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“Será que faço? Ou
será que não faço? E se eles não gostarem? E se não conseguir agradar? E
se não sou a pessoa certa?”.
Quantas perguntas.
Quantas dúvidas. Essa é a vida daquele que se poderia chamar de inseguro
crônico. O sentimento de inadequação, de estar em dívida, é tão grande
que cada passo dado vem repleto de incertezas e questionamentos sobre a
sua capacidade de ser e de fazer. Esse tipo de inseguro, ao olhar-se no
espelho, raramente consegue realizar uma avaliação pessoal minimamente
satisfatória.
É claro que, a
insegurança assim descrita pode até ser considerada um tanto quanto
patológica. Afinal, viver sentindo-se inadequado não é vida, é sofrer.
No entanto, todos nós, em menor ou maior grau, já nos sentimos dessa
maneira. O problema é quando isso se torna regra, e não exceção, em
nossas vidas.
Outro dia, estava em
uma reunião e pude presenciar algumas reações bem interessantes. Sabe
aquelas reuniões de avaliação, tipo “vamos ver como estão as relações
interpessoais da nossa equipe?”. Era uma dessas. Havia um pequeno grupo
reunido e a proposta era que cada um pudesse identificar, verbalizando
para o grupo, as suas qualidades e defeitos. Nesse encontro em
particular, eu era apenas uma espectadora. Assim, não participando
diretamente do trabalho, pude observar, com relativa tranqüilidade, os
diferentes níveis de insegurança apresentados por cada um dos
participantes. Foi uma experiência não só interessante, mas também,
instrutiva.
Um dos participantes
(o primeiro a falar) foi sincero em dizer que seus defeitos eram poucos
(quem sabe, falta de modéstia?). Ele considerava suas qualidades e
potencialidades tão numerosas que facilmente superavam quaisquer
deficiências que pudessem existir em sua personalidade. Bravo! A pessoa
em questão foi praticamente aplaudida de pé. Muito provavelmente, baixa
auto-estima é um conceito que inexiste em seu vocabulário. Tanta
segurança reunida em um único indivíduo é de fazer inveja a qualquer um!
De qualquer maneira,
ao ouvir esse primeiro depoimento não pude deixar de pensar na minha
própria lista de defeitos e qualidades. Constatei, por exemplo, que as
duas colunas competem entre si em pé de igualdade. Um equilíbrio
relativamente satisfatório entre o que considero bom e mau em minha
personalidade. O mesmo sentimento fui capaz de perceber na maioria dos
integrantes do grupo.
No entanto, alguns
reconheceram que em alguns momentos de suas vidas o sentimento de
insegurança torna-se mais forte, o que pode transformar, nessas horas, a
lista dos possíveis defeitos mais extensa e significativa. Segundo eles,
esses momentos geralmente estão associados a períodos de dificuldades ou
exigências pessoais, nos quais a auto-estima de cada um é testada ao
extremo. São aqueles dias em que tudo parece conspirar contra nós. Nesse
caso, para eles, o “sentir-se por baixo” chega até ser normal. O “pulo
do gato”, entretanto, para a maioria dessas pessoas, foi sempre o de
tentar sair dessas situações o mais rápido possível, pensando nas coisas
boas que já realizaram e nos sucessos que alcançaram. Quando percebiam e
se convenciam dessas conquistas, a velha e incomoda insegurança tendia a
diminuir até atingir um nível considerado por todos “normal e
tolerável”.
Contudo, antes da
reunião encerrar ainda restava um último componente do grupo para se
manifestar. Até aquele instante ele havia permanecido em silêncio. Ele
foi, com certeza, a grande surpresa do encontro, com um depoimento
radicalmente diferente do primeiro. Segundo ele, encontrar aspectos
positivos na sua personalidade, foi uma tarefa extremamente difícil. Na
verdade, só havia conseguido elaborar uma lista de defeitos, ficando
para uma próxima oportunidade (quem sabe outra reunião?) a sua lista de
qualidades. O silêncio do grupo foi total. “O que dizer? O que não
dizer?”. Essas eram as perguntas que todos se faziam. O mais estranho
foi perceber que os colegas nunca haviam percebido tal quadro de
depreciação. Daí a surpresa e o espanto de todos.
