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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 03 de setembro de 2010 19:13:01                                               

 
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CRôNICAS

Mundo animal

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 03/09/2010

 

Margarete Hülsendeger

A compaixão pelos animais

está intimamente ligada à bondade de caráter,

e quem é cruel com os animais

não pode ser um bom homem.

Arthur Schopenhauer

 

 

Preciso fazer uma confissão: eu não gosto de animais. Eu não os odeio, só não consigo me imaginar convivendo no mesmo espaço com eles, não importa o quão fofinhos pareçam. No entanto, antes que os defensores do mundo animal resolvam organizar algum tipo de linchamento público, faço uma ressalva: não gosto deles, mas tenho muito respeito por eles. E por respeitá-los, não consigo entender certas coisas.

Quando era criança, minha casa ficava ao lado de outra onde vivia uma família composta de um casal, três filhas e dois cachorros. Cada um dos integrantes dessa feliz família tinha o seu próprio espaço, exceção feita aos cachorros. Esses eram dois pastores alemães enormes que dividiam um pequeno pátio cujos fundos dava para o quintal da minha casa. Eu que nunca gostei – nem quando era pequena – de bichos, ficava horrorizada com as condições nas quais aqueles pobres animais viviam. O espaço, além de ser ridiculamente pequeno, era também usado como “banheiro” por eles. Assim, quando chegava o final do dia, o cheiro era insuportável. Como os coitados pouco saiam, eles acabavam passando todas as horas do dia naquele cubículo, andando de lá para cá, como presidiários em suas pequenas celas. E aí fica impossível não perguntar: essa família respeitava os animais sob a sua guarda?

Anos mais tarde conheci uma senhora muito simpática e querida que convivia com sete gatos em um apartamento no centro da cidade. Vou repetir pausadamente: sete gatos – apartamento – centro da cidade. As pessoas evitavam visitá-la e os vizinhos viviam se queixando. Ao ser questionada sobre a viabilidade de manter tantos bichos confinados em um pequeno espaço ela, com um sorriso nos lábios, dizia não ver problema algum. E depois sou eu que não gosto de bichos.

Em outra ocasião, quando tive de dormir na casa de uma amiga, fui acordada às 6h30min por uivos desesperados do que parecia ser um cachorro em grande sofrimento. Durante o café da manhã ao perguntar qual havia sido o motivo para todo aquele barulho foi-me informado que se tratava do cachorro do vizinho. Como às 6h30min era o horário no qual o seu dono saia para o trabalho, o pobre do animal começava a uivar, como se estivesse chorando. Como ficar feliz se o seu destino era permanecer trancado naquele apartamento, o dia inteiro, completamente sozinho?

De qualquer maneira, poderia continuar enumerando exemplos e mais exemplos de situações nas quais o tratamento dispensado aos animais não reflete o respeito que deve ser demonstrado para com eles. Os veterinários são unânimes em afirmar: qualquer animal de estimação deve receber os mesmos cuidados oferecidos a um ser humano. Assim como nós, eles estão sujeitos a problemas físicos, mentais e até mesmo emocionais e, portanto, devem ser tratados de forma carinhosa e, principalmente, respeitosa. Não é possível querer um bicho em casa se não se está disposto a cuidar dele e, em alguns casos, a abrir mão de certas conveniências. Conheço uma pessoa que só viaja se tem com quem deixar seu cachorro. E caso o “escolhido” não seja encontrado ou não pareça de confiança, ela prefere ficar em casa, pois não suporta a ideia de ver o seu bichinho maltratado ou esquecido.

De minha parte, continuo não gostando de conviver com animais. Lamento. Contudo, sei que quem deseja ter um deve, antes de mais nada, refletir se tem condições de tratar dele. Responsabilizar-se por um animal é como ter um filho. Não se pode colocá-lo no mundo para só depois pensar no que se vai fazer com ele. Do mesmo modo, quem esquece que esses seres têm necessidades tão prementes e importantes quanto as nossas não é qualificado para assumir essa tarefa. Portanto, pense bem antes de tomar essa decisão, pois, com certeza, sua vida depois disso jamais vai ser a mesma.

 

 

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 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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