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Hoje de manhã eu acordei com saudades da minha
infância. Do tempo em que eu morava com meus avós na rua Campos Melo, em
Santos. Lembrei daquelas manhãs ensolaradas que iluminavam os
paralelepípedos limpos e daquele cheiro gostoso de tranquilidade...
Todas as manhãs o padeiro vinha trazer pão
fresquinho, crocrante à porta e o litro de leite num recipiente de vidro.
Quando a minha avó tirava a tampinha, tinha aquela nata consistente na
borda. A manteiga que a minha avó passava no pão que ela me oferecia, era
uma delícia! Naquela época as feiras não existiam. Era o verdureiro quem
vinha trazer, numa carroça, verduras frescas, sem agrotóxico (que também não
existia) e diversas frutas.
Minha tia gritava para a minha avó:
-- Mãe, o verdureiro chegou!
Lá ia eu correndo atrás da minha tia e da
minha mãe, ajudar a escolher as frutas...
Goiaba não precisava, porque tinha bastante
lá no quintal. Abóbora também.
A hora das refeições era a hora mais
sagrada do dia. Ninguém começava a comer, enquanto não estivessem todos à
mesa. Meu avô impunha silêncio absoluto, agradecíamos a Deus pelo alimento e
saboreávamos a comida feita a muitas mãos.
Na esquina tinha sempre uma vendinha, uma
quitanda, uma padaria, uma banca de jornais, na qual eu comprava figurinhas
e revistas em quadrinhos. Para as moças, tinha revistas de fotonovelas.
Pornografia, mulher pelada na capa de revista isso também não existia...
O amolador de facas sempre passava pela
rua, tocando um instrumento musical muito peculiar ao seu trabalho. Minha
mãe, que era costureira, aproveitava para amolar suas tesouras. Fazia
vestidos para a minha avó, para suas irmãs, para mim... Foram os vestidos
mais bem-feitos que eu vesti na vida! Com esmêro, com carinho jamais vistos;
pelo menos por mim.
A casa era um sobrado, com um belo terraço
onde as samambaias caiam verdejantes de dois grandes vasos. Meus avós
gostavam de sentar-se ali, depois do jantar, para apreciar o luar e o
movimento da rua. A distração das pessoas era essa; apreciar as estrelas no
céu, o frescor da noite e jogar conversa fora... Televisão também não
havia...
Meu pai trabalhava no interior de São
Paulo, lá pros lados de Atibaia e só podia vir pra casa nos finais de
semana. Eu ficava esperando por ele, ansiosa, sentada no portão. Ele chegava
cheio de saudades e de brinquedos. Era uma festa! Ele nos levava eu e minha
mãe para almoçar num bom restaurante e, depois, passear.
Duas tias minhas (Ernestina e Olga) sabiam
tocar violão e cantar. E, nas noites de sábado, depois do jantar e da
sobremesa toda a família se reunia na sala de visitas para ouvir suas lindas
canções... Todos nós cantávamos junto. Eu também! Talvez seja a lembrança
desses momentos tão agradáveis e preciosos da nossa família que até hoje eu
adoro escutar um violão.
Aos domingos eu ia a “matinée” do cinema de
bairro. Passava sempre dois filmes com um intervalo no meio. Antes do
segundo filme, passava um seriado do Batman, do Tarzan ou do Homem Aranha.
Eram filmes de aventura, inocentes, que acabavam sempre num momento de
suspense total; mas a continuação da história a criançada só poderia ver na
tarde do domingo seguinte.
Em vez de ônibus o meio de transporte era o
bonde. Eu achava divertido viajar no primeiro banco. Meu pai gostava de
viajar de pé, no estribo; minha mãe guardava o chapéu dele (complemento
indispensável do terno e da gravata) sobre o seu colo e lá íamos os três,
nos divertindo a valer com aquele simples passeio de bonde!
O portão da nossa casa não tinha tranca.
Não precisava... Não se ouvia falar de assaltos, nem de violência.
-- Olha lá o carrinho do algodão-doce, pai!
Me compra?
Que doce era aquele algodão-doce!
Que doce era aquela vida!
Nair Lúcia de Britto
Poeta e Jornalista |