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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 05 de novembro de 2011 18:52:33                                               
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CRôNICAS

"Fomo"

Margarete Hülsendeger

publicado em 05/11/2011

 

Qualquer que seja a aparência da novidade, eu não mudo facilmente, com medo de perder com a troca.

Montaigne

 

Ao contrário do que possa se imaginar, “fomo” não é a conjugação incorreta do verbo ir. Na verdade, trata-se de uma sigla – fear of missing out – que em português significa medo de estar perdendo algo. A pergunta óbvia é: perdendo o quê? Segundo os americanos, responsáveis por mais esse verbete, o seu significado está associado ao medo de não estar presente em algum evento dito e compartilhado como "o mais legal" ou "o mais importante".

Para psicólogos e especialistas esse é mais um sintoma de uma sociedade refém de mudanças aceleradas – tanto em valores como em comportamentos – que tornam as pessoas dependentes de atividades sociais de todos os tipos e durante todo o tempo. A interferência de diferentes meios de comunicação – facebook, MSN, Orkut – nas escolhas diárias de milhões de homens e mulheres tem sido apontada como causa do surgimento de angústias e ansiedades, pois todos querem estar em vários lugares ao mesmo tempo. São festas, baladas, shows que não podem ser perdidos sob risco da pessoa se sentir excluída ou desprestigiada.

Enfim, é mais uma síndrome afetando pessoas de todas as idades e, portanto, mais uma fonte de estresse para aqueles que não conseguem se conter quando o assunto são as redes sociais. O interessante é que essa “doença” não afeta apenas os adolescentes – os maiores usuários dessas novas tecnologias. Segundo dados levantados pela empresa de publicidade e marketing JWT, divulgados em maio passado, existe um número crescente de adultos sofrendo de “fomo”. Esses adultos, geralmente, têm um perfil altamente competitivo e ambicioso e costumam ocupar cargos de grande visibilidade nas empresas em que trabalham. No afã de se mostrarem competentes e produtivos insistem em participar de todas as atividades que, segundo eles, são necessárias para manter os seus empregos.

Ao ler sobre o “fomo” me sinto obrigada a concordar com as palavras de nossos avôs quando, nostalgicamente, afirmavam que no seu tempo tudo era mais simples, menos problemático e, consequentemente, menos estressante. Parece que quanto mais facilidades nos são oferecidas maiores se tornam as nossas preocupações e angústias. Quando as comunicações eram feitas por meio de cartas as pessoas se sujeitavam não só a perder um tempo em escrevê-las, mas também a aguardar pelas respostas que poderiam demorar meses para serem recebidas.

Agora tudo deve ser resolvido de forma praticamente instantânea. Ninguém quer esperar, ninguém quer ficar para trás. Tudo, de uma hora para outra, assumiu uma dimensão que vai além do sensato ou do racional. Estamos constantemente recebendo convites para os mais variados eventos, a maioria deles sem a menor importância ou significado. No entanto, o não ir ou o ser obrigado a escolher, torna algo que poderia ser extremamente prazeroso em um sofrimento sem sentido. O medo de “perder algo” tem virado, segundo os especialistas, uma verdadeira compulsão, como se ao escolher entre a festa A e B estivéssemos decidindo o nosso destino.

De qualquer maneira, o que está acontecendo em nossa sociedade, já ocorreu em outros tempos e de outras maneiras. A troca do cavalo pelo automóvel e mais tarde o surgimento do avião também exigiu que as pessoas se adaptassem a esses novos ritmos e velocidades. O advento da internet e de seus diferentes recursos nada mais é que uma nova transformação pela qual a humanidade está sendo obrigada a passar. E tudo o que é novo, em geral, resulta em algum tipo de estresse e ansiedade.

A questão, portanto, é tentarmos, na medida do possível, administrar essas novas demandas, não permitindo que elas nos controlem e ditem em demasia o nosso comportamento. É preciso saber encontrar caminhos que não nos tornem reféns de mecanismos que estão aí para facilitar as nossas vidas. É preciso impedir que eles nos escravizem. A escolha de uma festa deve ser pautada sempre pelo nível de prazer e relaxamento que ela poderá nos proporcionar. Ir apenas para nos mostrarmos presentes ou porque temos medo de perder “algo legal” é o caminho mais curto para a frustração e o arrependimento.

 

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 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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