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Passamos a vida
pensando. Já houve alguém que dissesse (uma santa, eu acho) que os
pensamentos são como cavalos selvagens. Como não conseguimos
controlá-los, eles nos arrastam para onde querem e, muitas vezes, chegam
a nos atropelar.
Quando acordamos, por
exemplo, já colocamos nossa mente para trabalhar: “Que compromissos
tenho hoje? Que contas devo pagar? E quais devem esperar? Será que ele
me ama? Será que ela me trai?”. Os problemas, as dúvidas, velhas e
novas, já de manhã cedo, antes mesmo dos nossos olhos abrirem, preenchem
nossa cabeça sem aviso e, algumas vezes, de forma assustadora. Como o
cérebro consegue dar conta de tudo isso é algo que só os neurologistas e
neurocientistas devem ser capazes de entender e, quem sabe, explicar.
E se alguém acredita
que ao dormir paramos de pensar, lamento informar, estão muito
enganados. Sonhar, dizem por aí, é a tentativa do nosso cérebro de
colocar alguma ordem em todos os nossos ininterruptos e atordoantes
pensamentos. Deitamos pensando no que fizemos, no que deveríamos ter
feito e no que faremos quando um novo dia raiar. Não há, portanto,
descanso, o nosso pensar não nos deixa repousar.
No entanto, apesar da
infinitude do pensar, muitas vezes, nos enredamos em pensamentos que
muito pouco, ou quase nada, têm a nos acrescentar. Por outro lado,
deixamos de pensar ou, até mesmo, afastamos propositadamente pensamentos
que nos forçariam a encarar o que há de mais profundo e essencial em
nossa mente.
Um exemplo da primeira
situação é a compulsão que a maioria de nós têm de pensar (e de se
preocupar) em coisas que ainda estão por acontecer. É impressionante a
energia despendida quando esse processo é desencadeado. Os tais dos
cavalos selvagens, literalmente, perdem o controle. Debatemo-nos e, não
raro, sofremos, porque transformamos fantasias em realidades concretas,
criando verdadeiras armadilhas mentais.
Entretanto, algumas
vezes, conseguimos escapar dessas armadilhas. E são essas “escapadas” as
responsáveis pelos chamados insights, que em português significa
discernimento. Em outras palavras, são aqueles momentos nos quais
conseguindo fugir dos pensamentos obsessivos do dia-a-dia, vislumbramos
reais possibilidades de mudar radicalmente as nossas vidas. A
necessidade da troca de emprego, de realizar uma viajem, de criar algo
totalmente novo (desde uma obra de arte até uma revolução científica),
enfim, esses são apenas alguns exemplos de tudo o que pode ocorrer
quando deixamos nossa mente viajar para longe dos problemas do
cotidiano. Tudo, então, se resume na forma e no conteúdo do nosso
pensar. “Pensar bem” ou “pensar mal” é uma opção, não só pessoal, mas,
também, intransferível.
E a morte? Ou melhor,
pensar sobre a morte é um pensamento “bom” ou “mau”?
Tenho certeza que,
muitos não teriam dúvidas em dizer que esse se trata de um pensamento
muito ruim, o pior deles. Contudo, pergunto: será?
Quando se é jovem
costuma-se acreditar que a morte está muito longe, alguns até agem como
se ela não existisse, desafiando-a a todo o momento. Acredita-se, com
toda a convicção, na invencibilidade e na imortalidade: “os outros podem
morrer, eu não!”. Tudo é possível nesse período da vida, inclusive,
viver para sempre.
Entretanto, conforme a
maturidade se aproxima (e isso, sempre, ocorre muito rápido) começamos a
perceber que a idéia de sermos imortais é uma ilusão. Se há algo
impossível de driblar ou enganar é a morte. A consciência da nossa
finitude nos obriga a pensar mais nela (a morte), a questionar nossas
ações e razões, buscando, inclusive, a conciliação com o passado.
Assim, pensar na morte
tornou-se um entretenimento para os mais velhos, cabendo aos mais jovens
pensar apenas na vida e no que pode ser retirado dela. Acostumamo-nos a
separar esses dois pensamentos, como se eles fossem distintos e
incompatíveis. No entanto, será que pensar na vida, não é, também,
pensar na morte? Ou ainda, será que ao pensarmos na morte não estaremos
pensando na vida?
Sei que parece
complicado, mas a mente, com os seus pensamentos, sempre em ebulição,
tem dessas coisas. Quando menos esperamos, lá estamos nós pensando, nos
envolvendo em elucubrações inesperadas que assustam e nos fazem
questionar até onde esse pensar irá nos levar. De qualquer maneira, se
começarmos a entender que pensar na morte é um pensamento como outro
qualquer, talvez, consigamos entender o que Fernando Pessoa quis nos
dizer nessa frase: O próprio viver é
morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos,
nisso, um dia a menos nela.
Portanto, pensar, viver e morrer devem ser encarados como faces de uma
mesma realidade: o fato de sermos humanos. Essa compreensão (a da nossa
humanidade) poderá nos levar por caminhos desconhecidos e, para muitos,
inexplorados. Trata-se de uma viajem, sem roteiro pré-estabelecido, na
qual o viajante estará exercendo o seu direito soberano de pensar.
Construa você, então, o seu próprio roteiro, cuidando sempre para não
ficar muito preso a ele, e tente fazer como Fernando Pessoa: sinta,
sinta muito, pois o sentimento nada mais é que o alimento do pensar. |