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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 01 de dezembro de 2010 20:32:34                                               

 
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CRôNICAS

Sabotagem emocional

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 01/12/2010

 

Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.
Eduardo Galeano

 

O substantivo sabotagem deriva da palavra francesa sabot que significa tamanco. Segundo uma das várias versões que explicam a origem desse termo, ele teria surgido quando operários em greve, durante protestos contra seus patrões, jogavam os tamancos sobre as máquinas para danificá-las. Mais tarde outros significados foram dados para essa mesma palavra. O dicionário Houaiss, por exemplo, também a define como sendo o ato de prejudicar de forma oculta e insidiosa algo ou alguém.

Operários jogando tamancos em máquinas para lesar os patrões até é possível entender, mesmo que não concordemos com esse tipo de atitude. Afinal, presume-se que eles tenham assumido comportamento tão radical por desejarem alcançar melhores condições de trabalho e de salários. No entanto, o que dizer de pessoas que insistem em jogar tamancos em si mesmas?

O mundo está cheio de gente que está constantemente se sabotando. São indivíduos que não concebem uma existência sem estar envolvidos em recriminações ou culpas de algum tipo. Tornam os problemas maiores do que realmente são e nos casos mais extremos, se eles não existem, inventam alguns.

Conheci uma moça, há alguns anos, que já começava o processo de autossabotagem de manhã cedo quando se olhava no espelho. Seu primeiro pensamento era: “Meu Deus! Como vou conseguir terminar esse dia? Nada do que eu faço dá certo”. Em poucos segundos, ela não só determinava como seria todo o seu dia, mas considerava a sua existência inteira como uma sucessão de erros dos quais não conseguia escapar. Os “tamancos” que ela jogava em si mesma eram enormes e certamente deixavam marcas bem profundas.

Com esse exemplo não estou dizendo que não devemos ter uma visão realista das nossas capacidades. Ao contrário. Ser realista é saudável. Do mesmo modo, acredito que seja perfeitamente normal experimentar momentos de dúvidas e incertezas quanto temos de tomar alguma decisão importante. O que não é normal e nem saudável é transformar qualquer situação de vida – por mais insignificante que ela seja – em um problema intransponível. Quando as pessoas agem dessa maneira, escondem-se dos outros e até de si mesmas. E o resultado me parece óbvio: infelicidade e amargura extremas.

Uma pessoa que teima em repetir frases do tipo “não sou capaz” ou “nada na minha vida dá certo” está realizando um tipo sabotagem muito pior do que quebrar uma máquina. Ao nos sabotarmos, atingimos o que há de mais importante em nossas vidas: a certeza de que mesmo em meio às maiores dificuldades sempre seremos capazes de seguir em frente. E ao contrário do que ocorre com as peças de uma máquina, a autoconfiança não é algo que se encontre em qualquer lugar; ela é, na verdade, o resultado de um intenso trabalho interior.

Sair desse ciclo vicioso não costuma ser uma tarefa muito simples, principalmente se esse tipo de conduta já se prolonga há algum tempo. No entanto, como dizia Paulo Freire, “Mudar é difícil, mas é possível”. É preciso, por exemplo, identificar as práticas que nos arrastam para esse ciclo sem fim de autorrecriminação. Assim, toda vez que um pensamento negativo se instala devemos analisá-lo com cuidado, refletindo sobre o quanto ele tem de verdade e de fantasia. Quando se atinge esse objetivo, a sensação é de um peso imenso sendo retirado dos nossos ombros. Afinal, investir em nós mesmos não só reforça todas as qualidades que nos diferenciam das outras pessoas, como nos tornam praticamente imunes a qualquer “tamanco” – não importa a sua dureza – que alguém queira nos jogar.

 

 

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 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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