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E daí se eu gosto de
histórias românticas e com uma dose extra de açúcar? Será que temos de
ser sempre politicamente corretos e ler apenas o que os críticos
consideram aceitável? Percebo nesse tipo de atitude uma forte dose de
preconceito e – por que não? – esnobismo.
Por outro lado, não
estou defendendo o abandono das leituras comprovadamente de qualidade
para só nos debruçarmos sobre o que nos proporciona um prazer imediato
e, muitas vezes, superficial. Não é isso. Ler Borges ou Saramago é, sem
dúvida nenhuma, um exercício de maturidade literária. São autores que,
no seu texto, aprofundam de maneira complexa os mais simples
sentimentos. O mesmo poderia dizer de Machado de Assis, Rubem Fonseca,
Clarice Lispector, entre outros. No entanto, impor essas leituras aos
outros, a ponto de torná-las uma espécie de dogma de fé, parece um pouco
de exagero. Nem sempre estamos no clima para mergulharmos em obras que
irão nos exigir horas de análise e interpretação.
Conheço pessoas que se
sentem envergonhadas em assumir leituras que a critica não considera de
alto nível – os famosos e rentáveis best sellers, por exemplo.
Para evitar constrangimentos, preferem mentir, passando a citar livros e
autores que, segundo elas, terão mais chances de serem bem aceitos. Como
forma de endossar esse fato temos o resultado de uma pesquisa do jornal
inglês The Guardian afirmando que 65% das pessoas entrevistadas
confessaram terem mentido sobre a leitura de livros. Na verdade, o que
essas pessoas temem é o julgamento e, em alguns casos mais radicais, até
a discriminação.
Particularmente, não
tenho preconceitos. Ao contrário. Leio de tudo e se está na lista dos
mais vendidos aí sim o meu interesse aumenta. É claro, que muitas vezes
me decepciono e até tenho alguma dificuldade para compreender a razão de
tanto sucesso. No entanto, a decepção só ocorre porque me predispus a
ler, antes disso não havia motivos para esboçar qualquer tipo de
julgamento. A simples crítica pela crítica não contribui. Ao contrário.
Ela aprofunda ainda mais os preconceitos e afasta as pessoas de um
hábito extremamente saudável, a leitura.
Aqueles que se
arvoraram nos guardiões da boa literatura devem, na minha opinião,
realizar um exercício de humildade e se questionar sobre os “comos” e os
“porquês” de certos autores conseguirem tanta popularidade. O exemplo
mais emblemático, pelo menos aqui no Brasil, é Paulo Coelho. Seus livros
estão sempre entre os mais vendidos, e não só no Brasil. Na França, por
exemplo, suas obras encontram-se frequentemente no topo da lista dos
mais lidos. Será que todos esses leitores, que escolheram Paulo Coelho
como seu autor favorito, são um bando de ignorantes? Duvido muito.
O fato de não
gostarmos de um autor não significa que ele seja destituído de
qualidades. Talvez a sua mensagem não seja aquela que você deseje ou
considere a mais adequada, mas pode ser a ideal para outra pessoa. É
preciso avaliar com muito cuidado nossos padrões de qualidade para que
eles não se tornem elitistas demais. Esse é, sem dúvida nenhuma, um
comportamento muito perigoso. Ao insistirmos nele estaremos nos
convencendo – e querendo convencer os outros – que apenas as nossas
escolhas e opiniões são as mais corretas e esclarecidas, enquanto os
outros são incompetentes ou ignorantes demais para entender.
Ler deve ser um prazer
para mente e para o espírito. Mario Quintana já dizia que o verdadeiro
analfabeto era aquele que apesar de saber ler, não desfrutava do prazer
da leitura. Assim, se a sua mente lhe pede açúcar, qual é o problema?
Por que não ouvi-la? O importante é ler. E se ao longo desse processo
seu gosto for se tornando mais apurado e, quem sabe, aproximar-se do
gosto dos críticos, melhor ainda. Só não se deixe pautar ou rotular.
Portanto, repito: o
importante é ler. Não interessa por qual autor ou obra você vai começar,
o importante – o essencial – é que não deixe nada por ser lido. E se
alguma pessoa lhe disser que a sua escolha não é a melhor ou a mais
qualificada, lembre a ela que esse julgamento não lhe pertence, só você
será capaz de decidir o que lhe interessa ou lhe dá prazer. Afinal, ler
é um exercício individual e intransferível. Boa leitura! |