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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 04 de janeiro de 2011 16:16:36                                               

 
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CRôNICAS

Ritos de passagem

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 04/01/2011


      Caçar um leão, escalar uma montanha ou mergulhar de um precipício são apenas alguns exemplos de ritos de passagem que podem ser encontrados em diferentes culturas espalhadas pelo planeta. Do mesmo modo, na nossa sociedade – urbana, tecnocrata e ocidental –, mesmo não precisando caçar um animal selvagem (atitude considerada ecologicamente incorreta) ou colocar a vida em risco, também temos nossos próprios rituais de passagem.

Para alguns, a linha divisória que separa a infância da idade adulta seria transposta com a chegada da maioridade, com suas obrigações e deveres, como votar ou prestar serviço militar; para outros, o primeiro emprego seria esse marco. Contudo, para mim, o que realmente mobiliza, desacomoda e estressa a maioria dos nossos jovens é um fenômeno chamado vestibular.

Sei que em outros países o ingresso em uma universidade segue caminhos diferentes, utilizando-se outras formas de avaliação, como currículos e entrevistas. Porém, quando se trata de Brasil, não tem jeito, é o vestibular – e agora o ENEM – o meio que se emprega para escolher quem vai cursar uma universidade e, portanto, quem vai ter maiores e melhores chances de conquistar o trabalho de seus sonhos.

Assim, todo o ano jovens do país inteiro inscrevem-se em diferentes universidades para realizar provas que irão definir se eles possuem o conhecimento necessário e suficiente para frequentar um curso superior. Responderão a questões sobre diversas áreas do conhecimento, além de serem convocados a escrever um texto dissertativo sobre um assunto previamente escolhido pela banca que elabora as provas. A duração do vestibular varia, conforme a universidade, de um a cinco dias.

Durante essa fase, que compreende não só período específico de testes, mas todo um ano de preparação, não é apenas a vida do adolescente que se altera; na verdade, toda a família fica mexida. É como se todos estivessem sendo postos à prova.

Os pais mais aflitos perguntam-se “será que fizemos tudo certo?”, receosos de que um possível fracasso possa refletir negativamente sobre a educação que eles se esforçaram em oferecer aos seus filhos. Sem contar que um hipotético insucesso prolongaria em mais um ano as expectativas e anseios há tanto tempo acalentados. Afinal, qual pai (ou mãe) não imagina para o seu filho (ou filha) um futuro repleto de realizações e muito sucesso?

Para o jovem, essa etapa da vida é ainda pior. Ele se torna – de forma explícita – o receptáculo de todas as expectativas – reais ou imaginárias –, não só de seus pais, mas também de amigos e familiares, próximos e distantes. A pressão é tanta que até mesmo os que nunca levaram os estudos muito a sério tornam-se, do dia para noite, estudantes exemplares.

Além disso, para muitos jovens – em especial os das classes sociais mais altas – esse talvez seja o primeiro momento de suas vidas no qual se sentirão realmente desafiados. Durante a realização das provas não há espaço para paternalismos, é cada um por si, pois serão as competências e habilidades dos filhos, e não dos pais, que estarão sendo julgadas. Quando, finalmente, esse período de avaliação termina, o jovem sabe, consciente ou inconscientemente, que a sua vida não terá o mesmo ritmo, que novos deveres e responsabilidades lhes serão exigidos. Em outras palavras, ele se tornou – querendo ou não – um adulto.

Talvez alguns considerem exagero da minha parte a comparação entre ritos de passagem de sociedades mais primitivas e o vestibular. Pode ser. No entanto, em minha defesa explico que não tive a intenção de comparar o ato em si – caçar um leão versus responder a questões de Física ou Matemática –, mas os seus possíveis significados.

Enfrentar um leão e sair vivo legitima o jovem como adulto diante da sua comunidade. Do mesmo modo, encarar um ano inteiro de pressão, mais uma semana de provas exaustivas, e conseguir ser aprovado pode se tornar para esse adolescente um atestado não só de competência intelectual, mas também de um amadurecimento emocional.

Caçar um leão ou passar no vestibular? Para muitos, duas situações desiguais. No entanto, para mim são dois ritos de passagem que tentarão definir, dentro de seus limites e cada qual em sua cultura e em seu momento, quem está, em princípio, preparado para enfrentar os desafios que, em um futuro não muito distante, o seu grupo social certamente lhe irá exigir.

 

  Amizade.com
Margarete Hülsendeger
publicado em 01/11/2010

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 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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