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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 11 de maio de 2011 14:19:35                                               
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CRôNICAS

Tempos modernos

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 02/05/2011

 

Quem mata o tempo não é assassino, mas sim um suicida.

Millôr Fernandes

 

Será o tempo uma ilusão, uma fantasia criada pela menta humana? Para a Física, por exemplo, a ideia de tempo estaria ligada àquele que observa. Assim, diferentes observadores perceberiam a sua passagem de forma distinta, com os ponteiros do relógio deslocando-se mais lenta ou mais rapidamente, conforme a posição e a velocidade de cada observador.

Ilusão ou grandeza física, o fato é que saber gerenciar corretamente o tempo tornou-se uma questão prioritária na sociedade moderna. Os diversos compromissos do dia-a-dia nos obrigam a ter cuidados redobrados com a passagem das horas, dos minutos e até dos segundos. Projetos são iniciados, desenvolvidos e concluídos sempre pensando no tempo. Precisamos ser rápidos, ágeis e dinâmicos fazendo tudo no menor espaço de tempo possível. Muitas vezes sequer conseguimos desfrutar das nossas conquistas, pois somos forçados a seguir em frente em busca de uma nova ideia ou de um novo projeto no menor tempo possível.

No entanto, estudos indicam que essa ansiedade gerada pela passagem do tempo não está afetando a todos da mesma maneira. Ao contrário. Existem aqueles que, na contramão do que a sociedade parece exigir não veem necessidade ou importância no respeito a horários. Assim, enquanto os escravos do relógio não conseguem levar a vida com mais calma e num ritmo menos intenso, esse novo grupo despreza qualquer tipo de regra que se queira impor.

Recentemente ouvi de uma empresária a queixa de que seus funcionários mais jovens não conseguiam ou tinham grande dificuldade de respeitar o conhecido “horário comercial”. Um deles chegou a dizer que considerava um absurdo esse tipo de cobrança. Para ele, a realização das tarefas deveria ser suficiente, e qualquer exigência de bater o relógio-ponto era ridícula e, portanto, desnecessária.

Especialistas, como o professor da USP Marcelo Knorich Zuffo, explicam que questões como atrasos e desrespeito com horários previamente combinados – incluindo-se aí a chegada no trabalho – tornaram-se uma espécie de mal moderno, como a obesidade e a depressão. Para ele, a culpa encontra-se nos diversos meios de produzir e veicular informações – celulares, computadores, etc. – que ao gerarem repetidas interrupções no cotidiano fazem com que as pessoas não consigam administrar corretamente o seu tempo e até se revoltem contra ele.

Essa suposição pode até estar correta; contudo, me reservo o direito de apontar outras causas para essa nova “doença”. Ser pontual, por exemplo, implica responsabilidade e isso requer disposição em assumir compromissos e respeitar regras. Qualidades que, infelizmente, estão em desuso na nossa sociedade, em especial, entre os mais jovens. As explicações para esse tipo de comportamento são as mais variadas. Pais que protegem demais os filhos, impedindo que eles amadureçam no tempo certo; uma demanda imensa de recursos tecnológicos que apenas estimulam os sentidos levando, muitas vezes, a uma espécie de alienação; até a falsa ideia de que respeitar horários e compromissos podem indicar algum tipo de ansiedade, significando uma desvantagem em relação aos outros.

Enfim, a falta de pontualidade ou o desrespeito com horários de um modo geral, do meu ponto de vista, não é uma nova doença. Trata-se de mais um sintoma de uma problemática bem maior enfrentada pelo mundo moderno: a dificuldade de assumir responsabilidades. E o preocupante é que esse tipo de comportamento não se restringe mais ao período no qual um pouco de rebeldia é considerada natural, a adolescência. Atualmente, homens e mulheres na faixa dos 25 aos 30 anos também estão apresentando os mesmos “sintomas”, ou seja, prolongando a sua adolescência além do período considerado normal e – porque não? – conveniente.

O tempo, portanto, não é o verdadeiro problema. Afinal, sempre há tempo para se divertir, para experimentar e até para ser rebelde. No entanto, também deve haver um tempo para assumir compromissos, momento no qual estaremos comprometendo-nos não só com o nosso bem estar, mas também com o bem estar do outro. Apenas quando atingirmos esse nível de compreensão é que o tempo deixará de ser nosso inimigo. Como aliado, ele vai nos permitir realizar, se não tudo, pelo menos boa parte do que projetamos para a nossa vida, com o bônus de não sentirmos ansiedades ou tristezas desnecessárias.

 

 

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 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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