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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 13 de julho de 2009 21:58:26                                               

 
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CRÔNICAS

Aviação

   

Nair Lucia de Britto

 

 


     Por volta de  quinze anos atrás, eu costumava viajar de avião.
Provavelmente, foram os momentos mais gratificantes da minha vida.
     O saguão do aeroporto  era um ambiente extremamente agradável e  tranqüilo. Não se escutava o que  pessoas refinadas e bem arrumadas conversavam em grupo ou aos pares. Os aeroviários, sempre solícitos, trabalhavam eficientes e sossegados.


     Na hora de viajar, os passageiros subiam as escadas do avião estampando em suas fisionomias serenas aquela sensação gostosa que antecede a uma deliciosa aventura.
     Éramos recebidos e muito bem servidos pelas aeromoças que sorriam e nos passavam gentileza e confiança.
     Era emocionante sentir o avião decolar, deixar o chão, e rapidamente ganhar o espaço; subir cada vez mais alto, até os prédios, veículos, ruas e gente parecerem miniaturas; peças graciosas de brinquedo.


     Depois o céu, o maravilhoso céu azul, com suas nuvens brancas flutuando ao nosso lado, encantadoramente visíveis através da janela. Ao mesmo tempo, as paisagens lá em baixo, uma seguida da outra, que ficavam lá trás...
enquanto experimentávamos a inesquecível sensação corriqueira dos pássaros.


     Uma dessas paisagens, em particular, ficou retida e inesquecível na minha memória, tal foi sua majestosa beleza: a cordilheira dos Andes!


     Penso que foi exatamente para experimentar essa felicidade que Santos Dummont inventou o avião.
     De repente, as dependências do aeroporto deram lugar ao tumulto. A expressão dos passageiros é de angústia e rancor. O barulho atrapalha e desestabiliza o trabalho dos funcionários; tira-lhes o equilíbrio necessário.
     Ninguém pára para refletir que o que está havendo é que há mais passageiros do que uma empresa aérea, por ora, pode comportar. A empresa por sua vez, no desespero de atender a grande massa se apressa e, nessa pressa,
se desestrutura, se desorganiza, mete os pés pelas mãos... Não se dá o devido tempo para reorganizar-se.


     Por sua vez, os passageiros não querem saber dos problemas da empresa, se aglutinam, gritam, brigam até com a própria sombra... uma energia negativa toma conta de todo ambiente... e tudo que foi ensinado e documentado por  cientistas no filme "O Segredo", sobre a Lei da Atração,
vai para o espaço.


     Quem sabe se, neste último desastre de avião, enquanto deslizava sobre a pista escorregadia, o piloto não teve a intuição de que deveria fazer meia-volta e parar o avião. Explicar aos passageiros: "Vamos esperar, está
perigoso..." Enquanto isso, rever as condições da pista e do avião."
     Por outro lado, o piloto sabia que nem os passageiros nem a empresa o perdoariam pela atitude ponderada,  pelo gesto de precaução. Talvez tenha desprezado ou ficado surdo à intuição, e seguiu em frente. Pressionado pela
cobrança de quem tinha pressa; pressionado pelo compromisso. Compromisso, esse, que lhe custou a vida.


     Muitas histórias tristes acontecem por causa da pressa!
     A pressa não é somente a inimiga da perfeição. É muito pior!
     A pressa tira o raciocínio, desequilibra o emocional, despreza cuidados. Às vezes, desgraçadamente, a pressa mata o apressado ou quem tem a infelicidade de estar no caminho dele.
     É lamentável ver que, diante de uma grande tragédia, tanta gente chora: mas continua com pressa!
 

 
  

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Nair Lúcia de Britto é poeta e jornalista.

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