Quando convidado a
explicar as razões para sentimentos tão fortes de insegurança e
inadequação, ele não soube precisar como ou quando tudo começou. É claro
que todos perceberam que aquele, talvez, não fosse o melhor momento para
exorcizar possíveis fantasmas interiores, os responsáveis, quem sabe,
por esses sentimentos. Assim, coube naquele instante aos participantes
do grupo procurar reforçar os aspectos positivos da sua personalidade,
fazendo-o ver suas reais potencialidades e capacidades. No entanto, eram
visíveis o constrangimento e relutância dessa pessoa em reconhecer os
aspectos positivos apontados por seus colegas.
Esse indivíduo,
portanto, ao contrário do primeiro, é o que me arrisquei em denominar,
anteriormente, de um inseguro crônico. Nada que ele venha a fazer ou
realizar é suficientemente bom ou satisfatório. Os outros sempre estão a
sua frente, sempre são melhores que ele. O sentimento de baixa
auto-estima é uma constante, quase um modo de vida. Assim, realizando-se
apenas uma análise superficial de um depoimento desse tipo, é difícil
deixar de acreditar que uma pessoa com esses pensamentos não sofra.
Afinal, sentimentos de insegurança tão fortes e freqüentes geralmente
vêm acompanhados de outras sensações, igualmente desagradáveis e
negativas.
Quando, finalmente, o
trabalho encerrou, todos pareciam exaustos como se tivessem corrido uma
maratona. Era quase possível ouvi-los ofegando. Essa é uma daquelas
experiências que, apesar de interessantes e instrutivas, poucos se
sentem à vontade para repeti-la. Todos, de uma maneira ou outra,
deixaram transparecer muitos de seus sentimentos e, principalmente, como
eles os afetavam.
De qualquer maneira,
apesar das limitações inerentes a esse tipo de proposta, talvez seja
importante refletir sobre o que podemos levar da experiência aqui
descrita?
As conclusões, como
sempre, não são definitivas, dependem muito de como cada um é capaz de
interpretar e gerenciar os seus próprios sentimentos. Porém, é possível
identificar alguns pontos em comum. O primeiro deles, talvez, seja
compreender que a insegurança (não importa o grau) raramente vem
desacompanhada. Geralmente, ela está associada a outros sentimentos
perturbadores, como baixa auto-estima, ansiedade e/ou medo. Do mesmo
modo, é preciso entender que todos nós passamos por períodos de “baixa”
nos quais nos sentimos aquém das nossas reais potencialidades. O
problema todo está na extensão desses períodos e na dimensão que damos,
em nossas vidas, a esses sentimentos negativos. Em outros termos,
sentimentos de insegurança fazem parte da vida de todos, principalmente
quando pensamos nos tempos que atualmente vivemos. No entanto, levá-los
ao extremo, acreditando-nos incapazes o tempo todo, é algo que deve ser
questionado e analisado em profundidade.
Portanto, quando
perguntas do tipo: “Será que faço? Ou será que não faço? E se eles não
gostarem? E se não conseguir agradar? E se não sou a pessoa certa?”
insistirem em aparecer no horizonte dos seus pensamentos, lembre sempre
que ninguém é realmente perfeito e que uma pitada (apenas uma pitada!)
de insegurança pode até ajudar a mantê-lo dentro de uma perspectiva
saudável e realista seus reais limites e potencialidades. Entretanto, se
tudo sempre lhe parecer estar além das suas capacidades, pense em trocar
o espelho no qual você vem se olhando, pois talvez ele não esteja
refletindo a imagem que, realmente, reproduza o seu verdadeiro eu. |