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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 01 de julho de 2010 18:57:19                                               

 
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CRôNICAS

Palavras ao vento

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 02/07/2010

 

As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.

Victor Hugo

 

Sempre ouvi dizer que as palavras tinham força. No entanto, durante muito tempo, sempre associei essa ideia a situações positivas. Foi o poder das palavras que levou o homem a questionar sistemas econômicos e políticos que defendiam a exploração do mais fraco pelo mais forte. Foi o poder das palavras que deu a Gandhi o Prêmio Nobel da Paz, pois falando para todos – independentemente de credo ou raça – ele defendeu a ideia de que, sim, a paz entre os povos era possível. A palavra escrita e falada sempre foi a força que impulsionou a maioria das mudanças significativas da humanidade.

Entretanto, você já percebeu como, nos dias de hoje, anda difícil a comunicação entre as pessoas? Qualquer palavra, por menos importante que seja, rapidinho passa a ser de domínio público. Não existe mais privacidade. Não é dado mais tempo para que as pessoas se expliquem e procurem um acordo. Todos se acham no direito de julgar e condenar sem nem ao menos conhecer os dois lados de uma questão. Sim, porque, não há dúvidas, todo o problema tem dois lados: o seu e o do outro.

Por essa razão, as mesmas palavras que podem trazer a paz, também podem provocar conflitos de toda a ordem. Enfrentamentos que vão desde uma opinião mal interpretada até, quem sabe, um ataque nuclear. Parece exagero, mas pense bem: quantas guerras foram declaradas só porque a diplomacia – arte de negociar pela palavra – falhou? Em quantas confusões você já se meteu porque suas palavras foram mal interpretadas? Ou ainda, em quantas confusões você colocou os outros só porque ao ouvir também não soube interpretar o que foi dito corretamente?

A palavra (escrita ou falada), depois que é solta no mundo, não nos pertence mais. Ela, a partir desse momento, fará parte do universo, engrossando todos os erros e acertos que andam se acumulando por aí. E como é difícil saber controlar o que se diz e o que se escreve. Tudo é interpretado ao pé da letra sem levar em consideração o contexto no qual as palavras foram ditas ou escritas. Sei que uma das funções da justiça é a de mediar esses mal entendidos; contudo, enquanto os juízes decidem o certo ou o errado, o justo ou o injusto, o que foi dito fica pairando no ar, ameaçando a integridade moral e emocional das pessoas. Vidas foram destruídas por causa dessa inabilidade humana de não saber esperar por uma explicação mais completa.

Há uma frase atribuída a Oscar Wilde que vale a pena compartilhar: “Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo”. Não há como discutir com essa ideia. E aqui não se trata de defender o silêncio passivo, mas, sim, o silêncio reflexivo. Quando ele é bem empregado, temos tempo para pesar os prós e contras antes de sairmos emitindo opiniões (ou sentenças acusatórias) que só farão a bola de neve do desentendimento crescer ainda mais. Devemos fazer do nosso silêncio um exercício de autocontrole, com o objetivo de nos poupar aborrecimentos num futuro que, infelizmente, na maioria das vezes, não está tão distante assim.

 

 

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 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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