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Se alguém procura a saúde, pergunta-lhe
primeiro se está disposto a evitar no futuro as causas da doença; em
caso contrário, abstém-te de ajudar.
Sócrates
Sei que não é politicamente correto
assumir a condição de sedentário. Muitos só o fazem entre amigos e
familiares; para estranhos, nem pensar. As razões para esse
comportamento não são difíceis de entender.
Pesquisas e mais pesquisas têm,
literalmente, brotado do chão ou caído dos céus alardeando os benefícios
das atividades físicas. As caminhadas são excelentes para baixar o peso
e reduzir o colesterol. A corrida fortalece os ossos, prevenindo a
osteoporose. A natação melhora a respiração e a coordenação motora. A
hidroginástica é extremamente eficaz no combate ao estresse.
Não me interpretem mal: não estou pondo em
dúvida as informações divulgadas pelas pesquisas. Sei que na sua maioria
elas são sérias e seus resultados verdadeiros. Meu problema – ou melhor,
minha contrariedade – está na forma como isso é imposto às pessoas que
não compartilham dessas ideais. Não importa se elas juram se sentir bem
e felizes sem ter de suar uma hora (no mínimo!) todo o dia. Não importa
se elas garantem que a leitura de um bom livro com o corpo
confortavelmente instalado num sofá é o melhor relaxante que elas
encontraram. Os fanáticos pelos exercícios físicos não querem ouvir ou
entender, é mais fácil sair dizendo: “esse aí vai morrer cedo e mal”.
Para mim, esse é o grande problema: a
mania de rotular ou de dividir a humanidade em grupos. Particularmente,
sou uma adepta feroz do livre arbítrio. A escolha do que é melhor para
si mesmo é pessoal e intransferível e não serão grupos radicais
“pró-exercícios a qualquer custo” que irão ajudar as pessoas a decidir
sobre o que é melhor para elas.
Assim, nos últimos anos ficou praticamente
impossível dizer, a quem quer que seja, a frase “não gosto e não faço
exercícios” sem ver se formar expressões que vão desde a pena até o
horror absoluto. A impressão é que se acabou de dar a notícia de que se
está com alguma doença contagiosa ou incurável. É muito constrangedor,
posso garantir.
Eu frequentei uma academia de ginástica
por alguns meses e confesso: foi um verdadeiro tormento. Aquele ambiente
de pessoas suando, pulando e gemendo em busca de um corpo que muitas
delas (incluindo eu mesma) jamais terão me deixava profundamente
deprimida. E para piorar, nunca o meu esforço era suficiente, sempre era
preciso mais e mais, e se doesse, era ainda melhor. Resultado? Desisti!
Nas outras modalidades que pratiquei
(natação e hidroginástica), o resultado não foi diferente. Quando
percebia que queriam sempre mais de mim – mesmo que eu não precisasse ou
não estivesse disposta a dar – eu, simplesmente, desaparecia.
De qualquer maneira, nada tenho contra
aqueles que curtem exercícios físicos. Ao contrário. Meu problema é com
aqueles que se consideram salvadores da humanidade. Eles têm o péssimo
hábito de querer impor suas ideias a todo o custo, nem que para isso
tenham de predizer todo o tipo de desgraças e catástrofes. É esse tipo
de atitude contra o qual me insurjo.
Portanto, me parece que toda essa onda de
“faça exercícios e viva mais saudável” não está ajudando em nada as
pessoas que fogem de qualquer proposta que envolva um gasto maior de
energia. Na verdade, é preciso orientá-las, deixando para a consciência
de cada uma a escolha daquilo que será melhor para a manutenção da sua
saúde. A pressão insana e fanática não é a resposta para quem prefere o
sofá ou a rede. Acredito que os resultados de um exame de sangue,
apresentando índices altos de colesterol, são bem mais motivadores do
que qualquer propaganda na TV, matéria em jornal ou discurso messiânico.
Quanto a mim, agora estou tentando uma
nova modalidade de exercícios: a caminhada. Minha esperança é que agora
tendo apenas meus pensamentos como companhia consiga aposentar em
definitivo minha carteirinha de sedentária convicta. Vale a pena fazer
uma nova tentativa. Afinal, nada como uma taxa de colesterol de 291 para
mudar toda a nossa perspectiva de vida. |