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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 13 de julho de 2009 22:00:10                                               

 
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CRÔNICAS

Clodovil, uma personalidade brasileira

Nair Lúcia de Britto

publicado em 28/03/2009

 

O famoso figurinista brasileiro, Clodovil Hernandez, uma das personalidades mais expressivas da alta-costura no Brasil partiu para eternidade no dia 18 de março de 2009. Como estilista foi pioneiro no Brasil, e engrandeceu nosso país no Exterior.

Nascido em 17 de junho de 1937, além de estilista foi professor, comunicador de rádio, comunicólogo em televisão, ator e cantor. Estreou no teatro como ator com a peça “Seda Pura e Alfinetadas”.

Mas Clodovil não partiu triste! Acreditava em Deus e na eternidade. Dava sempre importância à “essência” que é a nossa alma; por isso gostava de ressaltar as palavras do grande poeta Mário Quintana:

Só está morto quem nunca nasceu. Quando a gente nasce, nunca mais sai da eternidade”

Desde a sua infância Clodovil demonstrou ser muito inteligente, sagaz, ter uma personalidade forte e bastante singular. Aos onze anos de idade, uma tia contou-lhe que os pais dele não eram seus verdadeiros pais e que era um menino adotado.

Em vez de se desesperar, como qualquer outra criança reagiria, ele encarou a situação com surpreendente naturalidade e respondeu à tia que aquele fato não tinha a menor importância para ele, pois “ter um filho é fácil; criar e educar é o que é difícil!” E amou sua mãe com todo amor que pode dar o coração de um bom filho. E seguiu a vida sempre assim, sem se deixar abalar por nada e nem ninguém. Valorizando e sabendo apreciar a arte e a beleza, viveu com alegria, aproveitando todos os bons momentos de sua vida; e superando as dificuldades sempre de cabeça erguida.

A moda despertou seu interesse desde criança, pois gostava de dar palpites nas roupas que sua mãe, sua tia ou primas vestiam. No colégio interno, onde foi estudar, seu apelido era Jacques Fath, na época, um costureiro famoso.

No último ano do curso “Normal”, aos dezesseis anos, uma colega de classe sugeriu que ele desenhasse um vestido. De imediato, ele pegou uma folha de papel e desenhou vários modelos. Nessa ocasião ele nem sabia que existia a profissão de estilista; quando soube, entregou seus desenhos numa loja no centro de São Paulo e ficou surpreso quando recebeu um valor em dinheiro superior ao que costumava receber de mesada.

A partir daí desistiu da Faculdade de Filosofia para trabalhar com moda, em 1956. Começou a atrair a atenção de damas elegantes da alta sociedade, as quais ele passou a vestir. Uma delas foi Hebe Alves (dona da antiga loja “Mappim”). Fez-lhe um vestido para que ela fosse a um jantar num restaurante refinado de São Paulo (Maxim´s). Criou um modelo de Cintura de Vespa e saia “balonê” Ela adorou o vestido, e elogiou Clodovil ao constatar que o trabalho dele era superior aos de Paris.

Em 1960, ganhou seu primeiro prêmio “Agulha de Ouro” e ficou tão famoso juntamente com Denner (outro estilista brasileiro da década de 70). Apesar da rivalidade e divergências no decorrer da carreira de ambos, na verdade, eram bons amigos.

Certa vez durante uma entrevista à imprensa perguntaram a Clodovil quem ele gostaria de vestir, ele respondeu:

“Júlia Lemmertz! Ela é uma pessoa que se veste lindamente!”

Deixou a moda no auge da carreira, na década de 1990, e entrou para a televisão. Dizia que gostava de falar com as pessoas; queria poder ser-lhes útil e a televisão era um veículo propício. Bem-vestido e muito elegante, ele se apresentava nos programas de tevê com desenvoltura; expressando-se sempre de forma absolutamente correta. Realmente “tinha o dom da palavra como poucos, embora nem sempre agradasse”, conforme observou um de seus amigos.

Seu trabalho era muito divertido, mas como dizia ele: “Não levo nada na brincadeira”. “O público não merece descaso, por isso tenho grande respeito quando entro na casa dos outros.”

Quando aborreceu-se de fazer televisão, largou tudo. Jamais se sentiu derrotado. De espírito forte e sempre confiante em Deus, procurou novos campos de trabalho. Quando indagado sobre seus problemas financeiros ele respondeu com tranquilidade:

“De fato, perdi muito dinheiro, mas não me sinto infeliz, porque eu convivo com a beleza”. Adorava todos os seus cães, mas a predileta era sua cachorrinha Castanhola, fiel companheira.

Quando entrou para a política, foi eleito deputado federal com 500 mil votos. Trabalhou em vários projetos, ainda não aprovados.

Segundo a sua advogada, deixou um testamento antes de assumir o mandato na Câmara dos Deputados, pretendendo a criação da “Fundação Izabel” (nome da mãe adotiva) e da “Casa Clô”, que deverá abrigar meninas órfãs.

Seus animais de estimação estão saudosos de seu dono, e a linda casa que construiu carinhosamente em Ubatuba, decorada com arte, sabedoria e as belezas naturais, ficou vazia. Mas a altiva estátua de madeira, retratando um índio que ali viveu, parece dizer:

Aqui morou um grande artista!”.


 

NAIR LÚCIA DE BRITTO

POETA E JORNALISTA

 

 
 
  

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