|
LADRÃO! LADRÃO! Gritava pelas ruas da cidade.
Corria. O povo assustado sem entender se era
"pega ladrão!" ou "ali vai um ladrão" ou ainda
"quem viu o ladrão?" e, de grito em grito, ele
ia chegando perto da farmácia. Gritou até à
porta do farmacêutico. Na farmácia, abriu a boca
a chorar. Ficou em soluços e atirou o "veneno"
aos pés do farmacêutico.
Aquela pequena cidade onde as pessoas são todas
da mesma família, não impede o orgulho e o
preconceito. Um rico fazendeiro querendo ser
mais do que outro; um político mais do que
outro. A cidade dividida.
João, filho de um funcionário público, em uma
noite após um dia de trabalho cansativo. Chega
em casa sem se conter de alegria. Certo de que
aquela noite será noite de festas. Na companhia
de sua garota que tanto ama.
Final de ano. Festejos natalinos no centro da
cidade. Carrosséis espalhados defronte a igreja
matriz: alegria da criançada; jogos de azar, a
juventude apostando na sorte. O padre se prepara
à celebração da missa à meia-noite. Os fiéis
começam a se organizar na porta da igreja. A
banda de música toca no coreto da praça. Os
casais de namorados sonham ao som da mais linda
canção. Mais adiante, um prédio iluminado,
repleto de jovens da sociedade que providenciam
o baile; próximo a dar início a grande festa ao
som de mais uma banda.
Selecionam, o organizador do baile na porta do
prédio, os participantes. João, cheio de
ilusões, promete ser sua melhor noite. O período
de nove dias de festa estava só iniciando. Ao
lado de sua namorada, João caminha em direção ao
baile.
Aproxima-se do porteiro. Sem exitar, entretanto,
o porteiro barra sua entrada: "Você não pode
entrar aqui, João. Este baile é para ricos". No
entra não entra, a namorada desiste, João,
impertinente, discute, argumenta, mostra seus
motivos naquela noite de festa na cidade.
Humilhado. Sentindo-se o último ser humano da
Terra, sai cabisbaixo, sem conter as lágrimas.
Sentindo-se um trapo. Com vergonha de sua
namorada. Soluça como uma criança. Esquece que
está acompanhado. Quando lhe faltam as forças,
senta-se na primeira calçada, em lágrimas,
lamenta a vida, a sorte e a pobreza.
João está na infância. O carinho dos pais. As
brincadeiras com seus amigos de escola. Um filme
em suas lembranças. Seu pai, ao chegar em casa,
com aquela boina na cabeça, de funcionário dos
Correios. As pessoas da cidade, todos os seus
conhecidos, vizinhos, parentes.
Indignada, a parceira de João se despede.
Deixa-o sozinho. Ia João com seu olhar embaçado
a acompanhar a namorada até onde o escuro lhe
consome a imagem. Ela desaparece. João, sem
forças, quer passar a noite na calçada. Vê
pessoas indo à festa. Escuta o som da música. O
baile está começando. O paletó de João
amarrotado. A gravata na mão é o lenço que apaga
o choro.
Levanta-se da calçada. João se posiciona de
autoridade e começou um discurso solitário:
"Funcionário público não é gente! É uma vergonha
seu salário. Não adianta vocês quererem me
convencer. O porteiro do baile tem razão. Eu sou
mesmo um trapo. Filho de um funcionário dos
Correios, que recebe por mês um salário de
fome". Caminha bêbado com suas palavras. Avista
uma placa luminosa com o nome FARMÁCIA.
Dirige-se à drogaria. O farmacêutico, sem
entender o que estava se passando, quando João,
aos gritos, perguntou: "O senhor tem veneno pra
vender?" O farmacêutico: "Veneno?!"
Sim. Veneno. O senhor não conhece veneno?
Conheço.
Eu quero o maior veneno que o senhor tenha na
sua farmácia. O mais poderoso. Traga o seu
veneno. Diga quanto é.
Que veneno?
Eu tenho dinheiro pra pagar. Olhe a cor de meu
dinheiro! Por que o senhor está me olhando desse
jeito? Eu sou filho do seu primo. Não me
reconhece?
Claro que eu conheço. Não é o filho do carteiro?
O senhor tem ou não tem veneno pra me vender?
Assustado, o farmacêutico foi à prateleira.
Apanhou um. O mais forte de sua farmácia. Tarja
preta. Entregou-lhe. Mostrou-lhe a tarja.
Garantiu-lhe ser o veneno mais poderoso da
indústria farmacêutica.
Aparentemente, João estava mais calmo.
Convencido que, no dia seguinte, estaria morto.
João deixou a farmácia suando frio. Amanhã, há
esta hora, João estará morto. E nunca mais
passará vergonha igual a que passou. E nunca
mais será tangido daquela porta de baile igual a
um cão vira-lata.
Sentimento de tristeza. Revolta. O carinho dos
pais. A conversa dos vizinhos, dos parentes, dos
amigos de escola. A vida por um fio. Estava vivo
agora e, em seguida, não mais estaria. A
namorada que a viu a última vez pelas costas,
sendo consumida pelo escuro. O pai chegando dos
Correios, suado, cansado, sem dinheiro e
sem-vergonha. Estava decidido. Mais tempo do que
vida? Não teria mais tempo e nem vida. A decisão
era final.
Cego de raiva, não leu a bula do remédio. Queria
bebê-lo de uma sentada. Em casa, preparou uma
dose cavalar. Feito um rato faminto, entrou no
quarto. Bebeu o "veneno" com toda a certeza de
pôr um fim na própria vida. A reação da
hiperdose foi cair em sono profundo.
De manhã. Acordado. Fez-se a pergunta: "Onde
estou? No céu ou no inferno?" Olhou as paredes
do quarto. Reconheceu algo familiar. Não se
conformou com o que estava acontecendo. Saiu do
quarto com uma crise, aos gritos: "Eu mato. Vou
matar aquele ladrão! Farmacêutico ladrão".
Saíra de porta afora aos berros: LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO!
LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO!
LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO!
LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO!
LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO!
LADRÃO! LADRÃO! Gritava pelas ruas da cidade.
Corria. O povo assustado sem entender se era
"pega ladrão!" ou "ali vai um ladrão" ou ainda
"quem viu o ladrão?" e, de grito em grito, ele
ia chegando próximo à farmácia. Gritou até à
porta do farmacêutico. Na farmácia, abriu a boca
a chorar. Ficou em soluços e atirou o "veneno"
aos pés do farmacêutico.
|