O SORVETE E A MENINA...
nair lúcia de britto
Dei sinal para o ônibus parar em meio a um turbilhão de gente ali no
ponto, querendo a mesma coisa que eu: ir pra casa.
O ônibus parou e eu entrei ansiosa para achar um lugar, para sentar.
No ônibus vazio dava até para escolher um lugar. Escolhi o banco da
frente, para um passageiro somente... Que sorte!
Desta vez a viagem seria mais confortável! Mas nem deu tempo de
suspirar, e entrou uma outra passageira, robusta, com duas crianças, uma
sacola enorme, uma mochila de escola, mais o carrinho para carregar a
mochila... Depois outro passageiro e mais outro...
Eu me encolhi, temerosa de que a rodinha do carrinho batesse na minha
cabeça. Não bateu, mas foi por pouco... Lá se foram meus sonhos de uma
viagem confortável... A mãe se acomodou no banco de trás; o caçula, no
colo dela.
A menina, rechonchuda, de olhos castanhos, redondos, parecia uma
daquelas personagens alegres do Maurício de Sousa. Aconchegou-se junto à
mãe.
A tralha toda por cima... do jeito que dava, sabe como é?
O ônibus arrancou... Eu dondoca, admito, fiz cara de quem comeu e não
gostou.
Mas fazer o quê?! O jeito era torcer para chegar logo.
Olhei para trás, preocupada em me proteger. Nisso a mãe tirou da
sacola, dois copos de sorvete. Eu já me imaginava, aflita, prevendo sair
dali toda lambuzada de chocolate...
-- A senhora não acha melhor deixar para dar o sorvete às crianças,
mais tarde? -- arrisquei.
-- Não, não, ele precisa tomar agora! Acabou de arrancar três dentes,
e foi o dentista que mandou.
-- Três dentes?! -- Senti-me culpada por me preocupar com tão pouco,
enquanto aquele meninozinho...
Pobrezinho, pensei, enquanto a mãe quase que lhe empurrava uma
colherada de sorvete atrás da outra.
A mãe voltou-se para a menina, ao lado:
A menina abriu a tampa do sorvete e também começou a tomar...
Enquanto uma outra menina, de pé, filha de outra passageira, olhava
suplicante...
-- Dê um pouco pra ela, não viu que ficou com vontade?
Prontamente a menina começou a dar colheradas de sorvete para a outra
menina, que tomava de boa vontade.
--Chega! -- gritou a mãe da outra menina. A a mãe da outra menina não
queria abusar. Obediente, ela fechou a boca e a menina dos olhos bonitos
retomou ao sorvete. Eu apenas observava com ternura para aquelas
crianças inocentes e suas dificuldades. Percebi que a menina ficou de
repente muito enjoada...
-- Olha, eu acho que sua filha não quer mais o sorvete, avisei.
-- Não quer, mas tem que tomar!
-- Não force, isso faz mal...
-- Não faz mal, não. Ela tem que tomar tudo! -- E olhou para a menina
com um olhar fulminante.
A menina, por sua vez, esforçava-se por obedecer. Sorriu-me com um
sorriso tímido e agradecido pela minha intervenção.
Nisso, meu ponto chegou e eu nem percebi! Rapidamente, desci; mas
desci frustrada por não ter conseguido convencer aquela mãe de poupar a
menina daquele sacrifício que, afinal, não tinha nenhuma razão de ser!
Moral da História: Devemos sempre respeitar o livre-arbítrio das
crianças, no que diz respeito à sua personalidade e suas escolhas. Por
outro lado não se preocupar tanto com tão pouco.