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Depois de
ralar o joelho no muro e por fim em pé na borda, equilibrando o pequeno
corpo entre o cair e não; de braços abertos respirando fundo, teve a
primeira visão do mundo além dos limites do pátio.
E os
olhos-brilhando luz e festa e medo, puderam ver. O depois. O depois de tudo
que até agora não podia. O muro era alto. E uma brisa gelada e arrepiante o
deixava vibrante, corpo em êxtase.
Era o
momento em que os pais não estavam. Mãe na escola e pai na fábrica. E ele
ali.
Senhor do
muro. Dono da amplidão da imagem. Senhor do que cabia em seu olho. Olho
devorador de sonhos e imagens. Olho que consumia casas, ruas, distantes
árvores. Olho que ouvia. Olho que falava. Era só olhos. Uma visão que se
expandia, dilatava para todos os lados e direções. Já não havia um corpo.
Agora era só o ver. Empanturrar-se com as cores, os movimentos, os barulhos
e delirar com as possibilidades do além muro.
O joelho
doía. Mas não importava. Era o sacrifício. Era a paga. O sangue, o esforço.
Nenhuma vitória deveria ser fácil. Todos deveriam ralar o joelho, esfolar as
mãos no esforço de galgar outros espaços, outras visões.
“Não saia,
dizia o pai. É perigoso, dizia a mãe.” E ele obedecia. Sempre obedecia. Era
obediente. Bom filho. Mas estava cansado. Sua visão era resumida,
determinada pelo muro. Alto muro que protegia tudo e todos. Amigo?
“Pra que tão
alto mãe?” “Proteção meu filho, proteção...” E afagava satisfeita a cabeça
do menino. A bola que chutava nas paredes já perdera a graça. Movimento
espelhado de ir e vir. Reflexo. Os brinquedos... sua imaginação já não
suportava mais brincar de carrinhos. Estradinhas e essas coisas. Caminhos
exatos. Chutou os brinquedos. Dentro da casa a tia. Senhora idosa e obesa.
Rosto vermelho cabelos fartos e risada gostosa. Mas agora dormia. Ela sempre
dormia. Adorava televisão – para dormir. Hipnose. Era apertar o botão e em
seguida ouvia-se o ronco. Foi quando ouviu o ronco que saltou no muro e
ralou o joelho.
Tinha oito
anos. Agora tinha quarenta e dois. E de braços abertos respirava o mundo.
Profundamente.
Ainda morava
na mesma casa. Herança. A mulher não gostava. Ele também não. Mas adorava a
borda daquele muro alto. Os filhos achavam engraçado. Os vizinhos também. A
mulher já se acostumara. Excêntrico, maluco... Mas ele não ligava. Podia
chover cair raio e coisa e tal. E lá ia ele, sempre, todos os dias. Subia no
muro, abria os braços e respirava. Respirava tudo e todos. Depois caia
dentro do trabalho. Dedos vibrantes, olhos que faiscavam letras, frases,
idéias, conceitos, contos, artigos, livros, resenhas, escrevia o mundo. Mas
não o mundo exato. Criava o mundo. Criava. Era senhor do muro. E da borda
estava em contato com os fluxos e energias, e re-criava. E era muito bom.
Um dia um
dos filhos perguntou “Pra que tão alto pai?” e ele disse “Pra poder voar.”
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