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A tarefa de ser mãe (ou
pai) não é nada fácil, pelo menos para quem a encara com um mínimo de
seriedade e responsabilidade. Minha mãe, por exemplo, durante anos
aconselhou-me a pensar com toda a calma antes de decidir ter filhos.
Segundo ela, essa era uma missão que nunca tinha fim, não importava
quantos anos eles pudessem ter – quatro ou quarenta. “Filhos são para a
vida toda. Não tem como devolver”, dizia ela.
No entanto, muitas
mulheres, infelizmente, ainda acreditam que ao engravidarem tudo se
passará como nas novelas ou nos filmes de Hollywood. Só conseguem ver os
aspectos luminosos e sublimes da maternidade, ignorando, quase
totalmente, o lado pouco glamuroso do trabalho de ser mãe.
A mídia, em especial,
esforça-se em alimentar essa visão romântica criando a falsa ideia de
que uma fada madrinha irá, num passe de mágica, retirar do caminho das
futuras mamães todas as preocupações e dificuldades que o nascimento de
um filho naturalmente traz. Contudo, a não ser que essa fada madrinha
seja uma excelente babá ou uma competente enfermeira, tal ilusão
rapidamente desaparecerá quando o primeiro choro se fizer ouvir durante
a madrugada. Por isso, quando mães de primeira viagem – que antes
desejavam ardentemente um filho – começam a se queixar de cansaço e
frustração pergunto-me que livros andaram lendo ou quais filmes
resolveram assistir para estarem tão pouco preparadas.
Do mesmo modo, é preciso
entender que a criação dos filhos não se resume à simples tarefa de
colocá-los no mundo. É preciso mais. Muito mais. Trata-se de uma
atividade com 24 horas de duração, sem direito a férias ou feriados
prolongados. Atualmente, no entanto, está-se observando uma mudança
inquietante no comportamento de muitos pais quando o assunto é educar e
orientar seus filhos.
Durante a infância,
observa-se uma preocupação constante dos pais em acompanhar, passo a
passo, o desenvolvimento das suas crianças. Tudo nesse período é
importante, desde o que elas comem até se o seu sono é tranquilo. Porém,
quando essas mesmas crianças se tornam adolescentes o olhar de muitos
desses pais se modifica, às vezes de maneira radical. Agora parece que
não lhes cabe mais esse acompanhamento cuidadoso e ininterrupto das
conquistas e dificuldades de seus filhos. É como se eles, por já saberem
se vestir, comer ou andar sozinhos, não precisassem mais de orientação,
apoio ou, até mesmo, do bom e velho puxão de orelhas. É como se as
obrigações paternas (e maternas) diminuíssem e, em alguns casos mais
graves, deixassem de existir.
Não há como negar a
importância do exercício da autonomia durante esse período. Contudo, não
se deve confundir esse exercício saudável e necessário, que levará um
indivíduo a se tornar independente e mais seguro de si mesmo, com o
simples e inconcebível abandono. Criar e educar um filho dá trabalho.
Muito trabalho. E a adolescência é, sem dúvida nenhuma, uma das épocas
mais trabalhosas e difíceis para qualquer mãe ou pai responsável. Não há
a menor possibilidade de se tirar “férias”. Pelo contrário.
Entretanto, muitos pais e
mães andam “saindo de férias”, deixando muitos jovens – seus filhos –
abandonados à própria sorte. E aqui, quando uso a palavra “abandono”,
não estou me referindo necessariamente a abandono material, a não ter o
que comer, onde morar ou o que vestir. Estou falando de abandono
emocional. Pais que, diante dos frequentes embates, polêmicas e
conflitos – normais nesse período –, preferem desistir, confiando no que
fizeram até aquele momento. Porém, todos sabem que isso não é, e nunca
será, o suficiente.
Ser mãe e pai não é uma
tarefa que tenha hora, dia, mês ou ano para terminar. Na verdade, como
sabiamente dizia minha mãe, ela nunca termina. Do mesmo modo, ter e
criar filhos não é – ou melhor, não deve ser encarada como – uma
fantasia romântica na qual tudo vai ser sempre maravilhoso. Deve-se
pensar que essa é uma missão na qual momentos de muita alegria serão,
invariavelmente, substituídos por longos períodos de angústias e
preocupações. Após se ter um filho, o verbo dormir, por exemplo, passa a
assumir um novo significado, na maioria das vezes bem diferente daquele
que se encontra nos dicionários.
A essa altura, você que
ainda não teve filhos deve estar pensando: “Que horror!”. Na verdade, o
horror só existirá se essa tarefa for encarada com irresponsabilidade.
Eu, particularmente, não me arrependo de ter assumido essa missão há 16
anos. É claro que antes de assumi-la pensei muito nos conselhos de minha
mãe. E quando, em alguns momentos, as coisas ficaram feias, respirei
fundo e fui em frente, acreditando que estava fazendo o meu melhor.
Portanto, para aqueles que estão começando a pensar na possibilidade de
se tornarem pais e mães, lembrem de Vinicius de Moraes: Filhos?
Melhor não tê-los. Mas se não tê-los, como sabê-los? E eu
acrescentaria: mas se resolver tê-los, assuma integralmente essa tarefa,
pensando sempre que, apesar de estarem crescidos, eles nunca irão
recusar um bom colo. |