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Somos o que fazemos, mas somos,
principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.
Eduardo Galeano
O substantivo sabotagem deriva da palavra
francesa sabot que significa tamanco. Segundo uma das várias
versões que explicam a origem desse termo, ele teria surgido quando
operários em greve, durante protestos contra seus patrões, jogavam os
tamancos sobre as máquinas para danificá-las. Mais tarde outros
significados foram dados para essa mesma palavra. O dicionário
Houaiss, por exemplo, também a define como sendo o ato de prejudicar
de forma oculta e insidiosa algo ou alguém.
Operários jogando tamancos em máquinas
para lesar os patrões até é possível entender, mesmo que não concordemos
com esse tipo de atitude. Afinal, presume-se que eles tenham assumido
comportamento tão radical por desejarem alcançar melhores condições de
trabalho e de salários. No entanto, o que dizer de pessoas que insistem
em jogar tamancos em si mesmas?
O mundo está cheio de gente que está
constantemente se sabotando. São indivíduos que não concebem uma
existência sem estar envolvidos em recriminações ou culpas de algum
tipo. Tornam os problemas maiores do que realmente são e nos casos mais
extremos, se eles não existem, inventam alguns.
Conheci uma moça, há alguns anos, que já
começava o processo de autossabotagem de manhã cedo quando se olhava no
espelho. Seu primeiro pensamento era: “Meu Deus! Como vou conseguir
terminar esse dia? Nada do que eu faço dá certo”. Em poucos segundos,
ela não só determinava como seria todo o seu dia, mas considerava a sua
existência inteira como uma sucessão de erros dos quais não conseguia
escapar. Os “tamancos” que ela jogava em si mesma eram enormes e
certamente deixavam marcas bem profundas.
Com esse exemplo não estou dizendo que não
devemos ter uma visão realista das nossas capacidades. Ao contrário. Ser
realista é saudável. Do mesmo modo, acredito que seja perfeitamente
normal experimentar momentos de dúvidas e incertezas quanto temos de
tomar alguma decisão importante. O que não é normal e nem saudável é
transformar qualquer situação de vida – por mais insignificante que ela
seja – em um problema intransponível. Quando as pessoas agem dessa
maneira, escondem-se dos outros e até de si mesmas. E o resultado me
parece óbvio: infelicidade e amargura extremas.
Uma pessoa que teima em repetir frases do
tipo “não sou capaz” ou “nada na minha vida dá certo” está realizando um
tipo sabotagem muito pior do que quebrar uma máquina. Ao nos sabotarmos,
atingimos o que há de mais importante em nossas vidas: a certeza de que
mesmo em meio às maiores dificuldades sempre seremos capazes de seguir
em frente. E ao contrário do que ocorre com as peças de uma máquina, a
autoconfiança não é algo que se encontre em qualquer lugar; ela é, na
verdade, o resultado de um intenso trabalho interior.
Sair desse ciclo vicioso não costuma ser
uma tarefa muito simples, principalmente se esse tipo de conduta já se
prolonga há algum tempo. No entanto, como dizia Paulo Freire, “Mudar é
difícil, mas é possível”. É preciso, por exemplo, identificar as
práticas que nos arrastam para esse ciclo sem fim de autorrecriminação.
Assim, toda vez que um pensamento negativo se instala devemos analisá-lo
com cuidado, refletindo sobre o quanto ele tem de verdade e de fantasia.
Quando se atinge esse objetivo, a sensação é de um peso imenso sendo
retirado dos nossos ombros. Afinal, investir em nós mesmos não só
reforça todas as qualidades que nos diferenciam das outras pessoas, como
nos tornam praticamente imunes a qualquer “tamanco” – não importa a sua
dureza – que alguém queira nos jogar. |