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A lei de ouro do comportamento é a
tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que
nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.
Gandhi
Outro dia, por conta de um compromisso,
fui forçada a pegar um ônibus. Desculpe, se uso a palavra “forçada”, mas
viajar apertada e sendo sacudida, de um lado para o outro, como um saco
de batatas, não está na minha lista de atividades favoritas. Contudo,
naquele dia, não foi possível fugir. Assim, não tive outra opção a não
ser enfrentar o desafio.
Quando cheguei à parada, logo veio a
primeira má noticia: meu ônibus passara há poucos instantes. Respirando
fundo, abri um livro – que sempre carrego comigo justamente para essas
emergências – e me preparei para esperar. Não deu outra: somente meia
hora depois meu ônibus chegou e, para minha tristeza, cheio. Muito
cheio! Como estava atrasada para o meu compromisso, fui entrando na
esperança de encontrar algum assento que estivesse, milagrosamente,
liberado. E com a sorte pela primeira vez sorrindo para mim, logo vi um
banco vazio, onde me instalei para “desfrutar” da longa viagem até o meu
destino.
Alguns minutos depois, ouvi o motorista
avisar ao cobrador: “uma cadeirante no próximo ponto”. O veículo era um
desses modelos relativamente novos que apresenta uma espécie de rampa
móvel que auxilia as pessoas que utilizam cadeira de rodas, a entrar nos
ônibus. No entanto, como esses mecanismos têm vontade própria, apesar de
toda a solicitude do cobrador, a cadeira de rodas e a rampa se
mostraram, num primeiro momento, incompatíveis, obrigando o motorista a
permanecer com o carro parado até que o problema fosse resolvido.
De repente, vozes de protesto, vindas dos
outros passageiros, começaram a ser ouvidas. Reclamando da demora,
diziam-se atrasados para os seus compromissos. Um deles, inclusive,
chegou a ameaçar fisicamente o motorista e o cobrador caso o ônibus não
começasse a se mover. Fiquei muito assustada, e, também, horrorizada. A
cadeirante era uma jovem mulher que nervosa se esforçava em ajudar, mas,
quanto mais as pessoas reclamavam, mais ela se atrapalhava, dificultando
a sua entrada no ônibus.
Confesso: eu não tive coragem de dizer
nada no sentido de apoiar o solícito cobrador ou a nervosa cadeirante.
Meu único medo era que os ânimos se exaltassem e alguma briga absurda
pudesse ocorrer dentro do ônibus. Agora, segura em minha casa, não posso
deixar de refletir sobre o quanto as pessoas podem ser intolerantes com
as dificuldades dos outros. O quanto seus problemas, seus compromissos,
suas necessidades podem estar sempre à frente dos problemas, dos
compromissos e das necessidades do seu próximo. Os cinco minutos dos
outros podem se tornar cinco horas para nós. Não há paciência. Não há
tolerância.
Quando, finalmente, a moça, na sua cadeira
de rodas, foi instalada dentro do ônibus, todos aqueles que reclamavam
viraram seus rostos emburrados para a janela, mergulhando novamente em
seus mundinhos interiores. A moça a todos olhava constrangida, com uma
expressão de quem se desculpa por não poder andar. O final dessa
história eu não assisti, pois minha parada chegou logo em seguida. No
entanto, não ficaria surpresa se as reclamações tivessem voltado a se
repetir no momento da descida.
Hoje, quando lembro da moça na cadeira de
rodas, ainda sinto-me muito mal. Primeiro, por não ter feito alguma
coisa, tipo um sermão sobre solidariedade e respeito ao próximo, e,
segundo, por não conseguir entender o que leva as pessoas a se
comportarem de maneira tão mesquinha. Será que é tão difícil colocar-se,
por apenas alguns segundos, no lugar do outro? Será que é tão difícil
ver além do seu próprio umbigo? Será? Talvez estejamos precisando
realizar mais exercícios que envolvam sentimentos de tolerância,
paciência e desprendimento. Afinal, segundo Voltaire, se todos temos
erros e fraquezas para corrigir, a primeira lei da natureza deveria ser
a da tolerância. |