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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 02 de dezembro de 2009 18:29:28                                               

 
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CRôNICAS

Maldade na Internet

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 02/12/2009

Quanto maior o homem, tanto maior também o seu potencial de maldade.

Textos Judaicos

Outro dia li no jornal uma matéria sobre o que anda acontecendo na internet. Preciso confessar: fiquei pasma. Segundo o texto, existem pessoas que se dedicam a disseminar, sem qualquer controle ou punição, por sites e blogs, a maldade explicita.

Sei que a essa hora você deve estar pensando: “Meu Deus! Por onde essa mulher tem andado? Afinal, desde que a internet é a internet esse tipo de coisa sempre aconteceu”. Na verdade, o que me chamou a atenção foi o fato de esse fenômeno agora ter um nome e estar sendo objeto de estudo de alguns pesquisadores. Portanto, se você, assim como eu, ainda não sabia, a maldade na internet tornou-se tema de pesquisa nas universidades.

Chamam-se trolls pessoas que resolvem extravasar, nos fóruns e listas de discussões espalhados pela internet, seus piores e mais negros demônios interiores. E não estou falando daquela catarse construtiva feita, por exemplo, em conjunto num site de relacionamento, no qual um grupo de pessoas expõe seus problemas, buscando, nessas conversas virtuais, apoio e, até mesmo, soluções para as suas dificuldades. Estou falando dos que usam o anonimato da internet para ofender e agredir por pura diversão.

Os poucos estudos que existem sobre o assunto indicam que os trolls são formados, na sua grande maioria, por jovens, ou melhor, adolescentes. Muitos deles entram nos sites apenas para provocar discussões sem sentido demonstrando total desconhecimento dos temas que ali são tratados. Entram, como eles mesmos dizem, “para detonar”.

Se as pesquisas realmente confirmarem que a maioria dos trolls são jovens, sobre os quais nenhum tipo de controle é exercido, num futuro muito próximo teremos um grave problema em nossas mãos. Vamos ser obrigados a lidar com uma sociedade constituída de adultos que cresceram acreditando que o mundo virtual não é real e, portanto, fazendo dele seu circo dos horrores particular.

De qualquer maneira, é importante entender que qualquer pessoa pode se tornar um troll. Qualquer um, incluindo você ou eu. Basta para isso que nos deixemos levar por preconceitos que, em condições normais, procuraríamos esconder dos outros e até de nós mesmos. E é justamente nesse aspecto que precisamos ter mais cuidado. Como a internet dá uma falsa ilusão de anonimato, muitas pessoas acreditam que podem dar vazão a todo tipo de crueldade verbal, usando até de imoralidade (palavrões e xingamentos), para atingir os seus objetivos.

Infelizmente, os estudiosos desse fenômeno não veem uma solução efetiva para o problema. Na verdade, a única solução possível, no momento, seria uma espécie de censura branca. Em outras palavras, moderar intervenções e comentários dos leitores ou, até mesmo, excluí-las. O objetivo seria dar tempo para que o internauta com tendências a troll possa amadurecer, rejeitando esse tipo de comportamento destrutivo.

Portanto, quando no início do texto me mostrei surpresa com mais esse comportamento bizarro do ser humano, tinha os meus motivos. Saber que tantos jovens compactuam com esse tipo de atitude, valendo-se desse pseudo anonimato da internet, chocou-me profundamente. Fico pensando em quais modelos eles têm se pautado para agir dessa maneira. O que os faz entrar em um blog, onde uma discussão séria está sendo feita, para simplesmente expor sua ignorância a partir de comentários vazios e agressivos? O que eles esperam ganhar com isso? Trata-se apenas da maldade pela maldade?

Enfim, perguntas não faltam. O fato é que os pesquisadores da chamada Cibercultura têm muito trabalho pela frente se querem encontrar uma forma de combater esse tipo de internauta. É como diz uma das pesquisadoras entrevistadas pelo jornal, a psicóloga Cleci Maraschin da UFRGS, “Quem é agressivo e não experimenta essa agressividade lá fora pode fazê-lo no mundo virtual. Quem não vivencia certas emoções no mundo real se sente incentivado a vivenciá-las de outro jeito”. Fica, então, uma pergunta final: será que estamos testemunhando o surgimento de um novo tipo de psicopatia? Sinceramente, espero que não.

 

 

 

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::sobre o autor::

 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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