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CRÔNICAS

O sorvete e a menina

Nair Lúcia de Britto

publicado em 18/12/2010

noticias.terra.com.br

O SORVETE E A MENINA...

nair lúcia de britto

Dei sinal para o ônibus parar em meio a um turbilhão de gente ali no ponto, querendo a mesma coisa que eu: ir pra casa.

O ônibus parou e eu entrei ansiosa para achar um lugar, para sentar.

No ônibus vazio dava até para escolher um lugar. Escolhi o banco da frente, para um passageiro somente... Que sorte!

Desta vez a viagem seria mais confortável! Mas nem deu tempo de suspirar, e entrou uma outra passageira, robusta, com duas crianças, uma sacola enorme, uma mochila de escola, mais o carrinho para carregar a mochila... Depois outro passageiro e mais outro...

Eu me encolhi, temerosa de que a rodinha do carrinho batesse na minha cabeça. Não bateu, mas foi por pouco... Lá se foram meus sonhos de uma viagem confortável... A mãe se acomodou no banco de trás; o caçula, no colo dela.

A menina, rechonchuda, de olhos castanhos, redondos, parecia uma daquelas personagens alegres do Maurício de Sousa. Aconchegou-se junto à mãe.

A tralha toda por cima... do jeito que dava, sabe como é?

O ônibus arrancou... Eu dondoca, admito, fiz cara de quem comeu e não gostou.

Mas fazer o quê?! O jeito era torcer para chegar logo.

Olhei para trás, preocupada em me proteger. Nisso a mãe tirou da sacola, dois copos de sorvete. Eu já me imaginava, aflita, prevendo sair dali toda lambuzada de chocolate...

-- A senhora não acha melhor deixar para dar o sorvete às crianças, mais tarde? -- arrisquei.

-- Não, não, ele precisa tomar agora! Acabou de arrancar três dentes, e foi o dentista que mandou.

-- Três dentes?! -- Senti-me culpada por me preocupar com tão pouco, enquanto aquele meninozinho...

Pobrezinho, pensei, enquanto a mãe quase que lhe empurrava uma colherada de sorvete atrás da outra.

A mãe voltou-se para a menina, ao lado:

A menina abriu a tampa do sorvete e também começou a tomar...

Enquanto uma outra menina, de pé, filha de outra passageira, olhava suplicante...

-- Dê um pouco pra ela, não viu que ficou com vontade?

Prontamente a menina começou a dar colheradas de sorvete para a outra menina, que tomava de boa vontade.

--Chega! -- gritou a mãe da outra menina. A a mãe da outra menina não queria abusar. Obediente, ela fechou a boca e a menina dos olhos bonitos retomou ao sorvete. Eu apenas observava com ternura para aquelas crianças inocentes e suas dificuldades. Percebi que a menina ficou de repente muito enjoada...

-- Olha, eu acho que sua filha não quer mais o sorvete, avisei.

-- Não quer, mas tem que tomar!

-- Não force, isso faz mal...

-- Não faz mal, não. Ela tem que tomar tudo! -- E olhou para a menina com um olhar fulminante.

A menina, por sua vez, esforçava-se por obedecer. Sorriu-me com um sorriso tímido e agradecido pela minha intervenção.

Nisso, meu ponto chegou e eu nem percebi! Rapidamente, desci; mas desci frustrada por não ter conseguido convencer aquela mãe de poupar a menina daquele sacrifício que, afinal, não tinha nenhuma razão de ser!

Moral da História: Devemos sempre respeitar o livre-arbítrio das crianças, no que diz respeito à sua personalidade e suas escolhas. Por outro lado não se preocupar tanto com tão pouco.

 
  

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