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ISSN 1678-8419         última atualização em: domingo, 01 de agosto de 2010 19:00:53                                               

 
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CRôNICAS

O exercício da tolerância

 

Margarete Hülsendeger

publicado em 01/08/2010

A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.

Gandhi

Outro dia, por conta de um compromisso, fui forçada a pegar um ônibus. Desculpe, se uso a palavra “forçada”, mas viajar apertada e sendo sacudida, de um lado para o outro, como um saco de batatas, não está na minha lista de atividades favoritas. Contudo, naquele dia, não foi possível fugir. Assim, não tive outra opção a não ser enfrentar o desafio.

Quando cheguei à parada, logo veio a primeira má noticia: meu ônibus passara há poucos instantes. Respirando fundo, abri um livro – que sempre carrego comigo justamente para essas emergências – e me preparei para esperar. Não deu outra: somente meia hora depois meu ônibus chegou e, para minha tristeza, cheio. Muito cheio! Como estava atrasada para o meu compromisso, fui entrando na esperança de encontrar algum assento que estivesse, milagrosamente, liberado. E com a sorte pela primeira vez sorrindo para mim, logo vi um banco vazio, onde me instalei para “desfrutar” da longa viagem até o meu destino.

Alguns minutos depois, ouvi o motorista avisar ao cobrador: “uma cadeirante no próximo ponto”. O veículo era um desses modelos relativamente novos que apresenta uma espécie de rampa móvel que auxilia as pessoas que utilizam cadeira de rodas, a entrar nos ônibus. No entanto, como esses mecanismos têm vontade própria, apesar de toda a solicitude do cobrador, a cadeira de rodas e a rampa se mostraram, num primeiro momento, incompatíveis, obrigando o motorista a permanecer com o carro parado até que o problema fosse resolvido.

De repente, vozes de protesto, vindas dos outros passageiros, começaram a ser ouvidas. Reclamando da demora, diziam-se atrasados para os seus compromissos. Um deles, inclusive, chegou a ameaçar fisicamente o motorista e o cobrador caso o ônibus não começasse a se mover. Fiquei muito assustada, e, também, horrorizada. A cadeirante era uma jovem mulher que nervosa se esforçava em ajudar, mas, quanto mais as pessoas reclamavam, mais ela se atrapalhava, dificultando a sua entrada no ônibus.

Confesso: eu não tive coragem de dizer nada no sentido de apoiar o solícito cobrador ou a nervosa cadeirante. Meu único medo era que os ânimos se exaltassem e alguma briga absurda pudesse ocorrer dentro do ônibus. Agora, segura em minha casa, não posso deixar de refletir sobre o quanto as pessoas podem ser intolerantes com as dificuldades dos outros. O quanto seus problemas, seus compromissos, suas necessidades podem estar sempre à frente dos problemas, dos compromissos e das necessidades do seu próximo. Os cinco minutos dos outros podem se tornar cinco horas para nós. Não há paciência. Não há tolerância.

Quando, finalmente, a moça, na sua cadeira de rodas, foi instalada dentro do ônibus, todos aqueles que reclamavam viraram seus rostos emburrados para a janela, mergulhando novamente em seus mundinhos interiores. A moça a todos olhava constrangida, com uma expressão de quem se desculpa por não poder andar. O final dessa história eu não assisti, pois minha parada chegou logo em seguida. No entanto, não ficaria surpresa se as reclamações tivessem voltado a se repetir no momento da descida.

Hoje, quando lembro da moça na cadeira de rodas, ainda sinto-me muito mal. Primeiro, por não ter feito alguma coisa, tipo um sermão sobre solidariedade e respeito ao próximo, e, segundo, por não conseguir entender o que leva as pessoas a se comportarem de maneira tão mesquinha. Será que é tão difícil colocar-se, por apenas alguns segundos, no lugar do outro? Será que é tão difícil ver além do seu próprio umbigo? Será? Talvez estejamos precisando realizar mais exercícios que envolvam sentimentos de tolerância, paciência e desprendimento. Afinal, segundo Voltaire, se todos temos erros e fraquezas para corrigir, a primeira lei da natureza deveria ser a da tolerância.

 

 

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 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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