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Prega-se muito contra os
vícios, mas nunca ouvi ninguém condenar do púlpito o mau humor.
Johann Goethe
A mais nova contribuição da ciência para o
entendimento da mente humana veio, desta vez, da Austrália. Segundo o
professor Joseph Forgas, da Universidade de Nova Gales do Sul, em
Sidney, a tristeza e o mau humor melhoram a capacidade de julgamento e
também aumentam a memória. Sua pesquisa consistiu na realização de uma
série de experimentos nos quais foram manipulados o estado de
encorajamento dos participantes.
Apesar do estudo ainda não fornecer
interpretações precisas para os resultados obtidos, não se pode negar
que se trata de uma pesquisa interessante e que dá margem a todo o tipo
de discussão. Assim, pensando em todas as pessoas mal-humoradas que já
encontrei e lembrando de meus muitos períodos de mau humor, cheguei às
minhas próprias conclusões. Em primeiro lugar, não acredito, por
exemplo, que essa diferença intelectual tenha ver com o número de
neurônios; os mal-humorados tendo um número superior de células nervosas
em relação aos bem-humorados. Na verdade, do meu ponto de vista, tudo se
resume a maneira como o mal-humorado os emprega.
Uma pessoa de mal com a vida geralmente
presta mais atenção no seu entorno. Quem se considera sempre perseguido
– característica comum ao mal-humorado – vai estar ansioso em descobrir
o que o outro tem de pior. Isso, com certeza, o torna um observador mais
atento, e também mais crítico.
Buscar explicações para o porquê de estar
se sentindo mal aguça a memória a tal ponto que pouca coisa escapa ao
escrutínio do mal-humorado. Se pensarmos que ele também se considera uma
eterna vitima das circunstâncias compreenderemos, então, as razões de
ele sentir mais capaz de julgar os outros.
E o bem-humorado? Qual a sua posição nesse
debate?
Me parece que aqui a visão de mundo se
inverte completamente. Agora estamos diante de uma pessoa otimista por
natureza. Como para ela o mundo não é um lugar perigoso, cheio de
armadilhas a serem desarmadas, sua capacidade de atenção tende a ser
menor. O bem-humorado não sente necessidade de descobrir o que o outro
está tramando ou de lembrar de situações onde tudo deu errado. O
bem-humorado, na maioria das vezes, ri das dificuldades, não se deixando
abater por elas, vendo nos problemas uma oportunidade para crescer e
aprender. Isso o torna menos atento? Talvez. Isso o faz menos
inteligente? Tenho minhas dúvidas. De qualquer maneira, como disse
anteriormente, trata-se de um tema interessante.
No entanto, só para aumentar a polêmica,
poderia lançar a seguinte questão: é melhor ser um mal-humorado
inteligente ou um bem-humorado menos esperto? Sei que a questão é bem
mais complexa do que essa pergunta deixa transparecer, afinal, trata-se
dos resultados de uma pesquisa cientifica; contudo, acredito que no fim
tudo se resume a essa simples e primária escolha.
Portanto, para concluir, quero deixar
clara a minha posição: se tiver de escolher prefiro ser uma bem-humorada
menos inteligente. Quero poder lembrar somente das coisas boas em minha
vida. Quero ver apenas o que há de melhor nas pessoas. E,
principalmente, quero manter a tristeza e a depressão bem longe de mim.
E se para conseguir esses objetivos tiver de abrir mão de um hipotético
Prêmio Nobel, não me importo. Entretanto, como tudo na vida é, e sempre
será, uma questão de escolha, finalizo perguntando: e você, o que
prefere? |