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Quem mata o tempo não é assassino, mas sim um suicida.
Millôr Fernandes
Será o tempo uma ilusão, uma fantasia
criada pela menta humana? Para a Física, por exemplo, a ideia de tempo
estaria ligada àquele que observa. Assim, diferentes observadores
perceberiam a sua passagem de forma distinta, com os ponteiros do
relógio deslocando-se mais lenta ou mais rapidamente, conforme a posição
e a velocidade de cada observador.
Ilusão ou grandeza física, o fato é que
saber gerenciar corretamente o tempo tornou-se uma questão prioritária
na sociedade moderna. Os diversos compromissos do dia-a-dia nos obrigam
a ter cuidados redobrados com a passagem das horas, dos minutos e até
dos segundos. Projetos são iniciados, desenvolvidos e concluídos sempre
pensando no tempo. Precisamos ser rápidos, ágeis e dinâmicos fazendo
tudo no menor espaço de tempo possível. Muitas vezes sequer conseguimos
desfrutar das nossas conquistas, pois somos forçados a seguir em frente
em busca de uma nova ideia ou de um novo projeto no menor tempo
possível.
No entanto, estudos indicam que essa
ansiedade gerada pela passagem do tempo não está afetando a todos da
mesma maneira. Ao contrário. Existem aqueles que, na contramão do que a
sociedade parece exigir não veem necessidade ou importância no respeito
a horários. Assim, enquanto os escravos do relógio não conseguem levar a
vida com mais calma e num ritmo menos intenso, esse novo grupo despreza
qualquer tipo de regra que se queira impor.
Recentemente ouvi de uma empresária a
queixa de que seus funcionários mais jovens não conseguiam ou tinham
grande dificuldade de respeitar o conhecido “horário comercial”. Um
deles chegou a dizer que considerava um absurdo esse tipo de cobrança.
Para ele, a realização das tarefas deveria ser suficiente, e qualquer
exigência de bater o relógio-ponto era ridícula e, portanto,
desnecessária.
Especialistas, como o professor da USP
Marcelo Knorich Zuffo, explicam que questões como atrasos e desrespeito
com horários previamente combinados – incluindo-se aí a chegada no
trabalho – tornaram-se uma espécie de mal moderno, como a obesidade e a
depressão. Para ele, a culpa encontra-se nos diversos meios de produzir
e veicular informações – celulares, computadores, etc. – que ao gerarem
repetidas interrupções no cotidiano fazem com que as pessoas não
consigam administrar corretamente o seu tempo e até se revoltem contra
ele.
Essa suposição pode até estar correta;
contudo, me reservo o direito de apontar outras causas para essa nova
“doença”. Ser pontual, por exemplo, implica responsabilidade e isso
requer disposição em assumir compromissos e respeitar regras. Qualidades
que, infelizmente, estão em desuso na nossa sociedade, em especial,
entre os mais jovens. As explicações para esse tipo de comportamento são
as mais variadas. Pais que protegem demais os filhos, impedindo que eles
amadureçam no tempo certo; uma demanda imensa de recursos tecnológicos
que apenas estimulam os sentidos levando, muitas vezes, a uma espécie de
alienação; até a falsa ideia de que respeitar horários e compromissos
podem indicar algum tipo de ansiedade, significando uma desvantagem em
relação aos outros.
Enfim, a falta de pontualidade ou o
desrespeito com horários de um modo geral, do meu ponto de vista, não é
uma nova doença. Trata-se de mais um sintoma de uma problemática bem
maior enfrentada pelo mundo moderno: a dificuldade de assumir
responsabilidades. E o preocupante é que esse tipo de comportamento não
se restringe mais ao período no qual um pouco de rebeldia é considerada
natural, a adolescência. Atualmente, homens e mulheres na faixa dos 25
aos 30 anos também estão apresentando os mesmos “sintomas”, ou seja,
prolongando a sua adolescência além do período considerado normal e –
porque não? – conveniente.
O tempo, portanto, não é o verdadeiro
problema. Afinal, sempre há tempo para se divertir, para experimentar e
até para ser rebelde. No entanto, também deve haver um tempo para
assumir compromissos, momento no qual estaremos comprometendo-nos não só
com o nosso bem estar, mas também com o bem estar do outro. Apenas
quando atingirmos esse nível de compreensão é que o tempo deixará de ser
nosso inimigo. Como aliado, ele vai nos permitir realizar, se não tudo,
pelo menos boa parte do que projetamos para a nossa vida, com o bônus de
não sentirmos ansiedades ou tristezas desnecessárias.
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