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Margarete Hülsendeger
A compaixão pelos
animais
está intimamente ligada à
bondade de caráter,
e quem é cruel com os
animais
não pode ser um bom
homem.
Arthur Schopenhauer
Preciso
fazer uma confissão: eu não gosto de animais. Eu não os odeio, só não
consigo me imaginar convivendo no mesmo espaço com eles, não importa o
quão fofinhos pareçam. No entanto, antes que os defensores do mundo
animal resolvam organizar algum tipo de linchamento público, faço uma
ressalva: não gosto deles, mas tenho muito respeito por eles. E por
respeitá-los, não consigo entender certas coisas.
Quando era criança, minha casa ficava ao
lado de outra onde vivia uma família composta de um casal, três filhas e
dois cachorros. Cada um dos integrantes dessa feliz família tinha o seu
próprio espaço, exceção feita aos cachorros. Esses eram dois pastores
alemães enormes que dividiam um pequeno pátio cujos fundos dava para o
quintal da minha casa. Eu que nunca gostei – nem quando era pequena – de
bichos, ficava horrorizada com as condições nas quais aqueles pobres
animais viviam. O espaço, além de ser ridiculamente pequeno, era também
usado como “banheiro” por eles. Assim, quando chegava o final do dia, o
cheiro era insuportável. Como os coitados pouco saiam, eles acabavam
passando todas as horas do dia naquele cubículo, andando de lá para cá,
como presidiários em suas pequenas celas. E aí fica impossível não
perguntar: essa família respeitava os animais sob a sua guarda?
Anos mais tarde conheci uma senhora muito
simpática e querida que convivia com sete gatos em um apartamento no
centro da cidade. Vou repetir pausadamente: sete gatos – apartamento –
centro da cidade. As pessoas evitavam visitá-la e os vizinhos viviam se
queixando. Ao ser questionada sobre a viabilidade de manter tantos
bichos confinados em um pequeno espaço ela, com um sorriso nos lábios,
dizia não ver problema algum. E depois sou eu que não gosto de bichos.
Em outra ocasião, quando tive de dormir na
casa de uma amiga, fui acordada às 6h30min por uivos desesperados do que
parecia ser um cachorro em grande sofrimento. Durante o café da manhã ao
perguntar qual havia sido o motivo para todo aquele barulho foi-me
informado que se tratava do cachorro do vizinho. Como às 6h30min era o
horário no qual o seu dono saia para o trabalho, o pobre do animal
começava a uivar, como se estivesse chorando. Como ficar feliz se o seu
destino era permanecer trancado naquele apartamento, o dia inteiro,
completamente sozinho?
De qualquer maneira, poderia continuar
enumerando exemplos e mais exemplos de situações nas quais o tratamento
dispensado aos animais não reflete o respeito que deve ser demonstrado
para com eles. Os veterinários são unânimes em afirmar: qualquer animal
de estimação deve receber os mesmos cuidados oferecidos a um ser humano.
Assim como nós, eles estão sujeitos a problemas físicos, mentais e até
mesmo emocionais e, portanto, devem ser tratados de forma carinhosa e,
principalmente, respeitosa. Não é possível querer um bicho em casa se
não se está disposto a cuidar dele e, em alguns casos, a abrir mão de
certas conveniências. Conheço uma pessoa que só viaja se tem com quem
deixar seu cachorro. E caso o “escolhido” não seja encontrado ou não
pareça de confiança, ela prefere ficar em casa, pois não suporta a ideia
de ver o seu bichinho maltratado ou esquecido.
De minha parte, continuo não gostando de
conviver com animais. Lamento. Contudo, sei que quem deseja ter um deve,
antes de mais nada, refletir se tem condições de tratar dele.
Responsabilizar-se por um animal é como ter um filho. Não se pode
colocá-lo no mundo para só depois pensar no que se vai fazer com ele. Do
mesmo modo, quem esquece que esses seres têm necessidades tão prementes
e importantes quanto as nossas não é qualificado para assumir essa
tarefa. Portanto, pense bem antes de tomar essa decisão, pois, com
certeza, sua vida depois disso jamais vai ser a mesma. |