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Caçar um leão, escalar uma montanha ou mergulhar
de um precipício são apenas alguns exemplos de ritos de passagem que
podem ser encontrados em diferentes culturas espalhadas pelo planeta. Do
mesmo modo, na nossa sociedade – urbana, tecnocrata e ocidental –, mesmo
não precisando caçar um animal selvagem (atitude considerada
ecologicamente incorreta) ou colocar a vida em risco, também temos
nossos próprios rituais de passagem.
Para alguns, a linha divisória que separa a infância da idade adulta
seria transposta com a chegada da maioridade, com suas obrigações e
deveres, como votar ou prestar serviço militar; para outros, o primeiro
emprego seria esse marco. Contudo, para mim, o que realmente mobiliza,
desacomoda e estressa a maioria dos nossos jovens é um fenômeno chamado
vestibular.
Sei
que em outros países o ingresso em uma universidade segue caminhos
diferentes, utilizando-se outras formas de avaliação, como currículos e
entrevistas. Porém, quando se trata de Brasil, não tem jeito, é o
vestibular – e agora o ENEM – o meio que se emprega para escolher quem
vai cursar uma universidade e, portanto, quem vai ter maiores e melhores
chances de conquistar o trabalho de seus sonhos.
Assim, todo o ano jovens do país inteiro inscrevem-se em diferentes
universidades para realizar provas que irão definir se eles possuem o
conhecimento necessário e suficiente para frequentar um curso superior.
Responderão a questões sobre diversas áreas do conhecimento, além de
serem convocados a escrever um texto dissertativo sobre um assunto
previamente escolhido pela banca que elabora as provas. A duração do
vestibular varia, conforme a universidade, de um a cinco dias.
Durante essa fase, que compreende não só período específico de testes,
mas todo um ano de preparação, não é apenas a vida do adolescente que se
altera; na verdade, toda a família fica mexida. É como se todos
estivessem sendo postos à prova.
Os
pais mais aflitos perguntam-se “será que fizemos tudo certo?”, receosos
de que um possível fracasso possa refletir negativamente sobre a
educação que eles se esforçaram em oferecer aos seus filhos. Sem contar
que um hipotético insucesso prolongaria em mais um ano as expectativas e
anseios há tanto tempo acalentados. Afinal, qual pai (ou mãe) não
imagina para o seu filho (ou filha) um futuro repleto de realizações e
muito sucesso?
Para o jovem, essa etapa da vida é ainda pior. Ele se torna – de forma
explícita – o receptáculo de todas as expectativas – reais ou
imaginárias –, não só de seus pais, mas também de amigos e familiares,
próximos e distantes. A pressão é tanta que até mesmo os que nunca
levaram os estudos muito a sério tornam-se, do dia para noite,
estudantes exemplares.
Além disso, para muitos jovens – em especial os das classes sociais mais
altas – esse talvez seja o primeiro momento de suas vidas no qual se
sentirão realmente desafiados. Durante a realização das provas não há
espaço para paternalismos, é cada um por si, pois serão as competências
e habilidades dos filhos, e não dos pais, que estarão sendo julgadas.
Quando, finalmente, esse período de avaliação termina, o jovem sabe,
consciente ou inconscientemente, que a sua vida não terá o mesmo ritmo,
que novos deveres e responsabilidades lhes serão exigidos. Em outras
palavras, ele se tornou – querendo ou não – um adulto.
Talvez alguns considerem exagero da minha parte a comparação entre ritos
de passagem de sociedades mais primitivas e o vestibular. Pode ser. No
entanto, em minha defesa explico que não tive a intenção de comparar o
ato em si – caçar um leão versus responder a questões de Física
ou Matemática –, mas os seus possíveis significados.
Enfrentar um leão e sair vivo legitima o jovem como adulto diante da sua
comunidade. Do mesmo modo, encarar um ano inteiro de pressão, mais uma
semana de provas exaustivas, e conseguir ser aprovado pode se tornar
para esse adolescente um atestado não só de competência intelectual, mas
também de um amadurecimento emocional.
Caçar um leão ou passar no vestibular? Para muitos, duas situações
desiguais. No entanto, para mim são dois ritos de passagem que tentarão
definir, dentro de seus limites e cada qual em sua cultura e em seu
momento, quem está, em princípio, preparado para enfrentar os desafios
que, em um futuro não muito distante, o seu grupo social certamente lhe
irá exigir. |