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Todos nós sabemos o que é sentir medo.
Aquela sensação fria e pegajosa que experimentamos quando algo de muito
ruim está para acontecer. No entanto, é preciso entender que, apesar de
desagradável, essa é uma daquelas emoções definidas como essenciais à
nossa sobrevivência.
O que seria do homem antigo e moderno
se não fosse ele?
Como, por exemplo, teria o homem
primitivo sobrevivido aos ataques dos animais selvagens? O medo, com
certeza, deve ter sido um dos fatores fundamentais para a sua
sobrevivência. Imaginem um homem sem medo enfrentando um leão faminto? A
probabilidade de ser devorado seria imensa. Aliás, mesmo com medo, essa
probabilidade continuava sendo grande.
Hoje, como os animais selvagens
encontram-se em extinção ou restritos a zoológicos, substituímos os
medos primitivos por outros igualmente importantes para o nosso bem
estar. O homem moderno teme ser assaltado, perder o emprego e até mesmo
o quanto terá de pagar de imposto de renda. São medos diferentes, para
contextos igualmente diferentes.
No entanto, sabemos que nada é tão
simples como parece. O medo também pode matar. Ou, se para você isso é
forte demais, digamos, então, que ele pode atrapalhar. E muito.
Recentemente, passei por uma situação
que quase me deixou paralisada de tanto medo. Não foi um assalto e nem
perdi o emprego, simplesmente, tive de subir uma horrível e íngreme
rampa no estacionamento de um shopping. Não estaria longe da verdade se
dissesse que experimentei algo muito semelhante ao que o homem primitivo
sentia quando era perseguido por um leão ou um tigre de dentes-de-sabre.
Foi terrível!
Cito apenas algumas das minhas
reações. Minhas pernas não mais me pertenciam. Tremiam feito geléia. Os
batimentos cardíacos ficaram tão acelerados que senti a proximidade de
um infarto. A respiração se tornou muito difícil, parecia estar tendo
uma crise de asma. Se alguém tentasse falar comigo naquele momento,
tenho certeza de que não conseguiria ouvir – e muito menos articular –
uma única palavra. Enfim, reações que se encaixariam em qualquer
situação de perigo iminente.
Alguns poderão estar-se perguntando:
tiraste a carteira de motorista recentemente? Não. Era a primeira vez
que subias uma rampa? Não. Havia pessoas dentro do carro que te estavam
pressionando? Não.
Não, não e não seriam, muito
provavelmente, as respostas a todas as outras possíveis perguntas que
pudessem me fazer. No entanto, eu senti muito, mas muito, medo.
A pergunta é: por quê?
Aqui, tenho certeza, muitos
(principalmente homens) se apressariam a responder: pura incompetência.
Pode ser. Não vou discutir sobre esse tema e nem torná-lo uma briga
entre sexos. O importante é que o medo foi extremo e irracional.
Onde quero chegar com tudo isso?
Aconselhar as pessoas que não subam rampas íngremes de shopping,
principalmente, se forem elas que estiverem dirigindo? Claro que não!
A questão aqui não foi a minha
possível incompetência, mas o que o sentimento de incompetência provocou
em mim naquele momento. Ele simplesmente me paralisou. O medo de não ser
capaz de fazer algo tão simples (frear e arrancar um carro em uma rampa)
me impediu de seguir em frente.
Apliquem agora esse raciocínio a
quaisquer outras situações de suas vidas, como, por exemplo, falar com o
seu chefe para tentar um aumento de salário. Se o medo de que dê tudo
errado dominar a sua mente, você poderá, além de não pedir um novo
aumento, trabalhar de graça caso o seu chefe “gentilmente” peça. Do
mesmo modo, o medo pode impedir que você aceite um novo emprego, pois
ele erroneamente irá levá-lo a crer que não é capaz.
O medo tem todo esse poder?
Infelizmente, tem. Vejam eu e a minha rampa.
Portanto, pensem. Ter medo de ser
assaltado é saudável. Ninguém deve ser louco a ponto de querer enfrentar
um bandido armado. É como enfrentar um tigre de dentes-de-sabre com as
mãos nuas. Pura insanidade. No entanto, o medo deve ser utilizado a
nosso favor, para sobreviver e não para nos escondermos. Ter receio de
se arriscar é normal. Mas fazer dessa emoção um modo de vida, isso sim é
de dar medo, muito medo.
O importante é buscar recursos para
enfrentar todos os medos que diariamente nos assombram. O homem
primitivo encontrou no fogo, nas lanças e nas pedras os meios
necessários para enfrentar os animais selvagens. Com isso o medo deixou
de existir? Claro que não! Ele foi simplesmente controlado e superado.
Nós, homens e mulheres, do século XXI, temos as nossas próprias “feras”
para enfrentar. A questão toda é encontrar as formas de mantê-las
afastadas de nós, para podermos seguir em frente. Difícil? Talvez. Mas
não impossível.
E quanto à minha rampa? Consegui
subi-la? Parece óbvio que, se estou escrevendo essa crônica, é que
consegui. Tudo bem! Foram duas tentativas e muito medo, mas conquistei a
vitória. Para saber se esse medo foi superado - se consegui matar o meu
tigre - preciso tentar novamente e ver o que acontece. Mas isso fica,
quem sabe, para uma outra oportunidade. |