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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 24 de agosto de 2009 21:06:21                                               

 
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CRÔNICAS

Fazer o bem, olhando a quem...

Nair Lúcia de Britto

publicado em 03/08/2009

Meu pai era uma pessoa de princípios rígidos. Não tolerava brincadeiras de mau-gosto.

 

Respeitava a todos, mas também exigia respeito. Ficou órfão muito cedo, aos quatro anos idade. Um dos meus avós adoeceu e, ao partir, levou o outro que não suportou tanto desgosto.  

 

Sua infância, por isso, foi muito difícil; mas ele, sempre batalhador, desde criança, venceu todas as dificuldades. Não só as venceu como tornou-se uma pessoa muito solidária. Nunca negou um “pão” a quem viesse lhe pedir ajuda.

 

Outra característica sua era um carinho muito especial que meu pai tinha pelos animais.

 

Lembro-me que na nossa casa tínhamos passarinhos, papagaio, piriquito e tudo mais...

 

Mas papai não teve muita sorte com as aves. Os passarinhos morreram e o papagaio que lhe dizia todas as manhãs: “Papai, quero café” fora roubado.  

 

Muito desgostoso, meu pai resolveu, então criar cães. Nós tínhamos três: Duque, o mais velho; Pitoco (tinha esse nome porque tinha um toco no lugar do rabo); e o Mick, mestiço de Fox, e o meu predileto, pois me cativava pela sua alegria e agilidade.

Era meu pai quem comprava a carne para todos eles e ele mesmo quem a cozinhava. Na hora de distribuir a comida era uma fulia... Ele adorava alimentá-los e sair com eles à rua, soltos... Eles pulavam de alegria em volta do seu dono, que tanto amavam...
 

 

As pessoas olhavam curiosas... Meu pai parecia uma criança feliz, com seus animais de estimação. E isso não era muito comum, naquela época. Mas ele seguia caminhando; chapéu na cabeça, os passos firmes e o olhar indiferente à curiosidade alheia. Àqueles que se arriscavam a fazer alguma observação inoportuna, ele apenas respondia que nos animais ele encontrara mais amigos do que nas pessoas. E logo dava o assunto por encerrado.  

 

Tínhamos uma vizinha, pessoa de poucos recursos, que também possuía um cãozinho: magrinho, mirrado, com jeito de quem estava com fome. Inconformado e apiedando-se dele, meu pai chamou a vizinha, alertando-a severamente sobre o estado do coitado. Ela alegou que só podia lhe oferecer feijão com arroz.

 

Meu pai entrou em casa como um foguete e pôs a carne dos cachorros para cozinhar. Depois de esfriar, ele voltou à casa da vizinha e ofereceu vários nacos ao cachorrinho, que parecia querer sempre mais. Ele nem mastigava, engolia a carne, sofregamente... Meu pai lhe dizia: “Você não vai mais passar fome... de agora em diante vou cuidar de você”. Depois, voltou para casa, satisfeito com a sua boa ação...  

 

Mas qual o quê!... Na manhã seguinte, quando foi procurar seu protegido, o bichinho estava inerte, sobre o solo do jardim, as perninhas para cima... Parecia uma baratinha! O pobre havia morrido de tanto comer...  

 

Bem, eu acho que vocês podem imaginar como meu pai se sentiu ao ver o resultado tão infeliz do bem que ele quis fazer, de todo o coração...
 

 

                                      NAIR LÚCIA DE BRITTO

                                           Poeta e Jornalista

 

(Ao meu pai que está no céu e a quem eu amo)

 

 
 
  

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