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O sono é como uma outra casa que poderíamos ter,
e onde, deixando a nossa, iríamos dormir.
Marcel Proust
Difícil de acreditar: pesquisa publicada
na revista americana Neuroscience afirma que pessoas com falta de
sono têm a tendência de ser mais otimistas. Os pesquisadores chegaram a
essa conclusão porque, ao examinarem voluntários – utilizando a técnica
de Imagem por Ressonância Magnética (IRM), – constataram uma atividade
mais intensa nas partes do cérebro responsáveis pelas expectativas
positivas. Para esses estudiosos, os resultados forneceram as evidências
necessárias para afirmar que a falta de sono, não só torna as pessoas
mais otimistas, mas também faz com que se arrisquem mais.
A notícia do jornal apresenta como forma
de ilustração a experiência de gerentes de cassinos nas salas de jogos.
Segundo esses profissionais, os jogadores depois de algumas horas sem
dormir vão se tornando cada vez mais imprudentes a ponto de no final da
noite já terem perdido tudo. Como a nota divulgada no jornal é pequena,
muitos pontos desse estudo não ficaram suficientemente claros, contudo,
esse é o tipo de pesquisa que pode provocar discussão ou controvérsia.
De minha parte – mesmo sabendo o quanto é difícil contestar resultados
de trabalhos científicos – acredito que nesse estudo estejam confundindo
uma disposição natural de ver as coisas pelo lado bom com comportamentos
perigosamente temerários.
A falta de sono é uma daquelas situações
difíceis de explicar para quem nunca a experimentou. Apenas aqueles que
já passaram uma noite insone entendem quando quero dizer que é muito
complicado no dia seguinte – ou até na mesma noite – manter qualquer
tipo de sentimento otimista. Na verdade, não dormir embota a mente
tornando a ação mais corriqueira uma manobra complexa. Afinal, quando
não dormimos impedimos que o nosso cérebro “desligue” e, portanto,
descanse. Nesses momentos, tornamo-nos reféns de uma mente cansada que
não consegue raciocinar direito. Daí a considerar esse tipo de atitude
uma forma de otimismo é, para mim, no mínimo estranho.
Quando penso nas minhas várias noites
insones não consigo me lembrar de em algum momento ter me sentido
otimista sobre qualquer coisa. Ao contrário. Observar os ponteiros do
relógio se movendo inexoravelmente durante uma noite inteira só me fez
ver o mundo com cores mais escuras do que o normal. Por essa razão,
creio que o otimismo observado pelos gerentes de cassino nada tem a ver
com a falta de sono, mas com a presença de uma maior quantidade de
adrenalina na corrente sanguínea dos jogadores. É isso o que os mantém
acordados, expondo-os a riscos que normalmente não enfrentariam.
Trata-se de um efeito cascata ou de uma espécie de círculo vicioso: a
tensão provocada pelo jogo os impede de dormir e isso, por sua vez, os
faz querer jogar cada vez mais, aumentando a tensão e dificultando a
chegada do sono.
Nada substitui uma boa noite de sono,
momento no qual temos a oportunidade de nos desligarmos, permitindo
inclusive que sejam criados mais espaços em nossa mente e, portanto,
abrindo lugar para mais informação. Assim, não se deve tomar decisões
depois de uma noite insone, pois com certeza elas não serão o resultado
de um momento exacerbado de otimismo. Muito pelo contrário. A pessoa
nessa situação estará mais vulnerável e, consequentemente, incapaz de
decidir o melhor caminho a tomar.
De qualquer maneira, saber que a falta de
sono pode nos tornar mais imprevidentes a ponto de nos arriscarmos a
perder tudo em uma única noite é motivo suficiente para soar o sinal
alarme. Não considerar esse tipo de comportamento como a definição mais
correta de otimismo também não diminui a certeza de que dormir bem é uma
necessidade tão importante quanto comer ou respirar.
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