O famoso
figurinista brasileiro, Clodovil Hernandez, uma das personalidades mais
expressivas da alta-costura no Brasil partiu para eternidade no dia 18
de março de 2009. Como estilista foi pioneiro no Brasil, e engrandeceu
nosso país no Exterior.
Nascido em 17 de junho de 1937, além de
estilista foi professor, comunicador de rádio, comunicólogo em
televisão, ator e cantor. Estreou no teatro como ator com a peça “Seda
Pura e Alfinetadas”.
Mas Clodovil não partiu triste! Acreditava
em Deus e na eternidade. Dava sempre importância à “essência” que é a
nossa alma; por isso gostava de ressaltar as palavras do grande poeta
Mário Quintana:
“Só está morto quem nunca nasceu.
Quando a gente nasce, nunca mais sai da eternidade”
Desde a sua infância Clodovil demonstrou
ser muito inteligente, sagaz, ter uma personalidade forte e bastante
singular. Aos onze anos de idade, uma tia contou-lhe que os pais dele
não eram seus verdadeiros pais e que era um menino adotado.
Em vez de se desesperar, como qualquer
outra criança reagiria, ele encarou a situação com surpreendente
naturalidade e respondeu à tia que aquele fato não tinha a menor
importância para ele, pois “ter um filho é fácil; criar e educar é o que
é difícil!” E amou sua mãe com todo amor que pode dar o coração de um
bom filho. E seguiu a vida sempre assim, sem se deixar abalar por nada e
nem ninguém. Valorizando e sabendo apreciar a arte e a beleza, viveu com
alegria, aproveitando todos os bons momentos de sua vida; e superando as
dificuldades sempre de cabeça erguida.
A moda despertou seu interesse desde
criança, pois gostava de dar palpites nas roupas que sua mãe, sua tia ou
primas vestiam. No colégio interno, onde foi estudar, seu apelido era
Jacques Fath, na época, um costureiro famoso.
No último ano do curso “Normal”, aos
dezesseis anos, uma colega de classe sugeriu que ele desenhasse um
vestido. De imediato, ele pegou uma folha de papel e desenhou vários
modelos. Nessa ocasião ele nem sabia que existia a profissão de
estilista; quando soube, entregou seus desenhos numa loja no centro de
São Paulo e ficou surpreso quando recebeu um valor em dinheiro superior
ao que costumava receber de mesada.
A partir daí desistiu da Faculdade de
Filosofia para trabalhar com moda, em 1956. Começou a atrair a atenção
de damas elegantes da alta sociedade, as quais ele passou a vestir. Uma
delas foi Hebe Alves (dona da antiga loja “Mappim”). Fez-lhe um vestido
para que ela fosse a um jantar num restaurante refinado de São Paulo (Maxim´s).
Criou um modelo de Cintura de Vespa e saia “balonê” Ela adorou o
vestido, e elogiou Clodovil ao constatar que o trabalho dele era
superior aos de Paris.
Em 1960, ganhou seu primeiro prêmio
“Agulha de Ouro” e ficou tão famoso juntamente com Denner (outro
estilista brasileiro da década de 70). Apesar da rivalidade e
divergências no decorrer da carreira de ambos, na verdade, eram bons
amigos.
Certa vez durante uma entrevista à
imprensa perguntaram a Clodovil quem ele gostaria de vestir, ele
respondeu:
“Júlia Lemmertz! Ela é uma pessoa que se
veste lindamente!”
Deixou a moda no auge da carreira, na
década de 1990, e entrou para a televisão. Dizia que gostava de falar
com as pessoas; queria poder ser-lhes útil e a televisão era um veículo
propício. Bem-vestido e muito elegante, ele se apresentava nos programas
de tevê com desenvoltura; expressando-se sempre de forma absolutamente
correta. Realmente “tinha o dom da palavra como poucos, embora nem
sempre agradasse”, conforme observou um de seus amigos.
Seu trabalho era muito divertido, mas como
dizia ele: “Não levo nada na brincadeira”. “O público não merece
descaso, por isso tenho grande respeito quando entro na casa dos
outros.”
Quando aborreceu-se de fazer televisão,
largou tudo. Jamais se sentiu derrotado. De espírito forte e sempre
confiante em Deus, procurou novos campos de trabalho. Quando indagado
sobre seus problemas financeiros ele respondeu com tranquilidade:
“De fato, perdi muito dinheiro, mas não me
sinto infeliz, porque eu convivo com a beleza”. Adorava todos os seus
cães, mas a predileta era sua cachorrinha Castanhola, fiel companheira.
Quando entrou para a política, foi eleito
deputado federal com 500 mil votos. Trabalhou em vários projetos, ainda
não aprovados.
Segundo a sua advogada, deixou um
testamento antes de assumir o mandato na Câmara dos Deputados,
pretendendo a criação da “Fundação Izabel” (nome da mãe adotiva) e da
“Casa Clô”, que deverá abrigar meninas órfãs.
Seus animais de estimação estão saudosos
de seu dono, e a linda casa que construiu carinhosamente em Ubatuba,
decorada com arte, sabedoria e as belezas naturais, ficou vazia. Mas a
altiva estátua de madeira, retratando um índio que ali viveu, parece
dizer:
“Aqui morou um grande artista!”.
NAIR LÚCIA DE BRITTO
POETA E JORNALISTA