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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 03 de maio de 2010 18:48:10                                               

 
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CRôNICAS

Livre Arbítrio

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 03/05/2010

Se alguém procura a saúde, pergunta-lhe primeiro se está disposto a evitar no futuro as causas da doença; em caso contrário, abstém-te de ajudar.

Sócrates

Sei que não é politicamente correto assumir a condição de sedentário. Muitos só o fazem entre amigos e familiares; para estranhos, nem pensar. As razões para esse comportamento não são difíceis de entender.

Pesquisas e mais pesquisas têm, literalmente, brotado do chão ou caído dos céus alardeando os benefícios das atividades físicas. As caminhadas são excelentes para baixar o peso e reduzir o colesterol. A corrida fortalece os ossos, prevenindo a osteoporose. A natação melhora a respiração e a coordenação motora. A hidroginástica é extremamente eficaz no combate ao estresse.

Não me interpretem mal: não estou pondo em dúvida as informações divulgadas pelas pesquisas. Sei que na sua maioria elas são sérias e seus resultados verdadeiros. Meu problema – ou melhor, minha contrariedade – está na forma como isso é imposto às pessoas que não compartilham dessas ideais. Não importa se elas juram se sentir bem e felizes sem ter de suar uma hora (no mínimo!) todo o dia. Não importa se elas garantem que a leitura de um bom livro com o corpo confortavelmente instalado num sofá é o melhor relaxante que elas encontraram. Os fanáticos pelos exercícios físicos não querem ouvir ou entender, é mais fácil sair dizendo: “esse aí vai morrer cedo e mal”.

Para mim, esse é o grande problema: a mania de rotular ou de dividir a humanidade em grupos. Particularmente, sou uma adepta feroz do livre arbítrio. A escolha do que é melhor para si mesmo é pessoal e intransferível e não serão grupos radicais “pró-exercícios a qualquer custo” que irão ajudar as pessoas a decidir sobre o que é melhor para elas.

Assim, nos últimos anos ficou praticamente impossível dizer, a quem quer que seja, a frase “não gosto e não faço exercícios” sem ver se formar expressões que vão desde a pena até o horror absoluto. A impressão é que se acabou de dar a notícia de que se está com alguma doença contagiosa ou incurável. É muito constrangedor, posso garantir.

Eu frequentei uma academia de ginástica por alguns meses e confesso: foi um verdadeiro tormento. Aquele ambiente de pessoas suando, pulando e gemendo em busca de um corpo que muitas delas (incluindo eu mesma) jamais terão me deixava profundamente deprimida. E para piorar, nunca o meu esforço era suficiente, sempre era preciso mais e mais, e se doesse, era ainda melhor. Resultado? Desisti!

Nas outras modalidades que pratiquei (natação e hidroginástica), o resultado não foi diferente. Quando percebia que queriam sempre mais de mim – mesmo que eu não precisasse ou não estivesse disposta a dar – eu, simplesmente, desaparecia.

De qualquer maneira, nada tenho contra aqueles que curtem exercícios físicos. Ao contrário. Meu problema é com aqueles que se consideram salvadores da humanidade. Eles têm o péssimo hábito de querer impor suas ideias a todo o custo, nem que para isso tenham de predizer todo o tipo de desgraças e catástrofes. É esse tipo de atitude contra o qual me insurjo.

Portanto, me parece que toda essa onda de “faça exercícios e viva mais saudável” não está ajudando em nada as pessoas que fogem de qualquer proposta que envolva um gasto maior de energia. Na verdade, é preciso orientá-las, deixando para a consciência de cada uma a escolha daquilo que será melhor para a manutenção da sua saúde. A pressão insana e fanática não é a resposta para quem prefere o sofá ou a rede. Acredito que os resultados de um exame de sangue, apresentando índices altos de colesterol, são bem mais motivadores do que qualquer propaganda na TV, matéria em jornal ou discurso messiânico.

Quanto a mim, agora estou tentando uma nova modalidade de exercícios: a caminhada. Minha esperança é que agora tendo apenas meus pensamentos como companhia consiga aposentar em definitivo minha carteirinha de sedentária convicta. Vale a pena fazer uma nova tentativa. Afinal, nada como uma taxa de colesterol de 291 para mudar toda a nossa perspectiva de vida.

 

 

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::sobre o autor::

 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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