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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 02 de junho de 2010 20:33:21                                               

 
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CRôNICAS

Inteligência e Mau Humor

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 02/06/2010

Prega-se muito contra os vícios, mas nunca ouvi ninguém condenar do púlpito o mau humor.

Johann Goethe

A mais nova contribuição da ciência para o entendimento da mente humana veio, desta vez, da Austrália. Segundo o professor Joseph Forgas, da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sidney, a tristeza e o mau humor melhoram a capacidade de julgamento e também aumentam a memória. Sua pesquisa consistiu na realização de uma série de experimentos nos quais foram manipulados o estado de encorajamento dos participantes.

Apesar do estudo ainda não fornecer interpretações precisas para os resultados obtidos, não se pode negar que se trata de uma pesquisa interessante e que dá margem a todo o tipo de discussão. Assim, pensando em todas as pessoas mal-humoradas que já encontrei e lembrando de meus muitos períodos de mau humor, cheguei às minhas próprias conclusões. Em primeiro lugar, não acredito, por exemplo, que essa diferença intelectual tenha ver com o número de neurônios; os mal-humorados tendo um número superior de células nervosas em relação aos bem-humorados. Na verdade, do meu ponto de vista, tudo se resume a maneira como o mal-humorado os emprega.

Uma pessoa de mal com a vida geralmente presta mais atenção no seu entorno. Quem se considera sempre perseguido – característica comum ao mal-humorado – vai estar ansioso em descobrir o que o outro tem de pior. Isso, com certeza, o torna um observador mais atento, e também mais crítico.

Buscar explicações para o porquê de estar se sentindo mal aguça a memória a tal ponto que pouca coisa escapa ao escrutínio do mal-humorado. Se pensarmos que ele também se considera uma eterna vitima das circunstâncias compreenderemos, então, as razões de ele sentir mais capaz de julgar os outros.

E o bem-humorado? Qual a sua posição nesse debate?

Me parece que aqui a visão de mundo se inverte completamente. Agora estamos diante de uma pessoa otimista por natureza. Como para ela o mundo não é um lugar perigoso, cheio de armadilhas a serem desarmadas, sua capacidade de atenção tende a ser menor. O bem-humorado não sente necessidade de descobrir o que o outro está tramando ou de lembrar de situações onde tudo deu errado. O bem-humorado, na maioria das vezes, ri das dificuldades, não se deixando abater por elas, vendo nos problemas uma oportunidade para crescer e aprender. Isso o torna menos atento? Talvez. Isso o faz menos inteligente? Tenho minhas dúvidas. De qualquer maneira, como disse anteriormente, trata-se de um tema interessante.

No entanto, só para aumentar a polêmica, poderia lançar a seguinte questão: é melhor ser um mal-humorado inteligente ou um bem-humorado menos esperto? Sei que a questão é bem mais complexa do que essa pergunta deixa transparecer, afinal, trata-se dos resultados de uma pesquisa cientifica; contudo, acredito que no fim tudo se resume a essa simples e primária escolha.

Portanto, para concluir, quero deixar clara a minha posição: se tiver de escolher prefiro ser uma bem-humorada menos inteligente. Quero poder lembrar somente das coisas boas em minha vida. Quero ver apenas o que há de melhor nas pessoas. E, principalmente, quero manter a tristeza e a depressão bem longe de mim. E se para conseguir esses objetivos tiver de abrir mão de um hipotético Prêmio Nobel, não me importo. Entretanto, como tudo na vida é, e sempre será, uma questão de escolha, finalizo perguntando: e você, o que prefere?

 

 

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::sobre o autor::

 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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