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Sou
saudosista. Gosto de guardar cartas, fotos, pequenos objetos que me trazem uma
boa recordação. Acho agradável quando, por exemplo, ocasionalmente abro um livro
e me deparo com uma foto antiga ou um velho recorte de jornal e revivo o prazer
de uma grata lembrança.
Um
desses dias, eu estava procurando um livro na estante e me surpreendi, quando
caiu do interior de um outro livro, alguns folhetos bastante amarelados pelo
tempo. Neles eu reconheci a minha letra de estudante, meio disforme, talvez pela
personalidade ainda em formação. Ali eu copiara uma definição sobre o que é
cultura. Infelizmente, na época, não tive o cuidado de anotar a fonte nem o
autor. Mas achei o texto tão inteligente que resolvi repassá-lo para que outros
também pudessem tomar conhecimento dele e refletir comigo:
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“Cultura é a comunicação espiritual de todos os homens. Se um homem permanecesse
no último dos últimos confins do planeta, sozinho, isolado, solto, abandonado;
sem ninguém para comunicar-se espiritualmente, a Cultura deixaria de ser o que
é; perderia seu significado.
“Cultura é o esforço que o espírito faz para salvar a tragédia íntima de nosso
destino, enlaçando nossas pobres consciências com algo de eterno e infinito.
“Esquece-se frequentemente que a cultura tem um problema sobrenatural como o tem
o homem; o saber culto nunca é o saber quantitativo: é um crescimento harmônico,
estrutural, vital e orgânico; é um saber de salvação.
“O
homem perdido na selva, que é a vida, salva-se pela cultura quando encontra o
caminho que lhe permita realizar seu destino inexorável.
“O
mais humano que há no homem é o que ele tem de divino; e este elemento, e não
outro, constitui sua autêntica natureza humana.
“Tornar-se culto não é apenas alcançar um mundo espiritual autônomo; é chegar a
compreender com consciência clara a condição histórica da época.
“A
cultura precisa possuir uma idéia completa do mundo e do homem. A vida não tem
espera, nem sabe esperar; seu atributo essencial é a urgência. Vive-se este
instante, hoje, sem demora possível, sem esmorecimento.
“O
homem no momento vive no mito. O mito consiste em dotar de consciência o
fenômeno físico; em dotar de consciência a Terra. É o terror, ou a necessidade,
ou a esperança.
“O
mundo era para o homem primitivo desordem, irregularidade, capricho.
“Os
mitos se multiplicam; necessita-se pôr ordem nessa desordem, uma unificação, um
método.
“O
mundo que tenho diante de mim não se basta a si mesmo; tenho de lhe procurar a
origem. Este é o momento em que a consciência pré-cultural vai se converter em
cultural, em científica.
“O
homem começa a sentir as coisas como um problema; a ciência lhe dará as
soluções, construirá as verdades. O homem aspira esse preceito. Viver conforme o
capricho é de plebeu; o nobre aspira a preceitos e a lei.
“Um
dos melhores resultados da cultura é a criação de um povo culto. Um povo culto
não quer dizer um povo onde haja uma cultura geral: isto é uma cultura vaga e,
por conseguinte, sem o menor valor. Não: um povo culto é um povo ricamente
articulado em classes e categorias, onde cada um tem um modo digno de se
comportar diante da vida e de aceitar seu destino.
“Pois bem, esta tarefa que consiste em fazer do homem natural um ser culto,
portador de valores eternos, capaz de criar e produzir novas zonas de cultura;
compete à educação, que é, por isso mesmo, um processo de formação cultural.”
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Dizem os espiritualistas que nada acontece por acaso; portanto, eu acredito que
não foi por acaso que esse texto sobre cultura que eu copiei algum dia, em algum
lugar e por algum motivo, caiu de repente aos meus pés.
Também acredito que não é por acaso que eu senti um desejo quase que imperioso
de retransmiti-lo...
Porque esse é um momento em que se requer repensar sobre o que realmente seja
cultura; porque a Terra passa por um momento muito confuso, que nos conduz ao
perigo; um momento em que se esquece verdadeiros valores, em detrimento da
Terra, da Natureza, do Espírito e da Família.
Nair
Lúcia de Britto
Poeta e Jornalista
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