantio das mudas
até o seu envelhecimento. Procedimento que pode durar vários anos até
que o vinho esteja pronto para ser saboreado. É, portanto, um trabalho
longo e extremamente complexo, não podendo, inclusive, se excluir a
possibilidade de tudo acabar virando vinagre.
Do mesmo modo, quem escreve também está
envolvido com o processo do início ao fim. O escritor, assim como o
vinicultor, também corre riscos. Se seu texto não tiver um mínimo de
qualidade caberá ao leitor dar por encerrada a sua trajetória. O vinho
pode virar vinagre e o livro pode ser simplesmente esquecido no fundo de
uma prateleira.
Enfim, ler, realmente, é muito bom. Mas,
escrever também pode se converter em um vício difícil de abandonar. É
como diz Clarice Lispector: “Enquanto eu tiver perguntas e não houver
respostas... continuarei a escrever”. E é de pergunta em pergunta que o
escritor se arrisca. Portanto, compreendo perfeitamente bem as palavras
de Chico. Se levarmos em conta todos os riscos, mais o trabalho que o
exercício de escrever exige, fica difícil não chegar a mesma conclusão:
“Escrever é uma chatice”. Entretanto – graças a Deus por existirem “entretantos”!
– a possibilidade de se colocar no papel ideias e mundos absolutamente
originais supera qualquer risco ou chatice que esse trabalho possa ter.
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